Religião: O custo da alienação

Em plena era da clonagem, do conhecimento genético do DNA, dos transplantes de órgãos, do desenvolvimento da robótica, das viagens aeroespaciais, centenas de milhares buscam a “salvação eterna” como saída preferencial para a explicação da existência humana, corporificada em um ser superior, situado nas calendas do além e nos caminhos percorridos pela alma desconectada do corpo físico. Essa perspectiva da eternidade da alma humana não deixa de ser uma posição por demais egocêntrica de se achar que os seres em toda a sua particularidade são devidamente insubstituíveis e que têm, portanto, que viver eternamente, nem que para isso tenha que se criar uma vida após a morte. Só o mundo em toda a sua plenitude universal pode ser considerado eterno, mesmo assim dentro de uma temporalidade medida pela infinitude do espaço. Nesse sentido, o mundo existiu desde sempre e existirá para sempre, mesmo em processos de mudanças e autodestruição até.


No Brasil, como divulga a revista Galileu, de julho/2002, mais de 90% creem em Deus, segundo dados divulgados pelo IBGE. Nos Estados Unidos, essa porcentagem já ultrapassa os 96%. Além disso, Galileu diz que nos últimos dez anos foram criadas cerca de 100 mil novas religiões no mundo; mesmo assim, não se parou de realizar matanças e guerras indiscriminadas.
Por que essa tamanha necessidade em ter fé? Os filósofos, os cientistas sociais, a Medicina e a Psicologia, entre outros ramos do conhecimento, têm contribuído para atacar verdades absolutas propiciadas pela fé, ao tempo em que buscam respostas mais aproximativas e racionais possíveis aos questionamentos que as mentes esquadrinham para resolver os problemas do ser, da vida e da morte.
Um dos fenômenos da fé mais intrigantes neste começo de século é o crescimento das religiões de caráter fundamentalistas, não apenas no mundo islâmico, mas no mundo cristão, sobretudo em várias partes do planeta, em especial aqui no Brasil. Tem-se, por exemplo, o crescimento acelerado das igrejas evangélicas, como são conhecidos os protestantes nos dias de hoje, sobretudo os que se autodenominam de “pentecostais” e “neopentecostais”, das quais fazem parte a Igreja Assembleia de Deus, a Igreja Universal do Reino de Deus, a do Evangelho Quadrangular, etc. Tal crescimento é uma realidade inquestionável.
A sofisticação da ação religiosa obedece a uma necessidade material de existência. Portanto, a ação religiosa dos evangélicos protestantes, por maior que tenha sido o seu crescimento (em 1991 os católicos representavam 83,8% e os evangélicos 9,0%; já em 2000, os católicos representavam 73,8% e os evangélicos haviam atingido 15,4%), está ainda distante de ocupar uma posição majoritária no cenário nacional. No entanto, não nos restam dúvidas de que são eles que representam melhor o imaginário construído pelo senso comum, pelo consumismo e individualismo na sociedade capitalista, ou, como afirmou Max Weber, a religião preferencial do capitalismo. São, assim, capazes de construir uma representação mais próxima do mundo, predominantemente dominado pela mercadoria e pelas trocas mercantis, baseada na lei do valor e da consequente extorsão da mais-valia, na forma de lucro, criada pela compra da força de trabalho da classe operária, em particular, e pelas multidões de proletários em geral, como bem demonstrou Karl Marx.
Assim, os apelos dos pastores protestantes são, na maioria das vezes, de cunho eminentemente material, apesar das delongas, exaltações e louvores apelativos.
“Enquanto a Igreja Católica prega o sofrimento na Terra, os neopentecostais ensinam que Jesus já pagou o pecado das pessoas na cruz e que, portanto, elas não precisam sofrer mais”, diz o pastor Anderson Angelotti Morais à revista Galileu, faltando acrescentar que, para viver bem não importa que milhares de seres humanos estejam totalmente à margem do processo da “salvação”, pois esse é, na verdade, um privilégio de alguns poucos eleitos. O que interessa no final das contas é uma busca constante pelas coisas materiais que, em última instância, é a verdadeira fonte alimentadora do espírito.
O mundo hoje já não é tão obscuro quanto há alguns séculos, graças ao trabalho diligente e pioneiro de alguns talentosos, geniais e revolucionários homens das ciências, como o matemático Euclides (séc.III), o astrônomo Copérnico (séc. XVI), o físico Galileu (séc. XVII), o químico Lavoisier (séc. XVIII), os biólogos Bernard e G. Mendel, os antropólogos Lamark e Darwin (séc. XIX), os psicólogos Wundt, Fetchhnes, e Freud (séc. XIX) e os filósofos, sociólogos e economistas como Kant, Dukheim, Marx e Engels (séc. XIX) e tantos outros que depositaram suas vidas em prol de um mundo melhor para a humanidade. Não foram poucos os que, mesmo atuando em áreas específicas das ciências, conseguiram galgar significativos degraus da totalizante árvore do conhecimento, como era e continua sendo a filosofia dialética e materialista.
Muitos deístas trabalharam e trabalham utilizando-se de métodos e materiais teóricos analíticos que em nada se assemelham às fabulosas passagens bíblicas, em que estão depositadas as suas crenças e os seus compromissos com a fé. Ao contrário, as bases em que estão depositadas as ciências físicas, químicas, psicológicas, matemáticas, econômicas, históricas e sociológicas justificam-se profundamente no materialismo histórico e dialético, fonte para o conhecimento objetivo e subjetivo da realidade, apreendida pela razão e a emoção de homens e mulheres autodisciplinados e igualmente sensíveis.

