Abadá: O fascio do carnaval baiano

Toda produção humana obedece às leis gerais das sociedades na sua evolução. O Carnaval não foge à essa regra. No caso específico do Carnaval baiano, essas leis se manifestaram desde os seus primórdios como reflexo de uma estrutura de sociedade de classes. Assim é que no chamado “Carnaval autêntico”, quando os trios elétricos ainda não existiam e as pessoas livremente brincavam, afirmando suas individualidades, já se observava essa estratificação social. De origem, a festa é uma transposição do entrudo português para o Brasil, nos meados do século XVII, cujo registro já aparece nestes versos do poeta maldito Gregório de Matos, o chamado “Boca do Inferno”: “Filhós, fatias, sonhos, mal-assados, /Galinhas, porco, vaca e mais carneiro, /Os perus em poder do pasteleiro /Esguichar, deitar pulhas, laranjadas. Esfarinhar, por rabos, dar risadas, /Gastar, para comer, muito dinheiro. /Não ter mãos a medir o travesseiro (…) Querer em um só dia comer tudo. Não perder arroz nem cuscus quente /Despejar pratos e alimpar tigela /Estas as festas são do Santo Entrudo.

No século XVIII, o entrudo se caracteriza pela algazarra e a grande anarquia dos esguichos de líquidos de bom ou de mau cheiro, de acordo com as conveniências da situação, além de pós de variados tipos. Tais artefatos foram proibidos devido aos mal-entendidos e conflitos gerados.

No fim do século XIX e início do século XX, as elites foram sendo influenciadas por carnavais de cidades européias (Nice, Veneza e Paris), baseados em alegorias, representados aqui em Salvador pelo desfile dos “grandes clubes”: o Clube Carnavalesco Cruz Vermelha e o Clube Carnavalesco Fantoches da Euterpe. Ao lado desses, havia ainda o Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso com suas críticas aos costumes e à política. O desempenho desses clubes sofre um arrefecimento durante e após a Primeira Guerra Mundial, diante da dificuldade de importação. Aproveitando-se desse iato, os blocos de percussão negros – definidos pelo historiador Cid Teixeira como “candomblés dessacralizados” — vão-se destacando, porém, obedecendo à hierarquização da estrutura social vigente, fazem o circuito da Baixa dos Sapateiros, sem subir a Barroquinha e atingir a Praça Castro Alves e Rua Chile, espaço das “elites”. É a época dos grandes afoxés oriundos de São Gonçalo do Retiro, da Calçada e da Estrada do Rio Vermelho.

Diante da crise, os clubes se reservam aos bailes nas suas sedes e as batucadas tomam conta da cidade, dividindo o espaço com o “corso” – automóveis de capota arriada exibindo as fantasias dos bailes burgueses. Assim, o segmento da chamada “classe alta” continuava marcando presença no Carnaval baiano.

Na década de 30, os clubes Cruz Vermelha, Fantoches e Inocentes voltam às ruas com seus desfiles de carros alegóricos; porém, mais uma vez, as dificuldades causadas pela Segunda Guerra Mundial os faz entrar em recesso e os blocos e cordões se multiplicam, ocupando seus espaços. Ainda nos anos 50, esses clubes conseguem desfilar, porém sem o sucesso de épocas pretéritas, até que, finalmente, desaparecem da avenida, antes do fim da década. Nesse mesmo período, um fato novo, aparentemente sem importância, surgia como embrião da estrutura do futuro Carnaval baiano: três músicos, numa fobica, dois deles tocando toscos instrumentos de corda, por eles chamados de “páus elétricos”, chamavam a atenção pelo inusitado, arrastando grupos de foliões animados pelo ritmo contagiante. A experiência frutificou e assim nasceu o Trio Elétrico.

Tal revolução traria importantes mudanças. O barulho ensurdecedor dos trios, provocado pelo uso crescente das tecnologias do som, aliado à demanda cada vez maior de espaço para as multidões que os seguiam, fez as suas primeiras vítimas: as Escolas de Samba Juventude do Garcia e Filhos do Tororó, que, apesar da resistência inicial, vieram a sucumbir desaparecendo na década de 70.

