Há uma recuperação na economia mundial?

Recuperação, este é o nome do jogo! Os “rebentos verdes” germinam a economia mundial, é a idéia festejada por políticos e ideólogos ao redor do mundo. É uma expressão comemorativa e também uma simbologia que busca anunciar que “o pior já passou”, e os ventos da recuperação já sopram sem cessar. Mas até que ponto a festejada recuperação da economia não passa de tagarelice propalada aos quatro cantos para tentar disseminar a idéia de que a atividade econômica está entrando nos eixos da produção a pleno vapor, ou está a caminho disso, ao tempo em que alimentam a roda tresloucada da financeirização e das bolsas de valores em tempos de glória? Desde setembro de 2008, quando da quebra do Banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, um marco “financeiro” para a atual crise, uma enxurrada de dinheiro foi canalizada, sobretudo pelos EUA, mas também por todos os grandes países do mundo, a fim de estancar a hemorragia global que significaria uma quebradeira geral no sistema financeiro mundial. Apenas os norte-americanos consumiram, até março deste ano, mais de 11 trilhões de dólares para salvar bancos, seguradoras e grandes empresas, “demasiado grandes para falirem”, no dizer do governo americano e demais defensores da intervenção estatal salvadora. Um dado revelador não foi tão destacado pela mídia: é que essa dinheirama toda simplesmente não existia, mas apareceu como por encanto fruto de papel-moeda novo (dinheiro pintado) ou títulos emitidos pelos governos para alavancar artificialmente um sistema à beira da quebra.

Para se ter uma idéia desse volume de recursos, a cifra de 11 trilhões equivale a cem vezes o que foi gasto pelos mesmos Estados Unidos (ajustado o efeito da inflação) para reconstruir a Europa destruída nos momentos posteriores à Segunda Guerra Mundial, o chamado Plano Marshall.1 O estrago ocorrido na economia mundial é então, do ponto de vista econômico, cem vezes maior do que foi a destruição europeia na Segunda Guerra? Possivelmente é ainda maior, primeiro porque os recursos para salvar bancos e empresas, e para fomentar a economia, não pararam desde então, e o governo dos Estados Unidos, epicentro da crise, continua a injetar recursos em grandes quantidades.
Segundo, porque ainda assim, não há qualquer sinal de que o sistema global tenha atingido uma recuperação sustentada da economia, nem a do planeta e nem mesmo a americana. Ao contrário disso, a economia dos Estados Unidos continua a se deteriorar a olhos vistos, como demonstraremos ao longo deste artigo, o que compromete decisivamente uma recuperação mundial, como tentam nos fazer acreditar que existe.
A imprensa econômica brasileira, por seu lado, tenta mostrar que, à parte desse tumulto global, há uma ilha de prosperidade mundial chamada Brasil, e os ventos que sopram lá não sopram cá, ou melhor, há ventos fortes por aqui que permitem empurrar a nau brasilis para os mares do desenvolvimento e da prosperidade. Será mesmo? O que significam os números alvissareiros da economia brasileira, tão celebrados mundo afora, e também por aqui? A tese do “descolamento” do Brasil, de um desenvolvimento com e apesar da crise, tem realmente fundamento? Ou podemos fazer uma leitura da economia brasileira justamente no entendimento de como a sua atual situação tem a ver com este momento peculiar da situação internacional? Será que os fundamentos econômicos dos países ricos, com taxas de juros extremamente baixas, guardam alguma relação com os recursos volumosos que são recebidos na emergente economia brasileira? E esses recursos recebidos, a tal enxurrada de dólares, como podemos entendê-los relacionados com a farra de moedas verdes derramadas para salvar a economia do planeta?

Buscaremos ao longo deste artigo as respostas para algumas dessas indagações. Passemos então a discorrer sobre alguns números, que dizem respeito à economia brasileira, para buscar depois entendê-los e relacioná-los com os dados que estão disponíveis para as demais economias importantes do mundo, sobretudo com a economia americana.

O Brasil em céu de brigadeiro. Sem turbulências.

