A situação da militância e do movimento social

Não é de se admirar o que ocorre no movimento dos trabalhadores e da juventude em geral. Os trabalhadores cada vez mais se afastam das formas de organização existentes, sem, contudo, esboçar novas perspectivas para a luta contra a burguesia e seu Estado. A maioria da juventude por sua vez segue cega e sem perspectiva de incorporar-se à luta dos trabalhadores contra o capital, sendo, na maioria das vezes levadas a reboque para lutas nitidamente burguesas e de conteúdo liberal. Os trabalhadores não conseguem, juntamente com seus filhos, realizar um espaço relativamente mais amplo de desenvolvimento de propostas e idéias com conteúdo de classe socialista. Isso ocorre devido ao longo período de adaptação que o movimento dos trabalhadores teve com respeito aos projetos de conciliação de classe e de luta puramente econômicas e institucionais, que bloquearam as perspectivas autônomas e independentes dos trabalhadores.

As lideranças do movimento dos trabalhadores, afora raríssimas exceções, vivem prostradas na burocracia de seus aparelhos sindicais, reproduzindo aí todo o conjunto de propostas de luta que em nenhum momento abalam a estrutura do Estado burguês.

A juventude, os filhos dos trabalhadores, devem ser educados conjuntamente com a classe trabalhadora na perspectiva de romper com a educação oficial oferecida nas escolas, que sempre acaba por reproduzir o modo de pensar idealista do dominador.

Mas, nem tudo está perdido ao que parece. Ainda existem poucos militantes no seio dos trabalhadores que são aguerridos, às vezes confusos política e ideologicamente, por não ter tido a oportunidade de aprofundar a sua concepção geral do socialismo. O esforço destes militantes tem sido grande em organizar a classe. Mas ao mesmo tempo tem se mostrado de pouco resultado. As suas palavras, os seus discursos não tem tido respaldo, não tem conseguido despertar as consciências embrutecidas dos trabalhadores.

Uma outra característica desta militância é a dispersão, o que impede de globalizar uma proposta que ataque o inimigo de classe, o Estado e a burguesia.

Os trabalhadores em outros tempos conseguiram investir contra a burguesia e o seu Estado, numa perspectiva de defesa intransigente dos seus interesses de classe. Estas experiências foram na maioria das vezes esquecidas da memória dos trabalhadores pela burguesia e seus agentes no movimento dos trabalhadores.

Não se fala mais no movimento dos trabalhadores de experiências como a Comuna de Paris, a Revolução Russa etc. Parece que estas investidas do proletariado revolucionário contra a burguesia não significaram nada. Mas a verdade é bem diferente.

As experiências históricas dos trabalhadores mostraram, mais do que nunca, a possibilidade dos explorados construírem espaços de vivência social independentes da burguesia. Aqui no Brasil, por exemplo, o movimento anarquista (não vamos entrar no mérito dos limites das suas propostas políticas), educava os seus filhos em espaços independentes dos filhos dos burgueses. Na Rússia em 1917, os trabalhadores criaram um espaço de atuação política totalmente por fora das instituições burguesas, criaram na verdade um espaço de militância, de poder político, paralelo ao Estado burguês.

A exploração do trabalho continua e com ela continua a luta de classe. Não é porque os trabalhadores foram sendo derrotados momentaneamente em suas lutas, em suas experiências de manter um espaço próprio de atuação política, que devemos cantar loas ao capitalismo e à exploração do trabalho.

Os trabalhadores devem sim, cada vez mais, buscar criar espaços para sua militância e para que possa desenvolver o seu projeto político próprio. Projeto acima de tudo livre para os trabalhadores e seus filhos.

Não estamos em um momento revolucionário, mas nem por isso devemos nos contentar com as formas de organização que a burguesia admite para os trabalhadores: os sindicatos, as centrais sindicais etc. Pois estas se encontram carcomidas e já caíram no descrédito de parcelas significativas dos trabalhadores.

É perfeitamente possível se criar um espaço onde, partindo-se do mundo material, possamos introduzir temas, palestras, seminários, cursos etc., para os trabalhadores e a juventude, visando aí, despertar a consciência crítica em um número cada vez maior de pessoas à margem do processo de conhecimento.

Este espaço não é absoluto e sim relativo. Ele começa no pequeno círculo de militância para se expandir num espaço social maior. Ele tem que ter ainda um nítido conteúdo socialista, tanto no aspecto de propostas concretas de atuação política, quanto no seu aspecto ideológico e cultural.

Este espaço que hora propomos deverá ser ainda, o que é mais importante, uma alternativa de militância para os trabalhadores e a juventude. Este espaço é a Oposição Operária.

Oposição Operária
2003

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