Epopéia

Brotaram da terra
Homens e mulheres
Que antes de mim vieram.
Foram tantas as árvores
E infinitos o s galhos
Que meu tronco segurou.
Vieram do além mar
Uma parte branca outra negra
Para misturar-se com
O que já misturado era.
Vieram lusitanos, mouros e africanos
Para compor com americanos natos
Os mais missigêneos
Dos homo sapiens.
Vieram, vieram sim,
Com brasões e linhagens,
Atabaques e tambores,
Cantando, dançando,
Pulando, sambando
E correntes quebrando.
Vieram irmãos, primos
E parentes.
Vieram se encontrar
Com os filhos do lugar.
Vieram trazer nova conformação
Há já uma tão bela nação,
Mas com ares superiores
Espancou, escravizou e matou
Fontes de liberd ade.
Após longo período de louca
E desenfreada agonia,
Levantou-se em natureza familiar
Os que de nó s viemos.
Viemos dos filhos da terra
Guerreiros selvagens
Pequeno se simiescos
Cujo grito dilacera o peito.
Viemos da Rocha que não q uebra
Da Aranha que tece com maestria
Do Coelho que salta
Do Coq ueiro paredão de ventania.
Viemos da Rosa espinhenta
Viemos do pé de Oliveira
Viemos do duro pau Pereira
Viemos do Carvalho curtido.
Viemos de Lima e Limeira.

Viemos de Campos cerrados
Viemos dos nós da Nogueira
Viemos do velho Machado.
Viemos mais em galantes serviçais,
Viemos, viemos
Viemos Gonçalves
Viemos Souza
Viemos Martins e Araújo
Viemos Fernandes e Novaes
Viemos Duarte
Viemos Costa
Viemos Silva e Silveira
Viemos de todos os Santos
Viemos também de Brito e Meira.
Viemos das tiras a Correia
Viemos Melo e Vieira
Viemos Dias e Diniz
Viemos Moraes, Batista e Ferreira.
Viemos tantos
E tantos mais
Foram as marcas
Que carregamos deste
Sangue ibérico.
Pretendia ser civilizatório
Mas não se p oup ou os estup ros
Nas ocas, tábuas e senzalas.
Os nomes que ficaram
Não mais esconderão os
Gritos e a cor da pele
De Caramuru a Zumbi dos Palmares,
De Iracema, Iraci, Juraci
Ubiraci e Ubirajara.
Corta-se espaço
Na espécie mais apurada
Da mistura genética
Que a natureza evoluidamente criou.
Dos quilombos e mucambos
Ficaram as raras belezas
Dos azuis de olhos pérola,
Do sabor moreno
E do tom mesclado
Dos que agora habitam as estações do tempo.
Do estado físico que resultou,
Traz lembranças e pesadelos
Traz vitórias e derrotas
Traz massacres de corpo inteiro.
Desta feita impossível é
Levantar-se do barro seco
Beber água de muringa
Adoçar em mel de Europa.

Para diminuir a labuta
Vindo ao ócio criativo,
Vindo a paz não mais guerras
Vindo aos filhos de nova era.
Foi assim que subir a serra
Pela estrada onde antes estivera,
Só caminhos para
Caiçara, Choça e Batalha velha.
Fui banhar-me em Pedra Branca
Tal qual muitos dos meus fizeram,
Com faro aguçado
Para que além de Periperi vieram.
Fui andando, fui andando,
Até que meus campos deixei
A procura dos outros elos
Da corrente que também quebrei.
Carlos Maia

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