Muito embora o cenário da economia mundial seja de crise, alguns dados têm sido divulgados pela imprensanos últimos meses mostrando a quanto anda a recuperação do Brasil no cenário mundial. Não podemos desconsiderar esses dados, visto que muitos deles realmente fazem sentido. Não podemos também desconsiderar que o Brasil tem efetivamente galgado importantes posições, com a sua economia “emergente”, frente a países ricos que não conseguem sair de níveis medíocres de crescimento, a ponto da maioria desses países ter previsão de PIB negativo para o ano de 2009.
Joguemos inicialmente alguns desses dados, sem uma preocupação maior em discorrer mais detidamente sobre eles neste momento, para mais à frente tentar compreendê-los em meio ao encadeamento de informações e análises, a fim de buscar um enquadramento o mais amplo possível nos limites deste artigo.
A Revista Exame, edição 948, de 29/07/2009, cuja matéria de capa se intitula “Uau, voltamos a crescer!”, mostra que dez meses depois do período mais turbulento da economia nas últimas oito décadas, o Brasil já dava sinais de que a crise por aqui foi mais rápida do que se imaginava. Empresas como a GM, saindo de uma concordata nos Estados Unidos (com ajuda do governo), anunciava um investimento de 2 bilhões de reais para ampliar a produção de sua fábrica em Gravataí. A indústria automobilística, por sua vez, tida como a indústria automobilística que mais cresce no mundo, mais do que a chinesa, tem a perspectiva de vender mais de três milhões de carros no país em 2009. O PIB brasileiro, após dois semestres de queda, saiu do vermelho e voltou a crescer. Das 360 maiores empresas brasileiras pesquisadas pela Revista Exame, 70% delas retomaram os investimentos e os estão ampliando. Por conta da redução de IPI nos produtos da chamada linha branca, grandes varejistas já estão com dificuldades de repor estoques para produtos como notebook, geladeiras, lavadora de roupas, etc. Por outro lado, as vendas dos supermercados só crescem, e o mercado interno tem sido visto como o motor do crescimento nos últimos anos, com o consumo interno respondendo por 60% do PIB brasileiro.
A mesma revista aponta que depois de um desemprego em massa no final de 2008, já houve a criação de 300.000 empregos no primeiro semestre de 2009, e o Brasil será um dos poucos países do mundo que encerrará o ano com crescimento no número de empregos, estimado em 600.000, diante de um cenário de desemprego em larga escala nos principais países do planeta. A capacidade instalada das indústrias siderúrgicas (capacidade de produção máxima, a “pleno vapor”), que havia caído para 49% depois do estouro de setembro e outubro de 2008, já estava em 80% no mês de maio, e tudo indica que avançou ainda mais dado o “aquecimento” dos últimos meses. Da mesma maneira, o investimento estrangeiro no Brasil tem-se revelado acima do esperado para tempos de crise, devendo o país receber U$ 42,7 bilhões de investimentos em 2009, ante U$ 34,7 bilhões em 2008, 21% a mais do que o ano anterior, fora o que chegou para aplicação direta na bolsa de valores.
Por falar em bolsa de valores, a do Brasil, a BM&FBovespa, foi a bolsa que mais se valorizou no mundo entre os meses de janeiro e julho deste ano, 87% contra 79% da bolsa de Xangai, na China, a segunda maior em valorização. A bolsa brasileira abrigou, neste ano de 2009, a maior abertura de capital do mundo, a do Banco Santander Brasil, com 14,1 bilhões de reais captados pelo banco, cerca de oito bilhões de dólares. Mais uma vez esse lançamento de ações superou o de uma companhia chinesa, a construtora CSCEC, que levantou U$ 7,34 bilhões.3 A terceira maior abertura de capital do mundo, a da processadora de operação com cartões Visanet, também ocorreu na BM&FBovespa, bolsa que dobrou o valor total das companhias negociadas desde 2004.
Como vemos, ainda que distante de China e Índia como principais economias emergentes, o Brasil tem mudado de patamar econômico, dado a forma como tem sustentado um crescimento médio significativamente maior do que os países industriais. Mas, afinal de contas, por que esses números têm sido possíveis no Brasil? Ainda mais, como tem sido isso possível em meio a uma crise em que as principais economias do planeta patinam sem sair do lugar, ou mesmo andam para trás? Adiemos mais um pouco as prováveis respostas, mas adiantemos por ora já que a mira dos principais investidores internacionais está apontada para os países emergentes, e não para a Europa, Estados Unidos ou Japão, tradicionais locomotivas do crescimento.
Continuando ainda um pouco na safra de “boas notícias” para a economia brasileira, falemos de petróleo e das descobertas brasileiras do pré-sal, cujas reservas são estimadas hoje entre 30 e 100 bilhões de barris de petróleo, riqueza essa que já desperta a cobiça de dezenas de multinacionais que deverão ser parceiras de negócios com a Petrobrás e a eventual estatal a ser criada para tocar o negócio (pelo visto não será mais Petro-Sal). A perspectiva inicial é que até o ano de 2013, 190 bilhões de dólares serão investidos para possibilitar a retirada de óleo das profundezas do Oceano Atlântico. Se for difícil imaginar tal cifra, tomem como referência que isso dá mais de 100 milhões de dólares por dia em investimentos, de agora até o final do ano de 2013.4 Não por acaso a estimativa é que os negócios ao redor do pré-sal façam aparecer centenas de novas empresas e criem cerca de 700.000 empregos. Tudo isso apesar do sem-número de querelas políticas e técnicas ainda em discussão.
Os números acima são ainda estimativas, claro, mas o fato é que o setor de petróleo no Brasil, que em 1997 respondia por 3% do PIB brasileiro, em 2008 já abocanhava uma fatia de 10% desse PIB. Com o présal estima-se que chegue a 20%. A indústria automobilística, cantada e festejada nos últimos meses, detém 5,5% do Produto Interno Brasileiro. Não é à toa que a Petrobrás é reconhecida atualmente como uma espécie de “menina mais bonita da festa”, dado que “todos querem dançar com ela”, ou melhor, querem vender equipamentos pesados e todo tipo de infraestrutura e tecnologia para perfuração e montagem de plataformas. A propósito, cerca de 400.000 americanos têm hoje ações da Vale do Rio Doce e da Petrobrás, figurando esta última entre as empresas mais negociadas da Bolsa de Nova York, mais até do que, pasmem, alguns dos ícones do capitalismo, como a Coca-Cola, a McDonald’s, a HP e a Visa, dentre outras tantas. Trinta e duas são as empresas brasileiras que têm os seus papéis negociados na grande bolsa americana, sendo o Brasil o segundo país do mundo em termos de movimentação de ações em Nova York, atrás apenas dos Estados Unidos.
Para completar esse quadro, no período “pós-crise” (atenção para as aspas), com a retração na indústria automobilística de outros países, o Brasil passou de nono para a quinta posição no ranking dos maiores mercados mundiais de automóvel, destacando-se como um dos mercados mais importantes do mundo, à frente hoje de países como Inglaterra, França e Itália. As vendas de automóveis nesses países chegaram a reduzir em mais de 20% e não têm perspectiva de renomada em curto prazo.6 Enquanto isso o Brasil tem registrado recordes de vendas…
Fiquemos por aqui nesta longa disposição de dados. A interrupção da leitura neste instante poderia fazer crer que estamos numa trajetória de foguete em disparada em meio a uns cem números de estrelas cadentes no cenário capitalista mundial. Não vamos usar por ora números que poderiam servir como uma injeção de contraeuforia. Claro que não podemos desprezar ou negligenciar certo grau de maturidade a que chegaram alguns setores da economia brasileira, assim como os chamados “fundamentos” da sua economia, como as reservas em dólares, hoje em U$ 230 bilhões, mais um recorde, o que tem possibilitado a vinda de mais dólares ainda, em busca de rentabilidade alta, visto que não encontra isso nas economias desenvolvidas, cujas taxas de juros estão próximas a zero.
Vamos então começar a buscar as respostas para dar início ao entendimento de toda essa “pujança econômica”, ao tempo em que buscaremos saber quais são os possíveis problemas e os seus limites. Para isso mergulharemos um pouco no cenário mundial e na chamada economia real, a fim de descobrir o que é verdade e o que é mito em meio a todo esse discurso de retomada e de desenvolvimento, do mundo e do Brasil.