Importantes blocos afros, como Ilê-Ayê, Male Debalê e o afoxé Filhos de Ghandy, pela força de suas convicções culturais, resistiram e até hoje permanecem com suas características originais. O mesmo não se pode dizer do Olodum e do Araketu, que passam por um lento e gradual processo de cooptação pelo regime do abadá. Senão vejamos: o Araketu, que se dizia “bom demais”, substituiu a bateria original por uma banda de MPB e o Olodum, com o sucesso adquirido após a passagem do cantor Sting, “civilizou-se”, e isto fica bem claro nestes versos de uma de suas músicas: “o Olodum tá hip/ o Olodum tá pop/ o Olodum tá Reggae/ o Olodum tá rock/ o Olodum pirou de vez”.

Independentemente dos trios que arrastavam a massa, misturando democraticamente todos os representantes de classe sociais, havia os blocos homogêneos com segmentos de classe estruturados com padrão único de fantasia. “Os Internacionais”, por exemplo, era um bloco só de homens brancos e de classe média e média alta – negro não entrava. Essa discriminação resultaria mais tarde na dissidência “Os Corujas”. Em contraponto havia os blocos de “índios” – Apaches do Tororó, Comanches, Cheienes, Tupis e Guaranis — formados por gente de classe média baixa e de baixa renda, com predominância de afro-descendentes, com seus adereços, vestuário, bateria e originais coreografias. Os que sobreviveram – Apaches e Comanches – estão passando pelo processo “civilizatório”: os Apaches, este ano, desfilaram ao som do “arrocha”.

O aumento da quantidade de trios elétricos – inicialmente resumidos a 3 ou 4, patrocinados por empresas de bebidas – reduziu drasticamente os espaços para os blocos; estes, numa atitude de conciliação diante da crua realidade, decidiram incorporar-se aos trios, e o Carnaval baiano tomou a forma que tem hoje, onde a individualidade se dissipa numa massa incaracterística, inexpressiva esteticamente falando, na qual a estrutura de classes claramente se explicita.

Por individualidade não se entenda como o primado burguês do indivíduo sobre a coletividade. A individualidade aqui é vista como persona e ela pode também ser expressa por intermédio de um grupo. As escolas de samba tinham a sua individualidade, assim como o Pierrot, a Colombina ou o Arlequim na sua solitária presença; ou ainda aquelas fantasias que se destacavam pela sua originalidade. A mesma individualidade tinham os carros alegóricos dos antigos clubes, os corsos ou os afoxés; ou seja, valia a pena “ver” o Carnaval baiano com suas figuras excêntricas e seus blocos de originais fantasias. O que vemos hoje é o velho método de manipulação fascista do gosto pela uniformidade, em que um líder de banda (cantor ou cantora) comanda a massa, que cegamente obedece às suas ordens e vontades vestindo camisas (abadás) como espécie de fardamento, portando estandartes em gestos cadenciados quase marciais sob o barulho ensurdecedor de músicas com letras, via de regra, de muito mau gosto, que às vezes se resumem a simples reações guturais ou de sentido autoritário, como nestes versos: “O dono desta cidade sou eu/ o som desta cidade é meu”. À propósito, avançando mais neste sentido, em 1985, uma dupla de cantores de trio (Pepeu Gomes e Baby Consuelo) propuseram um gesto de braço estendido e mãos abertas à altura dos ombros seguido do grito RAHH! Elevando um pouco mais o braço e juntando os dedos das mãos o RAHH! seria a corruptela da saudação nazista HEIL! Embora essa não fosse a intenção dos autores, a proposta estava muito de acordo com a situação.

Não falta sequer o ufanismo baiano calculadamente arquitetado na publicidade com palavras de ordem e frases de efeito do tipo “orgulho de ser baiano” ou “Bahia: melhor para trabalhar, melhor para viver”. O culto à personalidade é cultivado na dupla Dodô e Osmar, criadores do trio elétrico, como espécie de “Duce” do Carnaval do abadá. Durante os festejos, a nomeclatura se faz presente num palanque do Campo Grande e, em passado recente, os blocos que por ali desfilavam faziam saudações e discursos laudatórios a um certo “führer”.

