As manifestações artísticas e culturais no capitalismo

Duas classes são as classes fundamentais no capitalismo: a burguesia, classe dominante, e o proletariado, classe dominada. O principal instrumento de dominação da burguesia sobre o proletariado é o Estado capitalista, com todos os seus aparatos ideológicos e coercitivos. Entre estas duas classes fundamentais existem outras, como as classes médias, as quais desempenham papéis secundários na manutenção e reprodução do sistema social capitalista. É do seio das classes médias, que aliás são muito variadas, que sai a maior parte dos intelectuais (embora não todos), os quais, em sua grande maioria, vão servir à burguesia e aos seus interesses. Entre tais intelectuais estão os artistas, os professores das universidades e os produtores da cultura oficial.

A CULTURA E AS CLASSES SOCIAIS

A cultura de uma nação é uma síntese, feita de combinações e de conflitos, das manifestações culturais das diversas classes e dos diversos segmentos das classes sociais. A burguesia tem as suas características culturais, o proletariado, da mesma forma, tem outras características — embora muitas vezes se misturem, e outros segmentos de classe têm também as suas formas de manifestação culturais. Da fusão, do conflito e da integração dessas culturas nasce a cultura de uma nação — embora hoje as culturas nacionais estejam sendo cada vez mais niveladas, homogeneizadas, devido à mundialização do capital.

É óbvio, todavia — o que não é difícil compreender —, que a cultura que prevalece e que subordina as demais é a da classe dominante, o que, no Brasil, sempre prevaleceu desde que os colonizadores portugueses aqui chegaram a subjugaram as culturas dos índios e dos negros africanos. Índios e negros não eram, originalmente, católicos, mas, por força da dominação, tiveram de adotar o catolicismo, religião pertencente à cultura da classe dominante, e aos índios e aos negros, uma vez subordinados, não coube outra alternativa senão combinar sua cultura religiosa com a dos colonizadores como um meio de adaptação e de adequação ao esquema de dominação. Dali em diante a regra sempre foi e segue sendo a mesma: a uma classe dominante corresponde uma cultura dominante que subjuga a classe e a cultura da classe subordinada. Enquanto existirem burguesia e proletariado vai ser sempre assim.

Mas, de todas as manifestações culturais produzidas na sociedade, a maior parcela e o maior peso pertencem às provenientes das classes populares, que são também as mais densas de riqueza, legitimidade e criatividade. Basta lembrar de onde provêm o carnaval, a batucada, o candomblé, a capoeira, o cancioneiro, as festas populares; basta lembrar em que meio social se desenvolveu o futebol — e assim por diante. Basta lembrar também de onde saíram Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga, Pelé, Cartola, e muitos e muitos outros — ainda que alguns deles, naturalmente, tenham mudado de classe depois que fizeram sucesso no mercado (na canção, nos esportes, etc.) e se tornaram também elementos da classe burguesa.

Não se trata aqui neste artigo de fazer uma apologia, ou mesmo uma defesa da chamada cultura popular, o que para nós seria uma espécie de legitimação ou romantização das diferenças de classe social. Não se trata também de negá-la, menos ainda de ridicularizá-la, mas de vê-la como a expressão da divisão entre as classes o que, em última instância, lutamos por abolir. É por isso que partimos do pressuposto de que se a todos forem dadas as mesmas oportunidades, não se fará mais cultura popular ou erudita, mas se produzirá cultura, como a mais profunda expressão da arte e da visão de mundo de cada artista.

Não obstante isto, estas manifestações culturais, que têm, quando emergem, um forte apelo e uma clara marca popular, logo são submetidas ao jugo, aos critérios e aos traços da cultura burguesa dominante, e passam, a partir daí, a receber o selo, o aprove-se, o consentimento e o consumo da cultura da classe dominante. Depois de um bem elaborado sistema e processo de subordinação, a cultura que saiu do povo — de seus sentimentos, de seus sofrimentos, de suas expectativas, de suas lutas, etc. — termina por tornar-se totalmente estranha às suas origens.

Temos um exemplo bem próximo e atual disso. Todos os trabalhadores conhecem o famoso Carlinhos Brown, da Bahia; todos sabem que se trata de um artista de talento; todos estão devidamente informados da sua origem de classe, ou seja, que Carlinhos Brown provém das camadas exploradas do povo; mas todos sabem que ele hoje ganha rios de dinheiro, porque completamente inserido no mecanismo de dominação e assimilação da cultura burguesa sobre a cultura popular; todos sabem, finalmente, que Carlinhos Brown vive e convive agora com os poderosos, e não se cansa de elogiar e render rasgadas homenagens ao truculento senador Antônio Carlos Magalhães e toda a sua troupe na Bahia. Para se ter uma idéia como a cultura popular, depois de sofrer a influência e a dominação da cultura burguesa, se afasta do seu tema e do seu solo de origem, basta examinar a letra desta canção elaborada recentemente pelo mesmo Carlinhos Brown:

Anti-gama recarregada sem ti

Tive nua a sentença

Anuncio que acabou em chic

Omelete man

Pro mentor mentecapto

O réu é o rei

Quando o frio acabar

Queima mal e má

Advinho melado melhor

Na lona rente

Você entendeu, meu caro leitor? Não? Não se incomode; também nós não entendemos e, podemos garantir, nem ele, o próprio Carlinhos Brown, entendeu. Isso aí tem alguma coisa a ver com a cultura, o meio social e os valores de origem (populares) de Carlinhos Brown? Não, evidentemente! E porque o nosso percusionista produziu tamanha excrescência?