Uma crise financeira?

Durante muitos momentos desde os meses de setembro e outubro do ano passado, economistas, comentaristas e um sem-número de ideólogos quiseram nos fazer crer que a crise existente na economia era uma crise financeira. Seria ela devida aos maus empréstimos imobiliários nos Estados Unidos e também na Europa, e à fraca regulação dos ativos financeiros que foram espalhados pelo mundo. Teria sido essa crise financeira que, sem controle, contaminara a economia real provocando tanto estrago. Para debelá-la, então, seria necessário implementar componentes de regulação ao setor financeiro para frear o parasitismo da economia real e injetar uma dose maciça de crédito com o objetivo de retomar o funcionamento “normal” da economia. E assim voltaríamos ao reino dos céus e dos lucros.
Por que é importante para a economia burguesa mostrar que se trata de uma crise financeira? Justamente porque o que ocorre é o inverso disso, ou seja, são as contradições da economia real que são as responsáveis pela crise financeira. Muito embora os acontecimentos espetaculares da superfície sejam as quebras das bolsas, as falências de grandes bancos, os grandes prejuízos com derivativos, etc., eles acabam por revelar graves problemas existentes na economia real. Esses aspectos financeiros, ainda que também tenham grande importância, não podem nos impedir de compreender as causas profundas da crise. É por tudo isso que é importante para a economia marxista demonstrar quais são essas contradições mais fundamentais, e mostrar que as crises financeiras são conseqüências dessas contradições, e não a sua causa.

Recuperação e realidade: um mergulho na economia americana

Para começar a nos aproximar do que tem de realidade em contraposição ao que é mero discurso, vamos visitar algumas informações importantes da economia americana. Para início de conversa, mesmo depois da crise e de alguns trimestres de retração em sua economia, os Estados Unidos ainda têm a maior economia do planeta, muito à frente de qualquer outro país. São responsáveis, sozinhos, por 23,5% do PIB mundial, e possuem 29 das 100 maiores empresas do mundo, além de ser o país que mais investe em inovações tecnológicas e em pesquisa. Os Estados Unidos são também responsáveis pela maior parte dos investimentos diretos no estrangeiro. É por todas essas razões, e também por ser o país cuja economia é o epicentro da crise e das contradições mundiais do capitalismo, que nos curvaremos mais detidamente para essa economia.
Dados condensados pelo US Federal Reserve dão conta de que, em julho de 2009, a “capacidade de utilização”da indústria manufatureira era de 65,4%, ou seja, aproximadamente dois terços. Lido ao contrário, isso quer dizer que um terço de todo esse ramo importante da indústria americana estava sem utilização. Máquinas, equipamentos, fábricas, escritórios, etc., trabalham com essa elevada capacidade ociosa, quando a média de utilização entre 1972 e 2009 foi de 79,6%. No ramo dos bens duráveis, a situação é ainda pior, pois a capacidade instalada está trabalhando com 60% de sua força, ou seja, 40 de ociosidade. O que existe, então, é uma incapacidade do sistema em fazer uso dos recursos disponíveis, e isso mesmo depois de um ano de pacotes de estímulo econômico. Se há um aumento do desemprego do trabalho, como tem acontecido em diversos países, há também o desemprego do capital, como nunca houve desde os anos 1930, revelando um colossal desperdício do sistema econômico.
Pois foi justamente a partir de meados do mês de agosto de 2009 que começaram a aparecer os discursos da “recuperação”, em meio a dados tão gritantes da economia real. Vejamos alguns sintomas mais de que a tal recuperação não passa de falação sem substância.
O que deflagrou a quebra dos grandes bancos e seguradoras no último trimestre de 2008 foi, sobretudo, os tais empréstimos subprime, ou seja, empréstimos aprovados, com avaliação de risco e tudo o mais, a pessoas que não poderiam mais pagar por eles. Para conter a quebra do sistema financeiro e de grandes bancos, o governo arquitetou todo o mega esquema de salvação. Depois, misteriosamente, paramos de ouvir falar nas dificuldades de pagamentos, como se elas tivessem deixado de existir; no entanto, houve neste ano de 2009, 1,9 milhões de arrestos (tomada de bem por endividamento) somente nos seis primeiros meses do ano. E a perspectiva é de que aconteçam mais 1,5 milhões até o fim do ano.
A inadimplência, por seu lado, também é crescente, como podemos comprovar no gráfico a pagina seguinte. A propósito, segundo avaliação do banco alemão Deutsche Bank, 48% de todas as hipotecas americanas estarão insolventes em 2011.10 Somente no mês de junho desse ano as vendas de imóveis caíram 23,7% em relação ao mesmo mês de 2008. Como consequência desse quadro de baixa de vendas, também os preços dessas casas estão caindo sem cessar. Esse é um nó difícil de desatar na economia americana. As pessoas se endividaram ao longo dos últimos anos (mais de uma década) e propiciaram uma orgia de consumo mundial por parte das famílias americanas, baseada na crença de que os seus bens valorizariam sem cessar. Como os valores dos imóveis só desabam, há um empobrecimento crescente do trabalhador médio americano e uma destruição de bilhões de dólares em sua situação patrimonial. Destruição de riqueza, em outras palavras.

