O fascismo deixou de ser uma possibilidade?

O cinema é, em tese, e apesar de tudo, um dos veículos mais eficazes para a educação política, cultural e artística dos trabalhadores. Mais eficaz ainda é o cinema impresso em DVDs porque, nesse caso, a pessoa pode escolher o filme que deseja ver e não tem de ficar na dependência da programação, sempre capciosa e deliberadamente alienante, dos canais de TV e das salas de cinema. A pessoa interessada ainda pode ter acesso, mediante o aluguel de fitas, a autores e produções de alta qualidade, como, só para exemplificar, Ladrões de Bicicletas, de Vitório de Sica, A Regra do Jogo, de Renoir, Outubro e Encouraçado Potemkim, de S. Ensenstein, O Grande Ditador e Tempos Modernos de Chaplin, sem contar com excelentes filmes de diretores como Truffaut, A. Kurosawa, Costas Gravas, F. Felinni, R. Rosselini, W. Herzog, Wim Wenders, Ken Loach entre muitos outros. Os trabalhadores podem até fazer sessões de exibição de filmes, em casa ou em lugares apropriados, acompanhados de debates ao cabo dos quais as imagens dos temas fixam melhor as idéias acerca dos temas escolhidos.

Como o fascismo é um assunto da maior atualidade, uma realidade que é sempre palpável e, por isso mesmo, um regime político e social ao qual a burguesia recorre toda vez que entra numa crise sem saída visível, como tudo leva a crer que está prestes a acontecer, é bom que os trabalhadores comecem a se interessar por compreendê¬lo para tomar consciência de que se trata e de como deve lutar contra ele — principalmente, como agora, impedindo que ele volte a acontecer. Existem numerosos filmes sobre o fascismo e sobre o nazismo, sobretudo na Alemanha do Terceiro Reicht: o regime comandado pelo bando do Führer. O amigo trabalhador tem apenas de tomar cuidado com a escolha dos filmes; deve sempre optar por documentários, de vez que os filmes de ficção acerca do nazismo apresentam uma imagem distorcida do regime e principalmente dos homens de Hitler, com versões, como A Queda do diretor Oliver Hirschbiegel, que ora apresentam “o lado humano de Hitler”, ora colocam o nazismo como se a burguesia alemã nada tivesse com ele, ora como sendo criação de um “gênio do mal”, em todas essas versões omitindo fatos notórios como o patrocínio dos regimes fascista e nazista por empresas tão familiares nossas como a Volkswagem, a Siemens, a Krupp e a FIAT, entre muitas outras.

Se o leitor aceita uma sugestão, ele pode ver, de início, os seguintes documentários: O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, Noite e Neblina, de Alan Resnais e Minha Luta, de E. Leiser. Mesmo esses excelentes documentários não colocam o capital como o patrocinador do nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália. Mas, por conta de serem (excelentes) documentários filmados ao vivo, revelam traços daqueles regimes, destacados nesta abordagem feita por Germinal, que os trabalhadores não podem deixar de conhecer.

GÊNESE E ESSÊNCIA DO NAZI-FASCISMO

Mas o que é, afinal, o nazi¬fascismo? O nazismo alemão e o fascismo italiano são duas versões de uma mesma realidade, na medida em que têm em comum serem formas extremadas de ditadura do capital monopolista, num contexto de conflitos inter¬imperialistas e numa situação de crises que não puderam ser superadas pelos mecanismos da concorrência econômica. Esta é a essência do fascismo. Não é por outro motivo que o fascismo foi patrocinado por grandes segmentos do capital monopolista como as que foram citadas acima.

A crise que se projeta dos anos 1914 até os anos 1940, somada à situação de atraso dos capitais alemães e italianos, que não contavam com espaços coloniais como reservas de mercado, e que, por isso mesmo, se encontravam em grande desvantagem em relação às nações imperialistas é um dos fatos centrais que vão explicar as novas ditaduras nesses países.

O outro motivo é ligado à luta de classes: era também como a burguesia desses países se armavam para enfrentar um movimento operário que tinham colocado abertamente a questão da derrocada revolucionária do capitalismo. No caso da Alemanha, um terceiro motivo vai se somar a esses aqui mencionados: a situação, mais desfavorável ainda, que resultou da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial.

