Mídia: Recurso ideológico, método e efeito

Não é novidade o fato de a imprensa em geral manipular e mistificar no dia-a-dia as informações para o conjunto dos trabalhadores e da juventude. Um dado que salta aos olhos de todos é de como se tem dirigido na atualidade os programas jornalísticos. Isso porque os de entretenimento e “besteirol” chegam a ser um forte convite à idolatria do banal; tanto que cabe aqui todo o nosso desprezo e a nossa repulsa. Os programas jornalísticos, principalmente da TV e do Rádio, estão, antes de tudo, totalmente controlados pelas grandes emissoras capitalistas, o que também já não é nenhuma novidade; mas – e o que é pior – dessa vez auxiliados diretamente por um conjunto de igrejas e seitas religiosas (católicos, evangélicos etc.) que, fazendo uso dos mais importantes meios de comunicação de massa, despejam diariamente nas cabeças de todos toneladas e mais toneladas de materiais nocivos ao desenvolvimento do senso crítico e totalmente a favor do embrutecimento, do alienante e do mais ordinário senso comum.São basicamente quatro os tipos de programas oferecidos ao público: a) os programas de entretenimento (Faustão, Luciano Hulk, Angélica, Xuxa, Silvio Santos, Raul Gil etc.), sem maiores comentários; b) as novelas, que estão constantemente mais afastadas de qualquer crítica social séria, quando muito, usam de uma crítica superficial e banal do cotidiano, visto pelos olhos da pequena-burguesia (que é, na quase totalidade das vezes, a protagonista dessa série de dramas existenciais maniqueístas do Bem contra o Mal); c) programas de entrevistas, quase que totalmente dirigidos para a formação midiáticada opinião pública dos setores mais “esclarecidos” ou pretensamente “desenvolvidos” intelectualmente, na verdade da chamada classe média (urbana e rural); d) programa de notícias. Aqui cabe de nossa parte um pouco mais de atenção.

Os noticiários da imprensa em geral se condensam fundamentalmente na corrupção, no “combate” ao narcotráfico, na violência e assassinatos urbanos, nas catástrofes naturais e no desenvolvimento de guerras e combates ao terrorismo. Não costumam colocar, de forma mais esclarecedora, informações sobre a crise atual do capitalismo, sua verdadeira dimensão e profundidade.

Corruptos? Quem são eles?

Coloca sempre a mídia que um dos problemas principais da sociedade é o fato de não se punir os corruptos, responsáveis diretos, segundo ela, por todos os desmandos do Estado. Na verdade, essa visão não vai muito longe. Ela se situa na camada mais fina e superficial da aparência do fenômeno social em voga, o capitalismo. A corrupção é inerente a toda e qualquer formação social capitalista ou mesmo de formações sociais anteriores em que predominavam as relações baseadas na propriedade privada dos meios de produção e exploração de classe.

O corrupto aparece para o conjunto dos trabalhadores como o grande causador do mal, o inimigo a ser combatido, o grande responsável pelos desmandos sociais na saúde, na habitação, na segurança, nos salários etc. Com a insistência nesse enfoque, tiram-se de foco os verdadeiros responsáveis pela situação caótica em questão: a burguesia e o seu Estado.

Quanto à questão do narcotráfico, da violência e dos assassinatos, tem-se o objetivo claro de alimentar ainda mais o pavor na população laboriosa, que mais uma vez acaba por não conseguir enxergar os verdadeiros culpados pela marginalização e pelo crime. Com isso, ocorre uma verdadeira apologia às medidas reacionárias repressivas do Estado, que acaba por ser visto como o principal responsável para administrar os conflitos sociais desse porte. Não é à toa que vemos constantemente reivindicações e apelos da mídia em se construir mais cadeias, mais aparelhos policiais, “melhoramento” das leis penais etc.

Essência e aparência

Trocando em miúdos, em nenhum momento penetra-se na essência do problema, fica-se na mera superficialidade de maneira proposital, no intuito de esconder dos trabalhadores a verdadeira causa dos referidos efeitos, com o objetivo de camuflar dos milhões de proletários a natureza real do mundo podre por onde brota a exploração de classe. Aqui, sim, os verdadeiros responsáveis, em grau menor ou maior, pela barbárie capitalista.

