Crise: da marolinha ao tsunami

Hoje já ninguém duvida que a crise chegou e está instalada entre nós, que ela já provoca uma recessão nas principais economias do planeta, desde a sua locomotiva, os EUA, passando pela comunidade econômica européia e solapa até mesmo a China que parecia à prova de qualquer crise. No Brasil, onde ela era tratada pelo governo como uma “marolinha”, devido à queda nas vendas do setor automotivo, que diminuiu em novembro 28% em relação ao mesmo período do ano anterior, sendo que as montadoras têm mais de trezentos mil carros estocados em seus pátios. O setor imobiliário passa por uma séria crise, tendo o governo de injetar dinheiro para evitar que muitas empreiteiras falissem, arrastando com elas a poupança de milhares de pessoas que pagaram adiantado pelos imóveis.

Os bancos brasileiros, ainda não tiveram injeção direta de dinheiro como ocorreu nos EUA, Europa e Japão, mas tiveram diminuída a quota do depósito compulsório (parte dos depósitos à vista que os bancos são obrigados a recolher ao Banco Central), o que lhes deixa mais dinheiro em caixa, inclusive para comprar títulos dos governos e engordarem os seus lucros. Os bancos pequenos tiveram as suas carteiras de créditos adquiridas, sobretudo pelos bancos estatais, como forma de capitalizá-los e evitar uma quebradeira que poderia abalar a confiança no sistema financeiro e atingir os bancos maiores. As empresas já anunciam cortes de mais de 40% nos investimentos previstos para o próximo ano.

Mas, porque é tão importante para o movimento dos trabalhadores prever, se antecipar às crises do sistema capitalistas e mais do que isto, saber qual o caráter das crises e, sobretudo, desta crise? Pelo fato de que, para um revolucionário, uma revolução é inconcebível sem uma crise, sem uma situação revolucionária. Em outras palavras, não existe possibilidade da classe trabalhadora levar a cabo o seu projeto de sociedade, o socialismo, sem que o sistema capitalista esteja em crise. A isto nós chamamos de situação objetiva e que é criado pelas contradições inerentes ao funcionamento do sistema capitalista. Mas, apenas isto não é necessário para que seja possível uma revolução. É necessária que, além da crise, a classe trabalhadora esteja organizada e munida de um projeto seu, de classe, para intervir no momento da crise. A isto chamamos de situação subjetiva. Neste momento, o que percebemos é que a crise objetiva está muito adiantada e a situação subjetiva, a organização da classe trabalhadora, está assas atrasada, e que precisamos adiantar os passos. O movimento dos trabalhadores em todo o mundo também passa por uma grande crise. E caso não sejamos capazes de resolver esta crise do movimento, o burguesia certamente tenderá a levar adiante medidas que posterguem a permanência do sistema capitalista, a um alto custo para a humanidade.

A presente crise, que começou na década de 70 do século passado, já não se trata de uma crise cíclica, mas de uma crise estrutural, de exaustão onde “o capital foi traído por si próprio: ao incorporar gigantescas possibilidades tecnológicas numa produção limitada pela estreiteza das relações de produção e distribuição capitalistas, o capital terminou pondo diante de si seus limites definitivos – de onde se deduz o acerto da afirmação de Marx de que as relações de produção entram a partir de certo momento, em contradição com as forças produtivas. Esta é, de fato, uma contradição objetiva, que antecede e que abre caminho à outra contradição básica da ordem do capital, igualmente objetiva, inscrita no processo de luta de classes, entre os dois sujeitos ativos do sistema: proletariado e burguesia”. (CARVALHO, EDMILSON – A Produção Dialética Do Conhecimento, Editora Xamã, 2008, p. 42).

A presente crise migrou rapidamente das finanças para economia e agora se torna crise social, com milhares de trabalhadores perdendo os seus empregos. Nos EUA, apenas no último trimestre um milhão e duzentos mil postos de trabalho foram cortados. A Europa e o Japão já estão “oficialmente” em recessão. A crise está apenas no começo e desta vez ela atinge o coração do sistema, o chamado G-7, simultaneamente e com igual intensidade e alastra-se em grande velocidade por todo globo. Urge a entrada em cena do ator que poderá mudar o rumo desta história: a classe operária.

Oposição Operária
2003

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1 comentário

  1. o que percebemos é que a “boiada” estoura mas sem direção,só para ilustrar: recentes revoltas arebes,revoltas na frança em 2005, indignados na espanha ,grecia, italia e agora os excluidos na inglaterra e os estudantes no chile. são ensaios que não devem ser menosprezados, há insatisfações mas sem uma centralidade na organização.

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