As eleições e o voto nulo

O voto nulo é uma atitude de protesto? Não, nos dizem algumas pessoas ou mesmo organizações de “esquerda” que apostam no Estado como meio de luta dos trabalhadores. Na opinião dessas pessoas e dessas organizações, o voto nulo é um voto “desperdiçado”. Mas por que “desperdiçado”? Por que, nos dizem ainda essas pessoas e forças de “esquerda”, o voto nulo, na medida em que é um voto que deixa de ser dado a um candidato “popular”, “progressista”, ou coisa que o valha, beneficia a direita, que assim se fortalece. Pois bem, é perfeitamente possível mostrar por que essas pessoas e organizações estão equivocadas e por que, ao contrário do que elas afirmam, o voto nulo é um voto de protesto. Em primeiro lugar a história das lutas e conquistas dos trabalhadores nunca registrou uma só vitória dos segmentos do povo oprimido por dentro das instâncias do Estado, nem através do Executivo e nem através do Congresso. Por que? Porque o Estado, na sua forma atual, compreendendo governo executivo (Presidência da República, Governos de Estados a de Municípios, ministérios, etc.), legislativo (parlamento em geral, com seus senadores, deputados e vereadores) e judiciário (juizes, promotores, desembargadores), sempre foi e continua sendo uma máquina montada pelos capitalistas para a defesa dos seus interesses e para oprimir e garantir a exploração do trabalho dos que vivem de salários.


Em segundo lugar o Estado tornou-se uma instância que, para manter o poder e os privilégios dos proprietários do capital, afundou-se na prática da mais escancarada corrupção que passou a fazer parte, de maneira permanente, do exercício administrativo e político do Poder capitalista. É impossível o capitalista e seus mandantes e políticos de carreira não serem corruptos ou deixarem de ser corruptos. É ilusão achar que CPIs limparão as instituições do capital e do Estado da corrupção. Como podem corruptos acabar com a corrupção?

De maneira que, quanto mais aquelas pessoas nos afirmam a validade do voto como instrumento de luta, mais se reproduz a violência na sociedade, a conivência dos sucessivos governos com as máfias e os corruptos, o rebaixamento dos salários, a evaporação dos direitos duramente conquistados pelos trabalhadores e a distribuição de verdadeiras esmolas, para anestesiar a consciência e a disposição de luta das massas mais pobres da população.

E nem precisa ir longe para constatar essas nossas afirmações. O próprio Governo Lula, ou, como se diz, “Governo do PT”, tem confirmado o que dizemos aqui desde o dia da posse até o dia de hoje. Nunca se viu um governo mais cínico, mais mentiroso, mais populista, mais corrupto, mais servil aos interesses do capital industrial e financeiro (dos banqueiros, do FMI, do BIRD e dos grandes magnatas internacionais) e mais descuidado com a saúde, a educação, a previdência, a infraestrutura social, do que este governo que está aí.

O Governo Lula é esse engodo que está aí. O Governo Lula será, se reeleito, o mesmo engodo para todos nós que vivemos do nosso trabalho explorado. O Governo Alkmin (do PSDB), o Governo Heloisa Helena (do PSOL), o Governo Pimenta (do PCO), qualquer governo que chegue ao Planalto, como qualquer que seja o Congresso que saia dessas eleições de outubro próximo, serão as mesmíssimas coisas: governos dos e para os capitalistas, governos anti-populares, governos dos corruptos, governos da mentira e do cinismo. E não poderão e nem desejarão ser outra coisa.
Então, para o trabalhador indignado com tudo isso e que seja obrigado a se colocar diante da urna onde terá que registrar seu voto; para esse trabalhador que só tem duas opções, votar num candidato ou anular seu voto, é óbvio que o voto nulo é um voto de protesto e não é um voto que fortalecerá nenhuma direita — até porque todos os que estão no Estado e no governo do capital são gente e partidos de direita.

Mas, é preciso que compreendamos que o voto nulo é um voto incompleto;que não passa de uma prática limitada e sem conseqüência se não estiver ligada a outras atitudes de protesto e de ação contra esta mesma ordem estabelecida. Porque a mera indignação que move o trabalhador a votar nulo é apenas um ponto de partida, mas não constitui uma perspectiva da mudança mais profunda da sociedade. É necessário que saibamos que a verdadeira atitude de um trabalhador indignado com a situação em que vivemos não pode se limitar a votar nulo, porque votar nulo e não dar continuidade a uma prática muito mais ampla que eleve a nossa indignação ao patamar de uma proposta ou de um projeto político, também não conduz a nenhuma mudança.

Daí porque o trabalhador, que tem sim, de colocar como perspectiva acabar com toda a estrutura econômica, social, política e cultural capitalista que lhe explora e oprime, tem que dar seqüência e conseqüência a seu voto nulo — e esta conseqüência só pode existir à medida que ele ponha o seu voto nulo num conjunto de formas permanentes e variadas de luta e de organização para a luta anti-capitalista direta e direcionada, para o objetivo maior de sua libertação social como classe.

Por tudo isso, vote, nas próximas eleições, com indignação, mas também com a razão, isto é, vote nulo, mas não limite sua atitude política ao voto nulo. Coloque seu voto nulo numa perspectiva de luta anti-capitalista direta, regular, permanente, todos os dias e com a mais absoluta autonomia do Estado e do Governo, pois esta autonomia é e será o único pressuposto da nossa vitória final contra o capital e suas instituições estatais, governamentais, ideológicas, culturais que estão aí, junto com todos aqueles que acreditam nelas, para manter e perpetuar a ordem de privilégios que nós sustentamos com o nosso trabalho e da qual eles usufruem com o ócio, a manipulação, o cinismo e a desfaçatez.

 

Oposição Operária

Originalmente publicado no Boletim Germinal de Outubro de 2006.

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