Os evangélicos e a alienação

A religião como um todo – e os protestantes em particular – apregoa pelos cantos do mundo que os problemas que afligem a todos são meramente de ordem individual e de fácil resolução. Não é à toa, portanto, que Marx afirmou ser a religião o ópio do povo, uma verdadeira droga capaz de cegar o indivíduo a tal ponto que este não vislumbre por um longo período, às vezes por toda uma vida, a possibilidade do ser humano, ele mesmo, por si próprio, chegar e tomar a responsabilidade de uma ação conjunta e coletiva para a construção de uma nova realidade.
Há em todas as religiões ocidentais a crença de que um mundo puro e solidário será possível de se alcançar após a morte e num encontro com o “Deus criador”.
Pode-se afirmar que essa é uma das máximas da fé cristã, que acaba por ser reforçada na mente dos milhares de proletários e pessoas simples amedrontadas pela violência, desemprego, miséria, fome, péssimas condições de vida e falta de perspectivas para a juventude. As mazelas que o capitalismo reserva para o conjunto dos trabalhadores e demais massas humanas sem ocupação e no desemprego crônico, toda essa miséria existencial, enfim, seria compensada com a chegada da justiça divina e do paraíso celestial.
A questão se torna grave na medida em que amplas massas, além de se deixar explorar nos momentos de “normalidade” e de dominação política e ideológica da burguesia, acabam por reforçar o embrutecimento espiritual do ser, do aumento da reificação e das formas de alienação como um todo. E é nesse clima geral que os protestantes e demais religiões, em seus diversos segmentos, obtêm respaldo significativo daqueles que vivem no eterno movimento de instabilidade e insegurança, vítimas da exploração capitalista e das desigualdades da sociedade de classes.
O efeito causado pela religião na sociedade não pode ser encarado nem medido como um fator positivo no que se refere ao melhor desempenho na formação do caráter dos homens e mulheres em geral e da juventude em particular. A religião é, em todos os seus aspectos, profundamente alienante e conduz os indivíduos que a professam ao exercício defeituoso da maneira de raciocinar, bem como de se conceber e chegar à verdade e à totalidade dos fenômenos. A realidade se apresenta então em forma de fragmentos, de um amontoado caótico e pouco inteligível de partes, destituídas de rigor, de causalidades internas ou de necessidade de comprovações – afinal de contas, “Deus explica tudo”.
Essa realidade vivida pelos homens é estabelecida como algo perfeitamente criado por Deus e só pode ser modificado com o “Seu” consentimento, o “Seu” acordo e no tempo que “Este” bem entende; por isso é que o mundo, para aqueles que professam tal tipo de crença, é visto muitas vezes com um profundo desinteresse, o que os faz reservar-se para o “outro mundo”, pós-morte, o verdadeiro devir. Na verdade, acabam sempre por invocar a personificação de um “ser superior” para justificar toda espécie de atos que, na maioria das vezes, só obedecem aos interesses mesquinhos, pois são utilizados pelos indivíduos de forma isolada e em defesa dos fragmentos, do que poderíamos chamar de pulverização do ser, em detrimento do aspecto totalizante, que nos é fornecido por uma concepção de mundo que trata o referido ser de uma maneira globalizante, em toda a sua plenitude.
Muitos, ou melhor, quase todos, têm dificuldade em conceber a matéria do seu próprio corpo como algo finito, uma matéria que entra em estado de putrefação – decomposição e fim. Todos os seres que se identificam com a concepção idealista de mundo não aceitam de maneira tranquila o processo material de definhamento do ser. Acreditam que, dessa forma, o ciclo da vida do indivíduo não se teria completado, dado que ele não cessaria na morte material; o contrário dessa relação de rompimento seria mais dolorosa do que realmente é para a cultura cristã.

