A crise global do capitalismo

“A crise financeira… A crise financeira mundial… A crise financeira…” Os meios de comunicação de massa e um sem número de intelectuais e comentaristas de todo o planeta têm-nos tentado convencer de que o mundo passa atualmente por uma grave “crise financeira”. Será apenas uma “crise financeira”? Só para ter uma idéia, os Estados Unidos, a maior economia do planeta, acabam de anunciar uma redução de 6,2% no seu PIB no último trimestre de 2008, o que sinaliza, talvez, mais do que uma recessão, uma depressão econômica que se aproxima. Ainda no ano de 2007 já tratávamos em nossa Revista Germinal, numa matéria intitulada “O Imperialismo no Século XXI: A crise americana como epicentro da crise mundial”, justamente de como as contradições em meio à economia americana se avolumavam a ponto de desenvolver a capacidade de arrastar o conjunto da economia do planeta para a sua crise. Não há mais dúvida de que aquela situação ali apontada está agora mais do que configurada, pois a economia americana é o motor da crise mundial, e a sua recessão, ou depressão, faz afundar, juntamente com ela, o conjunto do sistema capitalista. 
O primeiro mito a ser desfeito é o de que estamos em meio a uma “mera” crise financeira — por mais que qualquer crise financeira já traga o potencial de irradiação a outros setores da sociedade. Esta crise, muito mais do que “financeira”, é uma crise sistêmica, uma crise do modo de produção capitalista, do conjunto do sistema global, quer seja na sua área produtiva, nas finanças, na energia (esgotamento do petróleo), nas instituições (corrupção em todas as esferas), no meio ambiente (destruição do planeta), e até na ideologia econômica que perpassou toda a conjuntura desde o aparecimento dos primeiros governos neoliberais.

Trata-se, portanto, de uma crise plural e total do sistema capitalista, um sistema doente e em decadência e cujos fundamentos se encontram questionados pela atual crise. Não é também, como outros tantos afirmam, apenas uma crise de liquidez, ou uma crise do setor imobiliário, ou o advento de tal crise se tenha dado pela “falta de regulação”, ou pela ação inescrupulosa dos especuladores que, ao agirem em busca de lucros fáceis, puseram em risco o capitalismo. Essas são outras tantas meias verdades que ouvimos dos analistas que, ou não compreendem a profundidade e severidade da crise ou agem como ideólogos para entorpecer a compreensão do momento histórico que vivemos.

O agravamento da crise e as “soluções”

Se temos por um lado as tentativas de minimização do fenômeno, por outro podemos perceber na declaração de alguns dirigentes mundiais a gravidade da conjuntura. Gordon Brown, primeiro-ministro inglês anunciou recentemente em reunião na Câmara dos Comuns, a chegada de uma “depressão global”, fato depois desmentido e atribuído a uma gafe do dirigente. Nicolás Sarkozi, presidente francês, disse se tratar da “pior crise desde há um século” e propôs recentemente, pasmem, a “refundação do capitalismo”. Mesmo o ainda festivo Barak Obama, em recente conferência, concordou com visões “catastrofistas”.

Esses mesmos dirigentes têm tentado desesperadamente encontrar soluções, todas paliativas, para enfrentar um problema que é muito mais grave do que os arranjos até então apresentados. Ainda no governo Bush, em setembro do ano passado, o Governo americano e o FED já haviam feito intervenções com subsídios maciços da ordem de bilhões de dólares buscando socorrer primeiro os bancos e depois algumas indústrias chaves para o país, como o caso da indústria automobilística. A injeção de fundos para socorrer a quebradeira geral — a soma já ultrapassa a casa dos trilhões de dólares — promove um alívio momentâneo, mas não resolve o problema. Associado a isso se criam outros problemas tão ou mais graves que deverão cobrar a sua conta num curto espaço de tempo, à medida que joga para alturas estratosféricas o endividamento público americano (e também europeu) num momento em que o endividamento privado se encontra insolvente, o que denota menor capacidade de arrecadação por parte do Estado.

Não vai ser injetando dinheiro em empresas endividadas que os governos, americanos ou europeus, resolverão o problema atual do capitalismo. No máximo, conseguirão “empurrar com a barriga” a depressão que se avizinha. A economia americana está num ciclo vicioso em que a queda na atividade econômica abala o setor financeiro e este, combalido, reforça a crise no setor produtivo. O conjunto do sistema entrou em crise, ou aprofundou uma crise que já estava instalada e que já demonstrava uma decadência produtiva associada a um sem número de orquestrações financeiras e parasitárias que se desenvolveram por décadas.

A máquina agora emperrou e as medidas tomadas em nível mundial não conseguirão resultados, pois não atacam a causa do problema, mas apenas algumas de suas consequências. Ainda nas soluções paliativas, não vai ser baixando as taxas de juros, comprando ativos tóxicos (carteiras de créditos podres), ou socorrendo indústrias à beira da falência, e nem mesmo injetando liquidez nos bancos que o problema será resolvido. O aprofundamento da crise na esfera produtiva tem resultado em mais desemprego em todo o planeta e também em mais inadimplência, o que agrava ainda mais a crise na esfera financeira. O aumento das dívidas com cartões de crédito e demais dívidas frente aos bancos implica numa necessidade maior de provisão de recursos para perdas por parte dos bancos e isso reduz a possibilidade de crédito, numa economia já endividada até o pescoço. Este é só um exemplo de como essas crises combinadas se retroalimentam e se reforçam.