Há uma tendência muito grande, por parte da burguesia e dos seus meios de comunicação de massa, em propalar, aos quatro cantos do planeta, propostas que contemplem “paz” entre os indivíduos, por ela concebida como iguais, mas que historicamente estão divididos em classes sociais com interesses antagônicos. Esse recurso, de caráter eminentemente ideológico, só se sustenta nos períodos de uma relativa estabilidade política e social, visando, antes de tudo, domesticar a luta dos setores explorados e oprimidos contra as forças do capital – autoritárias, fascistas e intolerantes.

É dessa forma, por exemplo, que a mídia vem dando uma cobertura e dimensão nunca vista na história da imprensa falada, escrita e televisiva, para a questão da violência nas cidades médias e nos grandes centros urbanos, como também nos presídios e reformatórios.

Na maioria das vezes, o tratamento que se dá a esse problema de caráter social é o de banalizar da maneira mais estúpida possível a marginalidade a que estão submetidas milhões de pessoas pertencentes à parcela de excluídos da sociedade capitalista. Falam da maneira mais hipócrita e cínica da ação de violência por parte da maioria da população que não se inclui mais no mercado de trabalho, que teima em viver e habitar as encostas dos morros, as palafitas de mangues, as favelas e marquises de edifícios.

Essa é também uma ação por demais violenta e que a classe dominante finge não se dar conta. Portanto, mandar que se “baixe a guarda”, no que diz respeito ao combate ferrenho à burguesia e ao seu Estado, é por demais ingênuo (ou esperto); quando não um recurso desonesto na defesa da “paz” e da irmandade entre os seres humanos com interesses contraditórios; é, na verdade, um mecanismo de escamotear a realidade social.

Nas catástrofes, coloca-se o “homem” como principal causador da agressão à Natureza, sem em nenhum momento dar nome aos responsáveis: o capital e a burguesia, este casal tão bem estruturado no capitalismo, detentores dos principais meios de ação danosa à Natureza e também, dessa forma, à sociedade.

Durante muito tempo, a burguesia teima em caracterizar de terrorista toda e qualquer ação que parta de forças políticas contrárias ao seu domínio. Na verdade, experiências revolucionárias proletárias de conteúdo socialista, mesmo antes de ser, por exemplo, abortadas pelo ascensão ao poder de Estado do stalinismo e derivações, também foram caracterizadas como “ações terroristas”. Portanto, essas experiências não podem ser vistas e/ou confundidas com o verdadeiro ideal comunista, pois apesar dessa luta ter sido vencida temporariamente pela burguesia e demais forças do capital, ela está longe de ter sido definitivamente resolvida.

A dimensão da história

Não confundir experiências frustradas do proletariado revolucionário é fundamental e importante para a compreensão política e ideológica dos trabalhadores, hoje. Nesse sentido, precisamos combater ações violentas como as derivadas do nazismo, do fascismo e das ações do imperialismo no mundo. Para combatermos a face brutal da ação burguesa, faz-se necessário um amplo movimento que barre essa irracionalidade, mesmo que para isso haja um endurecimento também da ação dos movimentos realmente sérios e que tenham a perspectiva de um mundo verdadeiramente solidário e humano.

Os métodos utilizados pelo terrorismo, seja por grupos nacionalistas, religiosos ou pelo Estado, são essencialmente diferentes e antagônicos da luta socialista revolucionária. É preciso deixar claro que não se realizará transformação social nenhuma sem o recurso da violência, só que essa não será exercida pela minoria sobre a maioria, como acontece constantemente, mas pela massa de trabalhadores efetivos e desempregados, que compõem a maioria do mundo, sobre uma minoria exclusivista que se mantém no poder de Estado, dada à fragilidade em que se encontra o movimento dos trabalhadores neste momento de aprofundamento da crise econômica numa escala internacional.

Portanto, trabalhadores e trabalhadoras, precisamos “ensaiar” e buscar estabelecer uma espécie de pré-Estado, baseado na organização e estruturação dos círculos, das comissões e conselhos para nos tornarmos capazes de imprimir na conjuntura um novo traço desmistificador, contribuindo, assim, para o rompimento com o senso comum e todos os tipos de alienações a que estão submetidos a classe operária e o conjunto dos explorados pelo capital.

 

Oposição Operária

Publicado originalmente no Jornal Germinal nº. 18 (2008).

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