Os evangélicos e as massas

A crença na religião, em especial pelos evangélicos, tem de fato conseguido mobilizar amplas massas, mesmo que heterogêneas quanto à sua composição de classe, pois os diversos segmentos dentro das igrejas refletem, na maioria das vezes, a sua localização territorial, o seu público e suas políticas de crescimento e arregimentação de fiéis, que são bastante diferenciados.
Por ocasião da Semana Santa, por exemplo, em Belo Horizonte, os evangélicos colocaram em praça pública – por ironia na Praça do Papa – nada mais nada menos que 100.000 pessoas; em São Paulo, em uma “Marcha para Jesus”, organizada pela Igreja Renascer, houve uma concentração de aproximadamente 1.000.000 de pessoas, na sua maioria compostas por jovens dispostos à militância religiosa cristã.
Uma base invejável, sem dúvida, pois poucos são os partidos que possuem – se é que possuem – esses números, e isso tem alvoroçado os líderes evangélicos, não apenas no sentido do crescimento de suas bases religiosas no Brasil e no mundo, mas também por possibilitar uma manipulação de massas, e até mesmo para ocupação dos espaços políticos. E tudo isso sem falar nos projetos pessoais de enriquecimento de pastores e bispos à custa da exploração e roubo de populações miserabilizadas. Quanto à representação política, não é à toa que se verifica um crescimento de candidatos evangélicos de eleição para eleição, assim como cada vez mais a presença de políticos profissionais carreiristas em seu meio. Só para ilustrar, há a presença do evangélico ex-governador do Rio de Janeiro, segundo Estado mais importante do país, o senhor Anthony Garotinho; além disso, o senhor Luís Inácio Lula da Silva foi buscar apoio de um empresário para ser seu vice, justamente do Partido Liberal (PL) que, por sinal, abriga as bases políticas da IgrejaUniversal do Reino de Deus, arqui-inimiga da Igreja Católica, que tem suas bases militantes em maior númerono Partido dos Trabalhadores (PT).
As igrejas evangélicas são cada vez mais visitadas e o número de fiéis aumenta consideravelmente ano após ano. O que sustenta essas igrejas é, em primeiro lugar, o dízimo dos fiéis. Essa é a base de alavancagem da acumulação de recursos por parte dos pastores e diáconos das diversas igrejas, cada vez mais divulgada nos círculos da juventude, indo da simples contribuição individual de 10% da renda por mês às mega-arrecadações em estádios de futebol até a venda de livros, bíblias, revistas, shows de música gospel, etc.
Essas igrejas conseguiram acumular, ao longo dos anos, capital suficiente para adquirir inúmeras empresas de comunicação de massa (rádios, televisões, etc.), além de outros tantos esquemas nada santos de lavagem de dinheiro. Elas têm conseguido, de maneira surpreendente, apoderar-se de fundamentais instrumentos de divulgação e comunicação, superando, dessa forma, a religião tradicional, que, no receio de ser suplantada, acaba por utilizar métodos de exaltação antes só verificados em igrejas evangélicas e agora também pelos fiéis ditos carismáticos da Igreja Católica.
A igreja evangélica protestante é, na verdade, uma empresa capitalista que, como outra qualquer, visa obter, com todos os seus esquemas de corrupção e de jogos de interesse, o lucro. Este, inicialmente é acumulado pela contribuição voluntária dos fiéis por meio do dízimo, arrancado com forte apelo, destituído de qualquer sentido de humanidade. Mas essa acumulação é básica das igrejas e não para por aí, haja vista que a cada dia mais empresas capitalistas são adquiridas por elas, onde o lucro é obtido pela maneira clássica do capitalismo, por meio da exploração do trabalho.
Um fato a salientar ainda é que o Brasil, por muitos anos considerado como “um país católico”, vem agora conhecer a força do protestantismo, que desde muito tempo é a religião preferencial do imperialismo no mundo, em especial nos Estados Unidos da
América.