Foram fatos como esses que levaram as burguesias a implantarem o fascismo como estratégia de desenvolvimentos nacionais. Uma vez posta, pelos capitais nacionais alemães e italianos, a necessidade de tal regime autoritário, o passo seguinte consistiu em articular um Estado e um governo à altura da tarefa ¬e é a partir daí que surge outra necessidade: os partidos, as instituições, o aparato estatal e, naturalmente, os homens com vocação e aptidões para o cumprimento do “projeto”. E aí nasceram os Mussolines, os Hitlers, os Goebells, os generais, etc., que, produtos sociais e históricos de uma situação dada, são também agentes que vão reproduzir o fascismo. A questão da personalidade “monstruosa” de um Hitler se explica pelo fato de que são homens que não criaram o fascismo do nada nem de uma mera maquinação moral, psíquica ou pessoal. “Monstros” que expressavam o lado desumano que é próprio do capital numa forma de ser extrema. “Monstros” que são os instrumentos pessoais ¬encarnados em partidos e instituições, em símbolos e agentes ¬de um regime de exploração, de opressão e de preconceitos como jamais existira na História.

Uma vez formulado o “projeto”, uma vez em andamento a formação do Estado, uma vez encontrados os homens necessários trata¬se, simultaneamente, de ganhar a opinião pública de amplos segmentos da burguesia, das classes médias e, até, de algumas franjas do proletariado. Porém, para mobilizar as massas humanas em torno dos objetivos do “projeto”, há que articular uma doutrina e todo um aparato de propaganda capaz de ser obter o endosso de amplos segmentos de massas desesperadas e desencantadas pelas “soluções democráticas”, massas manipuláveis e efetivamente manipuladas em espetáculos de encenação em grande escala. No bojo dos “argumentos” fajutos entram alguns chamamentos, em nome do “orgulho nacional” e de uma “raça superior”, como o ódio aos judeus, aos negros e os homossexuais.

Tudo isso em aparições nas quais os figurões do alto comando do Reich, acompanhando o Führer absoluto a quem prometiam e exigiam fidelidade ilimitada, se desdobravam em discursos irracionais e vazios, de enaltecimento “à Pátria”, à “raça pura”, ao “Chefe infalível”, ao “futuro grandioso” da “nação soberana”, à guerra de conquista às “nações inferiores”, e muito mais. Essas aparições, feitas à escala de massa, eram levadas a efeito em cenários, preparados por um competente Ministro da Propaganda, Herr Goebells, nos quais desfilavam símbolos vazios porém suntuosos, a Suástica sempre ocupando lugar de destaque sob todos os ângulos visuais, em cenários nos quais as massas e os desfiles de soldados, conduzindo equipamentos bélicos “invencíveis”, as “brigadas da juventude”, de camponeses, de trabalhadores eram dispostos em aglomerações rigorosamente simétricas para transferirem às massas um adequado sentimento de ordem e disciplina.

O que os filmes mais atrás recomendados mostram ao observador atento é exatamente como esses poderosos instrumentos de propaganda puderam ter uma força tão brutal de mobilização alienada e alienante ¬e aí o trabalhador amigo vai poder entender o perigo de um tal poder de manipulação que a burguesia, esta mesma que está aí, que, numa situação de crise exacerbada pode recuperar e re-inaugurar quando se sentir ameaçada por situações revolucionárias como as que podem ser antevistas. Até porque alguns desses expedientes já se encontram em franco processo de recuperação — haja vista os campos de concentração mantidos pelos governos dos EUA, o culto à personalidade largamente praticado dentro e fora dos EUA, a propaganda mentirosa, também levada a efeito por muitos governos, o entorpecimento das consciências com base em slogans abertamente mentirosos e manipulatórios (do tipo “luta do bem contra o mal”), o patriotismo torpe, a recorrência a seitas religiosas fundamentalistas, a negação dos avanços científicos (no qual se destaca a rejeição ao pensamento de Charles Darwin, para não falar de Marx), e assim por diante.

Agosto 2008 

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