A TRANSFORMAÇÃO DA ARTE POPULAR EM MERCADORIA

Como dissemos, as manifestações culturais populares são apanhadas, logo que emerge de seu solo social, pela burguesia, que faz uma apropriação dela para uso de mercado, para venda, agora como mercadoria para um mercado de massa, como é o mercado de discos, o mercado do carnaval, o mercado da mídia — e assim por diante. É exatamente a partir daqui que começa a separação do significado popular do produto cultural e o recebimento, por parte daquele produto, de um outro significado, totalmente estranho ao significado de origem. Ele, que antes tinha um significado popular, que expressava os anseios e sofrimentos populares, passa agora a receber um significado puramente mercantil, um vazio de significado, porque a mercadoria, que é puro valor de troca e para a troca, e que dá o novo significado àquele produto cultural, tem um significado vazio, massificado, fútil, debochado, cada vez mais voltado para a pura apelação erótico-comercial no mais “conveniente” (para o capital) estilo Ratinho, Xuxa, Hebe Camargo, Faustão, Leão, Programa H, Gugu Liberato, Sílvio Santos e coisas do gênero.

Não podemos, da mesma maneira, cair numa concepção de uma cultura que nasce das massas em sua forma “pura” e que depois, ao ser englobado pela lógica do mercado, torna-se “impura”, mercantilizada. Devido ao próprio caráter deformador e mercantilizado da várias manifestações artísticas, muitas destas mesmas manifestações já no seu nascedouro assumem a sua forma vazia de conteúdo e desprovida de qualquer valor como manifestação de arte. Nem toda produção artística popular, sobretudo hoje, expressa, ou tem qualquer preocupação em expressar, “os anseios e sofrimentos populares”.

Entre o artista e produtor cultural e o público consumidor encontra-se o capital que, como detentor dos meios de produção cultural (a TV, a imprensa toda, as casas de espetáculos, as gravadoras, os times de futebol, de tênis, de vôlei e basquete e muito mais), coloca-se como receptáculo de toda a massa de lucro que provém desta vasta produção cultural cada vez mais lucrativa, cada vez mais corrompida, de nível cada vez mais baixo e de distância cada vez maior de suas origens populares. Foi o que já aconteceu com o carnaval do Rio de Janeiro, em cujas escolas de samba já se completou a substituição dos figurantes populares pelos atores e estrelas da TV e do futebol e é o que está acontecendo com o carnaval da Bahia, no qual o povo fica cada ano mais alijado da brincadeira (perdão, da violência indiscriminada) que passou a ser domínio de blocos aos quais só têm acesso pessoas de classe média alta que podem pagar caro a sua participação e turistas que podem pagar “pacotes” caros que lhes dão todo o direito de ocupar as ruas que deixaram de ser livres à circulação popular.

A ARTE MERCANTIL E OS NOVOS RICOS

Enquanto isso, os capitalistas que ganham mais e mais diretamente com os negócios da cultura (os donos das gravadoras, como a Sony e outras, os donos dos canais de TV, como Roberto Marinho e outros, e de rádio, as fábricas de bebidas, os distribuidores de drogas, etc.), têm de pagar bem aos artistas e intelectuais que fazem a intermediação desta transformação da arte popular para a arte mercantil — e é neste rol que entram o próprio Carlinhos Brown, os grupos do Tchan, os inúmeros compositores e grupos de “pagode” e “música sertaneja”, os Xitõesinhos e Xororós as Danielas Mercurys e as Ivetes Sangalos da vida, e assim sucessivamente. Para se tornarem novos ricos — na verdade novos milionários (novos membros da própria burguesia) —, eles têm de tornar-se os intermediários do esvaziamento da cultura popular, pondo no lugar dela, e a partir dela, com suas “geniais” composições, a cultura mercantil do gosto e do interesse do capital. E é aí que mente, ou se engana, quem pensa que Samba-Enredo e Axé-Music são sinônimos de cultura popular. Não, não são nada disso. São, ao contrário, massificações, não por acaso altamente lucrativas para o capital e seus capitalistas que, agora e cada vez mais, não investem só na produção de meios de consumo (alimentos, artigos de luxo, etc.), mas também na mercadoria cultural, o veneno capitalista que liquida e esvazia a cultura popular e coloca no seu lugar uma mercadoria cultural cada vez menos legítima e que, para sobreviver e render lucros, tem de acionar a mídia para fazê-la presente na pauta de consumo de massa.

A propaganda entra em cena, o povo consome e se aliena com uma cultura fútil e os capitalistas com seus artistas e produtores culturais enriquecem. O povo fica mais ignorante e vai morar em bairros e casas cada vez mais miseráveis; e a burguesia, agradecida, fica cada vez mais rica e, procurando afastar-se deste povo “perigoso e violento”, busca moradias em “conjuntos e resorts de luxo”, cercados e guardados por cães e seguranças arquiarmados, para exatamente manter a devida distância entre os novos milionários e o povo que lhes cedeu o caldo de cultura que os fez ricos e afastados.

Resta saber apenas uma coisa: até quando?

 

Oposição Operária

Originalmente publicado no Jornal Germinal nº. 0 (2000).

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