A Igreja e o Estado

Em boa parte dos Estados capitalistas atuais, sobretudo no mundo ocidental, houve a separação entre a Igreja e o Estado. Claro que isso não significou um rompimento com a fé divina, concebida de comum acordo entre as diversas correntes teológicas e a classe dominante, a burguesia. Esta, por sua vez, esteve em contradição com a religião apenas por um curto período, quando da instalação da Revolução Francesa, que, baseada nos ideais iluministas da razão, servia a burguesia na luta contra a aristocracia feudal, que tinha na Igreja Católica Apostólica Romana seu mais forte aliado e sustentáculo político e ideológico do poder de Estado. Em nome da religião e em nome de Deus, o derramamento de sangue da espécie humana foi uma constante em toda sua trajetória de afirmação da “salvação” do homem pelo reino de Deus.
Para os momentos atuais, a religião protestante é, por assim dizer, a que mais se ajusta ao modo de produção capitalista, pois ela possui um discurso que fortalece o individualismo, a “livre iniciativa”, o mercado e o consumismo. No entanto, habilmente, a burguesia não descartou qualquer espécie de ideologia religiosa alienante no curso de sua existência.
As religiões, em especial os evangélicos protestantes, propõem-se ainda a amparar o sujeito que se sente fragilizado na ordem capitalista, que, ao aderir a Deus pelas mãos do pastor, reconhecido como seu instrumento, passa a achar que está entrando num ambiente de fraternidade, solidariedade e dignidade. Felizmente muitos conseguem enxergar, tempos depois, que esse não passa de um ambiente de hipocrisia e mesquinhez. O que se propõe e se oferece, na verdade, é a pacificação do espírito daquele que persegue a riqueza, ou do que quer se livrar dos tormentos nossos de cada dia. Em outras palavras, é a religião que propõe o ópio “pacificador” para uns tantos miseráveis e que encoraja e dá instrumentos a um punhado de “empreendedores” que corre atrás do lucro e da consequente exploração da força de trabalho. Não é por acaso que um número cada vez maior de grandes, médios e pequenos empresários vem também aderindo às religiões protestantes em todo o mundo. Como diz a revista Veja, “lucrar é legítimo, e a fortuna recompensa, quem mais trabalha”, corroborando com o velho credo calvinista adaptado aos novos tempos.
Mas os números falam mais do que muitas palavras, ou seja, o mercado impulsionado pelos protestantes movimenta três bilhões de reais por ano e gera pelo menos dois milhões de fiéis militantes, que são, com toda certeza, a base de uma estrutura nada ingênua, muito menos pura e destituída de pecados carnais.
Diz Almir de Souza Maior na referida revista Veja: “Os fundamentos do movimento protestante pregavam a mobilização do indivíduo e do desenvolvimento de uma ética de responsabilidade social”. Podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que isso não passa de favas mal contadas, pois o que predomina mesmo no caráter do indivíduo, que adere ao protestantismo, é a alienação, que o leva à acomodação e a uma passividade que só é possível de ser quebrada de forma radical quando do aprofundamento de uma crise objetiva nas relações sociais de produção. Em última instância, quando se instalar uma situação revolucionária, uma situação de agitação social intensa, alguns correrão aos pés dos pastores na busca da solução da crise, mas só encontrarão as soluções dos problemas por meio da luta e da reação organizada e consciente; quanto aos burgueses e pequeno-burgueses, que professam essa fé, o desespero e a reação contra-revolucionários serão as únicas opções, e o acirramento da luta de classes, portanto, estará mais uma vez colocado na ordem do dia.