A estrutura do Carnaval dos trios é o espelhamento de uma sociedade no seu paroxismo. É impossível manter a estabilidade de tal festa, pela sua magnitude, sem estabelecer medidas repressivas que impeçam o surgimento de conflitos de grandes proporções. Apesar disso, a violência explícita, por vezes, era mostrada pela mídia; até que um dia, um acontecimento, na Praça Castro Alves, chocou a opinião pública: uma turista branca e loura foi atacada, saqueada e quase desnudada, diante de todos que acompanhavam o trio elétrico, por um grupo de indivíduos num ato de selvageria que a mídia transmitiu para todo o país. A partir desse dia estabeleceu-se a censura à Imprensa: não se divulgava mais cenas de violência como brigas e arrastões, embora eles continuassem existindo. Passou-se, então, a divulgar a falsa estatística do “Carnaval sem violência”, com números manipulados. Para atrair turistas, criou-se o mito da “Bahia: terra da felicidade”.

Por via das dúvidas, e por não acreditar nas estatísticas, a “elite” resolveu proteger-se criando espaços limitados por cordas e defendidos pela versão baiana dos “tonton macoutes” de Charles Duvalier, ex-ditador do Haiti – os “cordeiros” (nem tão cordeiros assim). Sua função é dar bordoadas em quem ousar ultrapassar os limites estabelecidos do espaço privilegiado dos que podem pagar por um abadá. Nesse espaço, com uma estrutura de apoio que inclui serviços médicos, sanitários, lanchonete e bar, não são aplicadas as leis que valem para o cidadão comum: usa-se lança-perfume até desmaiar, drogas rolam, mas tudo dentro da nova ordem estabelecida dentro do bloco.

O folião marginalizado – o chamado “pipoca” – e o que vai apenas “olhar” o Carnaval paga caro pela ousadia de atrapalhar o desfile dos cortejos. Além da brutalidade dos “cordeiros”, da ação de marginais furtando seus pertences, há a atitude covarde dos chamados “malhados”, indivíduos que passam o ano inteiro treinando em academias com o objetivo único de agredir os que não brincam sob a proteção do abadá.

No topo dessa pirâmide carnavalesca situa-se a classe média alta, que, do alto dos seus luxuosos camarotes – verdadeiros bunkers, super-protegidos, que chegam a possuir mais de mil metros quadrados de área – acompanha o desenrolar desse drama, refestelando-se com saborosas iguarias, sob efeito de bebidas alcoólicas e até de drogas. A mídia encarrega-se, por meio de suas estrelas, de prestigiar, com retórica convenientemente elaborada, essa que é apelidada de “a maior festa do planeta” – em que para se brincar é preciso resistência de super-homem – louvando o monumental, o grandioso, com destaques nos flashes da TV para representantes da mais pura eugenia dos blocos de “gente bonita”, ou seja, jovens de pele clara e de classe média e média alta.

Em contraponto ao luxo dos camarotes, vêem-se famílias inteiras de pobres e miseráveis morando nas ruas durante os dias de Carnaval, dormindo ao relento, defendendo seus espaços com suas tralhas e isopores, vendendo bebidas e suspeitos guisados – “churrasquinhos de gato” e outros mais – colhendo as sobras do banquete da burguesia.

Toda essa amostra da sociedade de classes é controlada por um exército de policiais fardados, truculentos e outros menos numerosos à paisana (os SS) infiltrados na multidão, verdadeiro corpo de centuriões encarregado de manter a ordem, evitando a explosão de latentes antagonismos sociais.

Para os “dissidentes”, que não aceitam a “ordem do abadá” ou não possuem a estrutura física de super-homem exigida, o Estado lhes destina o Carnaval do Centro Histórico, espécie de gueto, onde se concentram os saudosistas com suas músicas de velhos carnavais, os homossexuais dos redutos da Praça Municipal e Praça Castro Alves, velhos e crianças. Por esses a mídia não se interessa. Apenas a TV do Estado dá cobertura. Já notaram que o Carnaval da Praça Castro Alves não aparece mais? Afinal, acabou? Para evitar o deslocamento da massa “ignara” da periferia, o Estado promove carnavais de bairro para que ela “ fique por lá” e não perturbe o carnaval da “gente bonita”.

Por trás de tudo isso está o grande capital da indústria fonográfica, de telefonia, de bebidas , etc., mais feliz do que todos os “felizes” nesse reinado da mentira, movendo cordéis, amealhando e dividindo o butim e difundindo consignas do tipo “é proibido ficar sério” ou a mais velha e a mãe de todas, com nostalgia de holocausto: ”Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.

Oposição Operária

Originalmente publicada na Revista Germinal nº. 01 (2005).

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