A situação do crédito imobiliário americano continua em colapso, junto com o número de arrestos em crescimento e a queda no preço dos ativos, o que aumenta a inadimplência. O resultado disso tudo é que todo aquele volume maciço de dinheiro injetado nos bancos continua empoçado por lá, sem alimentar a economia real. Como a situação das famílias é de insolvência, as linhas de crédito estão paralisadas. As falências bancárias continuam a acontecer, com socorro pontual do Estado americano para não quebrar este ou aquele banco. Os que estão empanturrados de dólares em seus caixas, não querem emprestar. Como emprestar dinheiro a quem não vai poder pagar? É essa a linha de raciocínio dos banqueiros dos EUA nesta conjuntura. Sem crédito, há uma significativa redução no consumo e o PIB só tem encolhido nos últimos resultados. Dá para falar em recuperação com esse barulho infernal na economia real?
Uma economia que se caracterizou em toda uma conjuntura por liberar crédito fácil e farto tem essa engrenagem enferrujada de uma hora para outra. Os bancos, na defensiva, entesouram a fim de tratar mais despesas que vem pela frente com os ativos tóxicos que continuam a ser uma realidade irresolúvel. A confiança do consumidor americano continua a ser deprimida a cada mês. E o que fez o Estado americano além de socorrer grandes bancos e multinacionais, “grandes demais para quebrar”, e deixar à míngua a classe trabalhadora com seu endividamento, sofrendo, essa sim, as consequências da crise?
Eis o que fez o Estado: baixou os juros. Parodiando conhecida personagem política brasileira, nunca na história desse país os juros foram tão baixos. As taxas de juros foram reduzidas a quase zero. Mesmo assim, não saem os empréstimos e nem é aquecido o consumo, dado que o trabalhador americano trabalhou “alavancado” nos últimos anos gastando um dinheiro que não era seu, dinheiro tomado de empréstimo. Perdeu o que era seu e o que não era (dívida), aumentando o seu passivo, enquanto o seu ativo continua a se deteriorar. Agora, sem poupança e endividado, começou a tratar de “desalavancar”, ou seja, está restringindo o consumo a um mínimo possível a fim de formar alguma poupança, algo que nem mais sabia o que significava.
Como soltar fogos de artifício comemorando uma recuperação em que o setor produtivo se vê restrito, trabalhando com capacidade ociosa e sem perspectiva de retomada, dado que o consumidor pisou no freio decididamente, ou nem mais tem como acelerar o seu ritmo consumista? Uma mudança drástica tem sido verificada no perfil do consumidor médio americano,
Gráfico 1

que tem redescoberto a parcimônia, com reflexos diretos em vários setores da economia.
A perda de empregos entre os trabalhadores dos Estados Unidos é um dos mais graves problemas de sua economia real. O número de empregos perdidos no mês de setembro deste ano foi de 263 mil, contra 201 mil no mês de agosto, aumentando a estatística oficial para 9,8% de desempregados. Vários economistas renomados dos Estados Unidos sabem que esse número é subestimado e preferem levar em conta a estimativa do Bureau of Labour Statistics (BLS), que fixava em 17% o índice de desemprego para o mês de setembro. Ainda assim essa medida não inclui os trabalhadores que, cansados de procurar emprego e não lograr êxito, desistiram dessa busca. Com esses, por pesquisa estimulada, o índice subiria para 21,4%, conforme o gráfico 1.
Temos então um quadro mostrando um quinto da população americana desempregada, e o restante afundado em hipotecas bancárias e dívidas de cartão de crédito, sem poupança para propiciar uma nova corrida ao consumo e sem crédito também para tal. Onde está a recuperação? Como considerar que “o pior já passou”? Todos esses dados mostram que o maior problema da crise norte-americana está na economia real, mas é justamente por alguns resultados que apareceram na esfera financeira que os fanfarrões começaram a festejar a vitória contra uma crise que persiste.

Dívida sem fim. Para onde vai o déficit americano?