O fanatismo religioso e a luta de classes: a questão islâmica

Não é nenhuma novidade mais para o mundo ocidental e para todo o conjunto dos países capitalistas o entendimento do processo por que vem passando os países que compõem o chamado mundo islâmico ou mulçumano. À primeira vista, as informações que nos chegam deixam transparecer que a grande luta travada no Oriente Médio seria puramente de conteúdo fanático – religioso. É como se a luta entre classes, segmentos de classes ou castas e camadas exploradas de trabalhadores e do povo em geral não existisse naquele espaço do planeta. Mas o que ocorre é algo bastante diferente e só por meio de um olhar mais aguçado na realidade dos países que compõem o mundo Islâmico, é que podemos nos aproximar da natureza desses países.
Claro que tentativas podem ser desenvolvidas, mesmo num nível restrito de pequenos esboços ou até mesmo de breves ensaios que apontem e possibilitem elementos para uma análise, a mais aproximada possível da realidade da classe trabalhadora, que, dentre outras coisas, ainda está sobre a influência de ideologias reacionárias, como é, por exemplo, a religião, agora representada pelo Islamismo, numa nova tentativa de aproximação desse processo histórico difícil e por demais conturbado de luta de classes.
As informações que nos chegam do mundo islâmico são por demais deturpadas, na medida em que estabelecem uma verdadeira filtragem da dinâmica e do processo de enfrentamento dos povos islâmicos com o mundo ocidental. Os Estados Unidos, por exemplo, com toda a sua capacidade propagandística e de disseminação de ideologia, deturpam de modo especial a forma como são realizadas as representações domundo islâmico ou da cultura muçulmana. O que resta como representação simbólica dessa realidade para o consumo do Ocidente é a imagem estereotipada do fanatismo religioso pronto a matar e a se lançar à morte em nome de um deus estranho e contra a civilização, cultura e modo de vida superior, leia-se, o Ocidente capitalista.
Na Idade Média, a Igreja Católica Apostólica Romana desenvolveu verdadeiras cruzadas contra o mundo islâmico, no sentido de ampliar seu império no Oriente, bem como de estabelecer claramente suas fronteiras, pois estas viviam sendo ameaçadas constantemente por aqueles que não professavam o Cristianismo e que mantinham interesses econômicos e políticos de expansão. Na verdade, os católicos, em sua “Guerra Santa” contra os povos mulçumanos defensores do Islamismo, estavam cumprindo um papel importante para os Estados feudais da Europa, na medida em que estes depositavam total confiança no papel da Igreja Católica, instrumento polarizador, unificador e coesionador das forças desses diversos feudos, que, muitas vezes, viviam dispersos ou em guerras seculares entre si.
A Igreja cumpria ainda o papel de desenvolvimento do consentimento coletivo da população da Idade Média, que, não obstante as dezenas de revoltas e levantes da população camponesa empobrecida, superexplorada, conseguiu mobilizar massas humanas significativas para a formação de exércitos para os cruzados. Esse papel ideológico desenvolvido pela Igreja contra os “hereges e infiéis”, independentemente dos resultados alcançados, conseguiu, em nome do Deus cristão, em determinado período histórico, fornecer elementos para análises e estudos posteriores quanto ao papel da Igreja na ingerência dos negócios do Estado, bem como, do forte aliado que o poder dominante possui na religião, que, mesmo em momento posterior, quando da separação da Igreja do Estado, não abriu mão da ideologia religiosa como instrumento fundamental na construção do imaginário popular, na crença utópica de um mundo após a morte, capaz de levar a população crente a se redimir dos pecados mundanos, um mundo eminentemente dos espíritos, das lendas religiosas e dos sonhos embrutecidos das grandes massas alheias ao estudo e ao desenvolvimento das Ciências, da História e da Filosofia, salvo algumas exceções.
Não foi à toa que em seus momentos de obscurantismo máximo, a Igreja Católica, em sua história, condenou à fogueira milhares de homens e mulheres do povo, bem como muitos cientistas que questionavam os erros e dogmas históricos da mesma Igreja. Naquele tempo, o grau de tolerância com ações desse tipo era perfeitamente aceito pelo conjunto da classe dominante que ela representava, daí a sanha assassina da Santa Igreja Católica que dizimou quem quer que ela considerasse uma mínima ameaça, impondo, a ferro e fogo, uma crença imperialista e exclusivista. Assim, também aos olhos de uma população explorada, o que se estava a exterminar era uma penca de “feiticeiras” e “feiticeiros”, “bruxos”, “pagãos” e “filhos do demônio”, tendo sido aceitos, para muitos, os assassinos da Igreja Católica, com uma relativa naturalidade pelas massas populares que padeciam na ignorância e sob forte influência religiosa.