Falamos em consequências e em causas, mas quais são mesmo as causas a serem atacadas? Por que não as atacam? Será porque os governos e a burguesia mundial não têm condições de fazê-lo? A esfera financeira da crise é apenas a ponta do iceberg de um problema maior que é a superacumulação de capitais e a impossibilidade do capitalismo em fazê-los valorizar na esfera da produção. Dito de outra forma, o mundo, desde a década de 1970, possui um aparato produtivo tão superdimensionado que a própria economia capitalista não tem condições de realizar (vender) a quantidade de mercadorias que ela é capaz de produzir. Essa superacumulação produtiva só se agravou nas últimas décadas. Como resultado o sistema desenvolveu mecanismos financeiros de ganhos rápidos e fáceis como válvula de escape à incapacidade de criação de riqueza no setor produtivo. A economia ficou “viciada” nesse tipo de maquinação puramente financeira e desenvolveu riquezas fictícias, sem lastro produtivo. Mais do que isso, criaram contradições e bolhas de crescimentos artificiais, calcado em endividamento.

O carrossel da felicidade do capitalismo agora desmorona, e a diminuição do consumo que já se percebe em nível planetário joga mais gasolina na fogueira das contradições, pois à medida que o faturamento das empresas cai estas respondem cortando gastos e demitindo mais e mais. Resultado: aumentam as possibilidades de calote e o problema entra numa espiral sem fim. O resultado de tudo isso tem sido o fechamento de empresas, o aumento do desemprego no mundo (20.000 americanos por dia perderam seus empregos no mês de dezembro). No Brasil, dentre outras façanhas, além dos reiterados anúncios de demissões, às vezes somos convidados a votar o rebaixamento dos nossos salários.

A crise e o seu caráter de classe

O acirramento da luta de classes, das tensões e lutas sociais deverá vir à medida que se desdobrarem os efeitos do endividamento, das demissões, do rebaixamento dos salários, da precarização, dos cortes de benefícios e assistências, etc. Se as crises, por um lado, trazem um monte de consequências duras e difíceis, por outro possibilitam por parte dos trabalhadores o aprendizado que em anos de calmaria não acontece. Elas têm uma função pedagógica, pois revelam de maneira muito clara o caráter das classes sociais, mostram o posicionamento ideológico dos partidos, a farsa, inércia e traição dos sindicatos e dos oportunistas e reformistas de plantão.

As medidas que foram tomadas até aqui são um bom exemplo do caráter de classe que tem uma crise. O Estado torrou em alguns meses trilhões de dólares e de euros para socorrer bancos e megaempresas. Quando a economia funcionava relativamente bem, com a ciranda financeira a propiciar lucros fáceis, estes eram apropriados pela burguesia de maneira privada. Agora, que a economia articula e aprofunda sua crise, os trabalhadores são chamados a socializar os prejuízos. Para salvar os especuladores veio o socorro de trilhões de dólares; para os que compraram suas casas na ilusão do crédito farto, o rigor das hipotecas.

Milhares de trabalhadores americanos perderam suas casas e hoje vivem nas ruas, em trailers, em barracas, parques, estacionamentos, na miséria, enfim. Isso para não falar no Brasil, onde essa realidade, que já era grave, agora se torna mais contundente, com os efeitos da crise e das demissões a potencializar todo esse sofrimento. É claro que em algum momento da conjuntura essas opções de classe vão ser mais facilmente vislumbradas e o preço devido será cobrado em forma de tensões, manifestações populares, tumultos, revoltas, greves, etc.

A ideologia burguesa vai a todo instante buscar jogar o ônus da crise sobre as costas dos trabalhadores, com o discurso de que “cada um deve dar a sua parte de contribuição para que todos possam se salvar”. O que ela quer, na verdade, mais uma vez, é salvar o seu sistema de exploração e opressão. Com a tendência para o acirramento das lutas, a burguesia certamente também se unirá, em mais uma orquestração de classe, para suportar possíveis investidas do operariado em nível internacional (vide nosso boletim O Fascismo deixou de ser uma possibilidade?).

Uma oportunidade histórica

A globalização do capital, tão cantada e decantada por anos a fio, propicia agora uma crise da mesma forma globalizada, e também uma classe trabalhadora internacional que convive e luta em meio aos mesmos problemas. Acreditamos que o capitalismo já cumpriu o seu papel histórico de “revolucionar as formas produtivas e finanças em termos mundiais”, e passa agora por momentos de dificuldade talvez como nunca existiram antes, dada a maturidade do sistema e de sua crise, e dado o fato desta crise ter atingido o coração do sistema, a sua economia maior.

Hoje capitalismo e humanidade se encontram em contradição, visto que a ganância por lucros exaure de forma inapelável os recursos do planeta. Os trabalhadores, no entanto, não podem ficar de braços cruzados esperando o sistema apodrecer e cair por si mesmo. Esse sistema não cairá sozinho, terá de ser derrubado, e esse momento conjuntural é mais uma janela de oportunidade que a história vez por outra abre para aqueles que têm capacidade, força e organização para fazer a história para si.

 

Oposição Operária

Originalmente publicado no Jornal Germinal nº. 18 (2008).

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