Se levarmos em consideração os pontos que foram abordados anteriormente, fica coerente deduzir que mais execuções de hipotecas deverão acontecer e mais bancos vão precisar de mais salvamentos. O financiamento disso se dá com mais dívida, ou mais criação de moeda sem lastro em criação de riqueza, o que se chama de “pintar” papel dinheiro. A grande pergunta é até quando o Departamento do Tesouro Americano vai continuar socorrendo bancos à custa de um endividamento que multiplica a olhos vistos.
Uma dívida que foi criada, sobretudo pela burguesia privada, que passou anos cantando a retirada do Estado da economia, é agora “sociabilizada”, leia-se, repassada para a classe trabalhadora e o conjunto da sociedade, por meio do assalto aos recursos públicos, o que leva ao risco de jogar as contas públicas da maior economia do planeta nas profundezas do inferno.
Vejam o que disse a Bloomberg News em seu boletim de 21 de agosto deste ano:

Os Estados Unidos acrescentaram mais 111 bancos na lista dos ‘bancos problemáticos’ no segundo trimestre, crescimento de 36% que elevou o grupo ao nível mais alto em 15 anos. Um total de 416 bancos com ativos somados de U$ 299,8 bilhões quebraram até agora e foram socorridos pelo Federal Deposit Insurance Corps (FDIC), agência federal que supervisiona o sistema. Os órgãos reguladores estatizaram 81 bancos neste ano… Vinte e quatro bancos quebraram no segundo trimestre com a aceleração do ritmo de calotes, resultado da pior crise financeira desde a Grande Depressão.

Não por outra razão, economistas americanos, grandes capitalistas e os mais atentos à bomba relógio que está armada aos seus pés, mostram-se cada vez mais preocupados e até desesperados quanto aos efeitos de uma explosão e crise do crédito público. A dívida pública americana já está próxima dos 12 trilhões de dólares e, a crescer ao ritmo atual, chegará aos 23,3 trilhões no ano 2019, conforme previsão do Orçamento do Congresso Americano. O déficit fiscal americano, que é a diferença entre o que o governo arrecada e o que ele gasta, deverá ficar neste ano em U$ 1,8 trilhões, ou 13% do PIB. Apenas por curiosidade, o maior déficit fiscal americano em tempos de paz havia sido de 6% do PIB desde meados do século passado. É a soma desses dois déficits, o fiscal com o público, que se costuma chamar de “déficits gêmeos”, pois o primeiro alimenta o segundo. Como o governo gasta mais do que arrecada (déficit fiscal), tem que emitir títulos da dívida pública (déficit público) para suprir essa diferença. Na realidade, os dois andam juntos e têm crescido juntos, trazendo uma ameaça potencial para o sistema financeiro mundial, com todas as consequências que podem advir para o próprio sistema produtivo, ou seja, um desmoronamento mais completo e profundo, uma vez que o Estado não mais poderá lançar a boia salvadora.
A questão é que estamos vivendo numa economia viciada em dívida, viciada irremediavelmente a cada dia que passa, e que, sem esse tipo de anabolizante, tende a murchar e definhar. O caminho do dopping econômico não tem retorno. O problema agora é saber até onde e até quando esse elástico vai aturar esticado sem romper.

Para entender a questão dos títulos americanos

Os déficits americanos de que falamos acima podem gerar um perigoso desequilíbrio no mercado de títulos do país, e do mundo, por extensão, o que pode tornar a crise mundial ainda mais grave. Para entender melhor esta questão, é preciso colocar em cena um ator até então relegado a segundo plano, mas não menos importante – a China. E por que a China? Porque um componente importante da economia mundial nos últimos anos foi uma espécie de simbiose que existiu – e existe – entre os Estados Unidos e a China. É que, para financiar um déficit público tão gigantesco, os Estados Unidos lançam títulos do Tesouro Americano que são comprados, sobretudo, pelos chineses. São os chineses os maiores detentores da dívida pública americana, com reservas acumuladas, atualmente, em mais de 2,3 trilhões de dólares. Não são os cidadãos americanos quem financiam a dívida do seu país, visto que estão endividados ao extremo, e também não é a burguesia privada mundial que está inquieta e temerosa com o estado de saúde do dólar e dos Estados Unidos.
Aos chineses interessa financiar essa dívida, pois eles exportam grande parte de sua produção industrial para os Estados Unidos. Com a crise, no entanto, os Estados Unidos passaram a importar menos, não apenas da China, mas de todo o mundo. Exportando menos a China pode vir a ter problemas de recursos para continuar a financiar a dívida americana via compra de títulos daquele governo. Outro componente é que, justamente para contrabalançar a queda no comércio e nas exportações mundiais, a China está estimulando o seu mercado interno, via aumento de consumo dos próprios chineses. A tendência, a continuar nessa toada, é haver uma diminuição do nível de poupança chinesa, com menos recursos fluindo para os Bancos chineses para que possam investir em ativos dolarizados. Como a dívida americana só faz crescer, os EUA vão continuar com uma absoluta necessidade de emitir títulos do Tesouro ou de imprimir papel moeda sem lastro, ou os dois, mais provavelmente.

O problema é que ao emitir títulos para financiar os programas de recuperação de Barack Obama, ou para salvar bancos, ou para tapar o buraco do déficit fiscal, os EUA aumentam ainda mais o seu endividamento. E tudo isso num momento em que nem a China ou qualquer outro país será capaz de absorver a enxurrada de papéis que estão abarrotando o mercado, como havia feito até então. Nos últimos anos, as reservas individuais somadas de vários países saltaram de U$ 2 trilhões para U$ 8 trilhões de dólares.