O que até aqui expomos é apenas uma panorâmica para a compreensão do quanto avançou o projeto religioso católico, na esfera da política geral do mundo feudal da Idade Média. Não pretendemos fazer nenhuma transposição mecânica desse exemplo histórico de manipulação e mobilização da Igreja Católica no feudalismo para a realidade atual, mas sim, buscar os elos, os vínculos entre a ação religiosa naquele período desenvolvido pelo catolicismo, em nome de Cristo, e os atuais desenvolvimentos em nome do profeta Maomé, pelo Islamismo. Convém ressaltar ainda que, apesar da ampla maioria católica àquela época, mesmo depois da Reforma Luterana, em nenhum momento pode-se isentar de responsabilidade os banhos de sangue apoiados pelos protestantes, tanto no velho quanto no Novo Mundo. Neste último, inclusive, respaldado no extermínio da população “pagã” indígena na América do Norte, Central e do Sul, em processos históricos diferenciados, mas que guardam alguma relação.
Um movimento religioso, qualquer que seja, não se sustenta se, por detrás dele, não estiver fincada uma forte base material de reprodução que inclusive elabore e desenvolva toda e qualquer espécie de instrumentos e mecanismos ideológicos e espirituais das mais variadas formas de alienação, bem como da exploração e dominação de classe. Um movimento religioso forte e de grande envergadura como o Islamismo, por exemplo, não se sustentaria por muito tempo, se não estivesse respaldado por relações sociais de produção que reproduzisse também no imaginário da população um “novo” senso comum, respaldado no programa – político – religioso autoritário do Corão, que, como a Bíblia dos cristãos, acaba por penetrar, com sua doutrina, de maneira profunda nas diversas camadas e segmentos da população.
Na ausência de um projeto alternativo ao estado de miserabilidade crescente no mundo mulçumano em crise, opta-se pelo caminho da “Guerra Santa”, dirigida aos povos imperialistas e aos seus aliados do Oriente Médio, em especial ao Estado de Israel, que tem desenvolvido, dentre tantas atrocidades, práticas próximas às nazistas para inviabilização de um possível Estado Palestino, por exemplo. A opção de um retorno ao passado, feita por diversos segmentos da população mulçumana, que foi duramente destruída nos seus valores éticos e culturais por décadas de dominação, acabou por aumentar nas massas um saudosismo retrógrado dos tempos mais remotos, onde a sociedade patriarcal tribal não aceitava, sob nenhuma hipótese, a ascensão da mulher a uma plena igualdade de condições e direitos do homem. Isso é devidamente reforçado pela propaganda que se faz, no seio do povo, dos ensinamentos do Corão. Em outras palavras, combate-se a opressão reproduzindo ao mesmo tempo outras formas também opressoras, ou mais opressoras, de convivência social.
Dessa forma, é que podemos afirmar, sem sombras de dúvidas, que o espaço em que se desenvolvem as mais sangrentas batalhas, neste início de século, é o que está inserido no mundo islâmico. No entanto, os interesses, muitas vezes contraditórios, dos que tentam dominar e dirigir o processo de luta de classes, não estão devidamente claros aos olhos da população dos demais países, também explorada pelo capital.
Falta brotar um verdadeiro sentimento internacionalista, de conteúdo proletário, em todos os cantos do planeta.
O movimento religioso baseado no Islamismo tenta exaustivamente dirigir e controlar as energias revolucionárias das massas mulçumanas pelo planeta afora. Esse processo se dá em todas as outras concepções religiosas, sedentas por espaços de controle e domesticação da luta de classes, como o catolicismo e o protestantismo cristão, o judaísmo, o hinduísmo, o budismo, etc.; mas o traço característico do Islamismo, neste início de século, é que ele consegue ser mais radical como projeto-político-religioso do que as demais religiões monoteístas existentes. Já se convencionou acreditar, com base no Corão, que aquele que morrer lutando terá o paraíso em outras paragens da alma, e esse tipo de apelo fanático tem levado centenas de combatentes do povo mulçumano a aceitar depositar suas vidas em favor da causa do Islã; na verdade, uma predisposição ideológica latente por parte dos seguidores do Islamismo, assentada no Corão, em levar o corpo à autodestruição para se alcançar o objetivo da prosperidade eterna.
Essa predisposição maometana é nitidamente manipulada por grupos como o Hamas, a OLP, a Al-Qaeda e tantos outros, para levar adiante seus interesses de poder em meio ao combate e luta contra as forças do inimigo invasor e seus aliados. Não é de graça que agrupamentos com táticas terroristas vivem durante meses e anos a arquitetar atentados, menosprezando qualquer iniciativa pelo trabalho organizativo da vanguarda, como também das massas, que poderia, guardadas as devidas proporções e diferenças no processo histórico, levar a outro tipo de construção de formas de organização e de luta, calcado na consciência e não no entorpecimento dela.
O Islamismo é tão ou mais reacionário que qualquer outra religião monoteísta. O projetopro-gramático-religioso do Islã tende, como muitos outros, ao fracasso ou, quando muito, ao aprofundamento da barbárie capitalista. Aos trabalhadores e aos povos oprimidos do mundo só resta trilhar firme pelos caminhos da luta anti-imperialista e pelo Socialismo, não aquele esboço tosco e rudimentar proporcionado pelo estalinismo soviético e que fez filhotes monstruosos mundo afora, mas um sistema calcado na liberdade, independência e poder da classe trabalhadora, da classe que produz a riqueza e que dela deve se beneficiar. Exercitar essa possibilidade de poder é também livrar-se da necessidade de apego às explicações míticas, místicas e fantasiosas, em busca de uma realidade concreta, rica, complexa e totalizante.

