África: O Pacto do Tráfico

O tráfico de escravos é um dos temas mais polêmicos e dramáticos da História da humanidade. Neste artigo não pretendemos abordar todas as questões relativas às diferenças entre os especialistas da área. Desejamos apenas eleger algumas que nos pareçam ser as mais importantes, a saber, a demografia do tráfico e o impacto deste dentro do continente africano. Entretanto, antes de entrarmos nas questões propriamente ditas, há que se fazer algumas observações preliminares com o objetivo de traçar alguns esclarecimentos a respeito do tema proposto. Nosso tema de análise possui algumas denominações: tráfico de escravos negreiro, tráfico atlântico de escravos, tráfico mercantilista de escravos, tráfico de escravos africanos, tráfico de escravos da era moderna, tráfico de escravos para a América.
Cada uma dessas nomenclaturas busca, evidentemente, destacar um aspecto do fenômeno. A nosso ver, por conta disto, há que definirmos do que realmente se trata. Portanto, de início, vamos delimitar o tema em termos de tempo, espaço e características. Trata¬se do comércio criado pelos europeus durante a chamada era moderna (séc. XVI ao XVIII), por meio do qual eram transportados escravos do continente africano para a América. Este tráfico era um dos elementos das relações internacionais definidas pelos historiadores como comércio mercantilista.

O tráfico antes dos europeus

Esta delimitação se torna importante, porque houve tráfico de escravos na África antes deste período e não criado pelos europeus. Houve o tráfico de escravos interno à África e o tráfico de escravos internacional feito pelos invasores árabes. Nestas duas modalidades, as diferenças com o tráfico iniciado pelos europeus são em quantidade e qualidade. Estes dois tráficos duraram mais tempo, iniciaram antes e acabaram depois do criado pelos europeus. Entretanto, traficaram menos escravos. Os árabes, em torno de mil anos, levaram um quarto do que fora levado para a América, isto é, em apenas um terço do tempo dos árabes, o tráfico para a América levou quatro vezes mais pessoas para fora do continente.

No aspecto da qualidade, a diferença não é menos exorbitante. No tráfico antes do europeu predominava a finalidade doméstica e feminina, enquanto este fora flagrantemente de predominância masculina. Entretanto, o que mais os diferenciou foi a resultante interna dentro da África. Basta lembrar que o tráfico europeu introduziu na África as armas de fogo. Isto teve um significado extremamente importante para as sociedades africanas da época na medida em que mudou enormemente as guerras internas na África. Outro lado do nosso tema é frisar que o tráfico de escravo negreiro inaugura uma virada na História da maioria dos povos africanos e é considerada a primeira grande intervenção européia nos destinos deste continente. O significado para o ulterior desenvolvimento das sociedades africanas, que este tráfico causou, é o objetivo principal deste artigo.

A demografia do tráfico

Até hoje não se sabe realmente quantas pessoas foram arrancadas da África para a América; as pesquisas correspondem, em sua maioria, a estatísticas localizadas, isto é, sabe¬se quantos escravos saíram de determinada região da África para outra da América em determinado momento. Só existe uma única tentativa de totalização estatística, considerada hoje ultrapassada, tanto pela antigüidade como por ter calculado por baixo, pois ficou presa às documentações existentes sem maiores deduções. Trata¬se do censo do tráfico feito por um historiador americano, na década dos sessentas, chamado Philipe Curtin. Segundo este pesquisador devem ter chegado à América, durante todo o período do tráfico, no mínimo dez milhões de escravos e no máximo vinte milhões. Interessava a este estudioso saber apenas quantos escravos chegaram à América. Seu objetivo era ver a dimensão da escravidão neste continente, portanto, seu interesse era a escravidão americana. Ele viu o tráfico a partir da América.

Agosto/Setembro 2002 

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