A dificuldade se agrava para a economia americana, uma vez que, com o derrame de dólares dos últimos anos, essa moeda, ainda aquela que é referência mundial, começou a ser olhada com desconfiança por todos os atores do cenário global, e começou a se desvalorizar perante praticamente todas as moedas do mundo. Ora, os países que detêm uma imensa fatiade riqueza em títulos americanos, cotados, claro, em dólar, correm o risco, de uma hora para outra, de verem essa riqueza se evaporar com uma megadesvalorização do dólar, uma moeda cujo descrédito cresce a olhos vistos. Ao invés de alimentar a viciada economia americana, os países começam a se desvencilhar dos dólares acumulados ou, no mínimo, a não entesourar mais em dólares, ou a não procurar mais os títulos americanos, tidos até então pelo mercado como os mais seguros. Vejam o que mostra o gráfico abaixo em relação ao interesse pelos títulos dos EUA para longo prazo nos últimos meses.
Podemos afirmar, sem medo de errar, que há uma bolha no mercado de títulos do Tesouro americano. O grande perigo é essa bolha estourar, ou melhor, a questão é saber até quando vão conseguir mantê-la no ar sem romper, uma vez que ela cresce mais e mais. Quem investe em títulos americanos atualmente está procurando aqueles de curto prazo, pois nem os investidores institucionais estão apostando mais naquela economia no longo prazo, no colosso e locomotiva econômica do planeta, é bom sempre lembrar.

Alinhavando algumas conclusões

Como as atuais taxas de rendimento dos títulos americanos para 10 anos, por exemplo, estão entre 2% e 2,4%, ou seja, baixíssimas, o que estão fazendo os investidores internacionais? Simples: como têm a ambição de continuar ganhando, sobretudo os que acreditam em ganhos fáceis, os que estavam “comprados” em dólar, para se proteger da crise, passam a ficar “vendidos” nesta moeda, e “comprados” em moedas, principalmente, dos países emergentes, uma vez que a “recuperação” é mais forte nesses locais; mas não apenas isso, também porque mesmo em investimentos de renda fixa, países como o Brasil dão algo em torno de 9% ao ano. Para quem está ou estava auferindo quase zero de rendimento, é um grande negócio.
Nesse sentido, o próprio discurso da recuperação atua contra o dólar, dado que estimula o investidor a se livrar desta moeda, o que causa uma maior oferta dela no mercado, acelerando a sua desvalorização. A questão se complica porque manter títulos tão pouco atrativos numa economia que precisa cada vez mais vender estes papéis só seria possível se se acreditasse numa espiral de deflação prolongada (e desastrosa) para valer a pena ganhar 2,4% em 10 anos. A deflação é realmente um problema atual na economia americana, frente ao empobrecimento e endividamento da população, à deterioração de sua situação patrimonial, como a queda no valor dos imóveis (enquanto as dívidas ficam estáveis ou crescem), o que tem levado a uma drástica redução no consumo o que, por sua vez, compromete a recuperação.
Por outro lado, o FED (Banco Central Americano) continua a imprimir dinheiro furiosamente, o que coloca como o perigo da próxima esquina não mais a deflação, mas o potencial inflacionário que trás essetipo de atuação. Ora, em qualquer lugar do mundo imprimir moeda sem respaldo em riqueza concreta leva “naturalmente” à inflação. Isso só não tem acontecido nos EUA pelos motivos acima citados e pelo fato de boa parte da economia atuar neste momento com capacidade ociosa. Se uma recuperação real tiver lugar nos próximos meses ou anos, o ônus de todo esse derrame de moedas verdes será cobrado na esteira dessa recuperação, via inflação. É por tudo isso que o mundo olha hoje para os Estados Unidos e vê que existe um cenário inflacionário pela frente, e que não faz o menor sentido ficar sentado numa pilha de títulos dolarizados, já que o que aponta a tendência é uma desvalorização desses papéis, junto com o ex-poderoso dólar.

O Brasil e o mundo: dá para acreditarem descolamento?