Palavras Finais

Em algum ponto do desenvolvimento histórico a humanidade poderá alcançar, de forma objetiva e definitiva, o sonho de viajar junto às estrelas, ou melhor, de galopar pelas pradarias celestes, não mais em busca de Manitu, como pensou durante muitas centenas de anos a nação dos Dakotas, que habitavam as pradarias do Oeste norte-americano e que foi devidamente varrida do mapa, por justamente aqueles que empunhavam a bíblia em uma das mãos e o sabre na outra.
Milhares de genocídios e guerras foram deflagrados em nome de diversos deuses, que foram criados antes e acima de tudo para unificar povos e nações em torno de um Estado. Não se mediram os esforços para defender que se passasse no fio da espada povos que não se submeteram aos conclames de profetas, santos, beatos, padres e aiatolás, ou mesmo de instituições religiosas criadas como as igrejas, os templos e as mesquitas. Muito se matou e muito ainda se mata em nome de Deus.
Para se clamar por liberdade temos que levar em conta a necessária obstrução histórica provocada pelos mitos e as ilusões promovidas em nome de Deus ou de deuses. Para que isso aconteça um dia na história da humanidade, temos que empregar todos os esforços na edificação de homens e mulheres verdadeiramente livres. Esta é a necessidade. Vamos ao debate!

 

Oposição Operária

Originalmente publicado na Revista Germinal nº. 02 (2010).

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