Começamos este artigo citando uma série de bons números da economia brasileira. Trata-se, de fato, de uma economia que tem tido um crescimento maior do que o de alguns dos grandes países do mundo e que tem apresentado números surpreendentes em relação ao seu próprio passado. Ganhou, como dissemos antes, certa musculatura e maturidade. Mas ainda assim se trata de uma economia pequena em comparação com as maiores do planeta. Participa com algo em torno de 2,4 a 2,7% do PIB mundial, contra quase 25% da economia americana, por exemplo. É por esse motivo que não dá para imaginar que todas as economias têm o mesmo peso qualitativo no cenário internacional. Foi por esse motivo que priorizamos neste artigo a análise da economia americana para fazer uma avaliação do que de fato se passa entre os grandes, ou melhor, entre os maiores, com os perigos que espreitam cada lance que é feito na tentativa de dar fôlego ao colosso americano.
É por todos esses motivos que não dá para imaginar que a tese do descolamento pode ser levada a sério, e que as economias emergentes teriam o poder de crescer e puxar o crescimento do mundo trazendo a reboque as economias europeias, japonesa, americana, enfim, os países mais dinâmicos do processo histórico capitalista. Mesmo a China, caminhando a passos largos para ser a segunda economia do planeta, não é ainda uma máquina possante o bastante para suprir o poder de produção e de consumo do mercado americano, a ponto de substituí-lo e puxar o crescimento do mundo, ainda mais considerando que os EUA, antes a locomotiva, agora poderão ser um peso a ser arrastado.
Para entender a “prosperidade” atual da realidade econômica brasileira18, assim como a da China, da Índia e até a da Coreia do Sul, um dos elementos que precisaríamos compreender é conhecido na língua inglesacomo outsourcing, outros o chamam de offshoring, outros ainda, já numa tradução aportuguesada, designam de deslocalização. Seja qual for o nome, o fenômeno consiste em transplantar todo um aparato produtivo instalado em um país para outro país, em busca de lucros fáceis, principalmente por conta de sua mão de obra mais barata. Leia-se, transplantar empresas dos EUA, Europa, Japão, etc., para o Brasil, a China, índia, Coreia do Sul e outros. Foi assim que a China “sugou” – e continua a sugar – muito da economia americana e da europeia, e até da japonesa. Também o Brasil se beneficiou dessa prática que visava, como dito, a retomada dos lucros pagando menos aos trabalhadores e aumentando a sua jornada de trabalho.
Mas esse é só um dos elementos dessa realidade, que aqui apenas tangenciamos. Outro importante elemento consiste justamente no entendimento que buscamos captar em todo o artigo. Procuramos deixar claro como aconteceu o socorro estatal aos grandes bancos e empresas, por meio da maior injeção de liquidez de que se tem notícia no mundo em todos os tempos.
Mostramos que o dinheiro, que foi usado para salvar as grandes empresas e bancos, não se transformou em oferta de crédito a fim de irrigar outra vez a economia com o estímulo ao consumo.
Temos todos os elementos para compreender como esse dinheiro sobrante na economia passou a buscar loucamente praças onde conseguissem melhores condições para se “reproduzir”. É desse modo que bancos e investidores dos países ricos têm-se aproveitado do dilúvio de dólares despejados em circulação para transferir uma parte dessa moeda empoçada paraas nações emergentes. Como não dá para transformar a maior parcela desse dinheiro em “capital-dinheiro”, ou seja, dada a crise de superprodução mundial, não é possível aplicar fortemente no setor produtivo, a ordem do dia passou a ser a transformação dessa moeda sobrante mundial em capital fictício. Voltaram então, bancos e bancões, e instituições financeiras e aplicadores mil, a atuar fortemente no mercado financeiro e de derivativos.
Se a crise financeira foi deflagrada por uma bolha que colocava em evidência os problemas mais estruturais da economia, a tentativa de solução da crise via injeção de liquidez, fez aparecer uma nova bolha, uma vez que não há o que fazer com tanto dinheiro desbotado por falta de lastro senão colocá-lo para girar na roleta do revitalizado cassino global. O Brasil, cuja taxa de juros é de 8,75% atualmente, ainda tem uma das mais elevadas taxas de juros do planeta. Transformou se então num dos alvos preferidos dos investidores internacionais, quer seja para aplicação em renda fixa, ou, principalmente, na bolsa de valores, o que ajuda a explicar a alta muito acima de qualquer padrão razoável que vem tendo essa bolsa – apesar dos sustos que ocorrem vez por outra -, e apesar da taxação de 2% de IOF, conforme a nova medida do governo brasileiro para taxar capital especulativo estrangeiro.

É por tudo isso que o Brasil se tornou uma espécie de oásis mundial para chegada de dólares querendo valorização rápida e fácil. Um país de juros altos, ações ainda baixas (em relação ao pico “pré-crise”), uma economia que mostrava sinais de recuperação e uma moeda que foi a que mais se valorizou no mundo em relação ao dólar. O Brasil é hoje um centro internacional de reciclagem de dólares sobrantes, e por isso o governo pôde se dar ao luxo de taxar o capital especulativo, pois, mesmo assim, ainda entrou mais moedas verdes do que a que foi embora.
Como os que atuam nesse mercado da riqueza fictícia parecem ter a memória curta, enquanto não vier um novo colapso, parece que a situação deve continuar a se reproduzir, com o governo acumulando reservas ainda maiores, e com o real se mostrando como uma moeda cada vez mais forte. O problema passou a ser então o que fazer com essa moeda forte, tendo em vista que esse quesito trás o encarecimento do produto brasileiro no mercado internacional e, consequentemente, sua perda da competitividade. O esforço do Banco Central em regular “minimamente” o mercado de dólares é bastante claro, numa tentativa de gerenciar a abundância de dólares, evitando, assim, um maior volume de importações e uma situação desfavorável na balança de pagamentos brasileira.

Palavras Finais

Todo o esforço de salvação do sistema capitalista em sua esfera financeira colocou na realidade do mundo atual uma espécie de armadilha de liquidez, com o potencial de retomar o lucro de alguns bancos e grandes investidores, mas à custa de criar uma nova bolha, que tem tudo para não ter uma duração muito grande. Enquanto isso, continua fraco em nível mundial o fluxo de capital na esfera produtiva. Claro que não podemos e nem ousamos “adivinhar o futuro”, dizendo que ocorrerá uma crise de tal ou qual forma, neste ou naquele momento, mas as tendências apontadas pela análise não deixam muito espaço para uma recuperação como a que estão pintando.
Neste momento se convive com perdas bastante significativas na economia real, com calotes crescentes, desemprego em grande quantidade, ao lado de lucros especulativos que voltam a inebriar uma gama de eufóricos capitalistas, governos e propagandistas em geral. Enquanto isso, o desatino com as contas públicas dos países tomou proporções jamais conhecidas, deixando a economia cada vez mais viciada e dependente de socorro estatal, socorro este baseado em papel pintado e em emissão de títulos em volume crescente. E tudo isso é solicitado, clamado e aplaudido por liberais e keynesianos que não veem outra saída senão o faz de conta da riqueza fictícia, ignorando assim os fundamentos mais sólidos da economia.
Fica como síntese final a palavra do megainvestidor americano Warren Buffet, publicada recentemente no jornal The New York Times:

O oceano de dinheiro estatal socorreu o sistema financeiro privado e agora a economia encontra-se fora da UTI e em ritmo lento de recuperação. Mas enormes dosagens de medicina monetária continuam a ser ministradas e logo precisaremos de um acordo sobre seus efeitos colaterais. Por enquanto a maioria daqueles efeitos está invisível e pode ainda permanecer latente por algum tempo. Mas o seu potencial de perigo pode ser muito mais dilacerante do que a própria crise financeira.

Enquanto a renda se concentra mais e mais no topo, na base pouca atenção tem merecida a recuperação da população trabalhadora em todo o mundo. A forma como tratam essa questão no país mais rico do planeta mostra, muito claramente, que a crise e a atuação sobre ela é também uma questão de classe social. O empobrecimento nos Estados Unidos é algo assustador, e as famílias morando em traillers, estacionamentos e cidades de tendas já passam a fazer parte do cenário “normal” do dia a dia. Parece que o sombrio futuro preconizado pelos filmes de ficção científica já chegou. Temos algo a fazer!
Referências:
1 Revista Veja, número 2104, de 18 de março de 2009, “Cem Planos Marshall”.
Dados mais recentes revelam que essa soma já ultrapassou os 12 trilhões de dólares.

2 Folha de São Paulo, 5 de outubro de 2009, Caderno Dinheiro. “FMI alerta para enxurrada de capital externo no Brasil”.

3 Folha de São Paulo, 7 de outubro de 2009, Caderno Dinheiro. “Santander leva 14 bi em oferta recorde”.

4 Revista Exame, edição 952, 23 de setembro de 2009. “Petróleo, entre o delírio e a realidade”.

5 Todos os dados acima podem ser encontrados na Revista Exame, edição 953, 07 de outubro de 2009. “Yes, a Petrobrás também é minha”.

6 Revista Exame, edição 953, 07 de outubro de 2009. “Estudo Exame: autoindústria, um mercado em marcha de transformação”.

7 Folha de São Paulo, 10 de outubro de 2009, Caderno Dinheiro. “BC enxuga dólar do Santander e reservas vão a U$ 230 bi”.

8 Revista Exame, edição 951, 09 de setembro de 2009. “Especial Estados Unidos: A Nova economia americana”.

9 Rick Wolff, “A realidade por trás da ‘recuperação’ econômica” (agosto de 2009) http://resistir.info/crise/wolff_27ago09.html

10 Mike Whitney, “Isto não é recessão – É uma demolição planeada”. (10 de agosto de 2009) http://resistir.info/crise/whitney_10ago09.html
11 Paul Craig Roberts, “Trabalho Morto: Marx e Lenine reconsiderados” (7 de outubro de 2009).http://resistir.info/crise/trabalho_morto.html

12 Bloomberg News – “Problem Banks Rise to 15-Year Hight on Bad Loans, FDIC Says” – 27/agosto/2009. Apud José Martins, Crítica Semanal da Economia, nº 987, 4ª semana agosto/2009, “Vícios Privados, Déficits Públicos”.

13 Revista Exame, edição 951, 09 de setembro de 2009. “Especial EstadosUnidos: A Nova economia americana”. Vide também o site http://www.brillig.com/debt_clock/ – U.S. National Debr Clok – que dá uma atualização diária da dívida pública dos EUA, dívida que cresce ao ritmo deU$ 3,83 bilhões por dia e que, se dividida pela população americana atual, daria U$ 38.771,20 para cada habitante (consulta ao site em 26 de outubro de 2009).

14 Depois da China vem, por ordem, Japão, Reino Unido e Brasil, os maiores
credores da dívida americana. Folha de São Paulo, 8 de outubro de 2009,
Caderno Dinheiro, “BC faz maior ação no câmbio em 17 meses”.

15 Folha de São Paulo, 3 de outubro de 2009, Caderno Dinheiro, “FMI quer papel de Banco Central Global”.

16 GEAB, “A União européia na encruzilhada em 2010: cúmplice ou vítima do afundamento do dólar?” (15 de outubro de 2009). http://resistir.info/crise/geab_38.html

17 Revista Exame, edição 936, 12 de fevereiro de 2009. “A próxima bolha americana pode estourar no fim do ano”.

18 Não foi priorizada, neste artigo, uma série de contradições existentes no Brasil, tais como um índice de desemprego também alto e também devidamente maquiado; a questão da violência, sobretudo nos grandes centros urbanos; a precarização das condições de trabalho; a informalidade; o arrocho salarial que dura décadas e que não tem perspectiva de se reverter, dado que é um elemento “qualitativo” importante para a competitividade brasileira e para a continuidade da “deslocalização” de empresas do mundo desenvolvido para este país.

19 Warren Buffet – “The Greenback Effect” – The New York Times, 18/08/
2009. Apud José Martins, Crítica Semanal da Economia, nº 987, 4ª semana agosto/2009, “Vícios Privados, Déficits Públicos”.

 

Oposição Operária
Originalmente publicado na Revista Germinal nº. 02 (2010).

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