Outra face obscena da economia capitalista

Um artista alemão contou que diante do que foi o atentado de 11 de setembro nos EUA a sua arte era insignificante. Ao que parece, esse país tem¬se tornado palco de outras artes, também de produção coletiva. Essa tal “arte”, é destinada a tapar o sol com uma peneira. Estamos falando da arte de fraudar balanços que, ao que tudo indica, deve tornar¬se a nova tecnologia de ponta da “locomotiva” da economia mundial. Não existe nada de novo em fraudar balanços. Marx já descrevia o sobre “modo de operar” dessas fraudes em seu “O Capital”. O que tem de novo é que esta é uma obra¬prima por se tratar de uma fraude sistêmica, a primeira a ser orquestrada, executada e monitorada pela máquina estatal de um país. E não qualquer país, mas a “locomotiva”. 
Os escândalos começaram pela Eron. Essa empresa redigiu todo o programa energético do atual governo norte¬americano, foi a principal financiadora da campanha eleitoral do atual presidente americano, George W. Bush. Também apoiou a invasão do Afeganistão, com a finalidade de proteger as reservas de gás que a companhia queria explorar. O próprio Bush está sob suspeita.
O mesmo caminho de fraudes trilhou outro peso¬pesado do setor de comunicações, a WordCom e logo depois vieram a Tyco, Vivendi, Martha Stewart Living, Im Com, Staley Steel, apenas para citar os casos mais famosos e estrondosos.

A ÚNICA COISA ETERNA: A MUDANÇA

Para quem sonhava com a prosperidade eterna, é hora de acordar. Com a agudização da crise capitalista, e com a queda da taxa de lucro da economia, as fraudes contábeis e outras praticas criminosas foram as saídas encontradas pelas empresas norte¬americanas para impulsionar os preços das ações e beneficiar, no curto prazo, os grandes acionistas e os administradores remunerados com opções de compra de papéis das empresas. As fraudes consistiram basicamente do superdimencionamento do faturamento e da ocultação das dívidas. Para tanto foram criadas vendas fictícias, empresas de fachada (destinadas a carregar dívidas) e despesas transformadas em investimentos.

MAIS UMA VEZ A FATURA É EMITIDA PARA OS TRABALHADORES

Com os balanços devidamente maquiados, as ações das empresas foram às nuvens, infladas artificialmente pelas fraudes. No momento certo os operadores do mercado vendiam as ações e conseguiam embolsar milhões de dólares. Quando as falcatruas foram descobertas, os preços das ações desabaram e os pequenos investidores pagaram a conta. Os fundos de pensões dos trabalhadores foram os mais atingidos pela série de fraudes contábeis e financeiras, por terem em suas carteiras, em média, 50% em ações das empresas envolvidas nos escândalos. Enquanto os “especialistas do mercado” aproveitaram a oportunidade para vender as ações dessas empresas, os empregados, além de enfrentar o problema da demissão, viram o dinheiro de suas aposentadorias virar fumaça. Assim, as fraudes foram uma grande e orquestrada operação de roubo da poupança dos trabalhadores americanos, o que fez o curralito argentino parecer brincadeira de criança.

ASSALTO.COM

A empresa líder mundial em comunicações empresarial, WordCom, após a descoberta das fraudes, teve o preço de suas ações reduzido a 13 centavos de dólar. Apenas valem mais do que as ações da Eron, que não valem Nada. Existe hoje, não sem razão, um grande temor por parte das autoridades monetárias norte¬americanas de um crash de grandes proporções, superior ao dos anos 30, gerado pelo efeito colateral do golpe que é a desconfiança dos investidores em relação aos números divulgados pelas empresas.

A onda de golpes no mercado de ações e de falências fraudulentas põe sob suspeita também as contas nacionais que indicaram um crescimento de produtividade de 5,8% no primeiro trimestre de 2002. A participação de grandes empresas de auditoria e a descoberta de que a banca americana está enterrada até o pescoço nas fraudes contábeis dão o toque sutil a esta obra que é marcada pela cumplicidade entre o governo, as grandes empresas e os bancos.

Claro que roubo, fraude e extorsão não chegam a ser novidade para um Modo de Produção que se reproduz sob a égide da exploração. A novidade nesse caso é a sincronia, a orquestração, a dimensão e as cifras envolvidas, que só é possível de acontecer em um capitalismo avançado, onde um pequeno número de grandes empresas dá as cartas e domina o essencial da economia, onde um punhado de famílias pode traçar e executar um plano de assalto coletivo com a ajuda indispensável do Estado.

Certamente o pior está por vir. Esta é apenas a ponta do iceberg. Apesar das cifras envolvidas nas fraudes, o risco da operação evidencia um certo desespero, pois, apesar de conseguirem arrancar o ovo de ouro da galinha, tiveram de fazê¬lo belo bico. Se o capitalismo americano tivesse alguma perspectiva de fazer subir a taxa de lucro do capital, o que implicaria espaço para investimento e realização de lucros, não se arriscaria a meter¬se em uma pilhagem que pode comprometer as operações das bolsas de valores.

Agosto / Setembro 2002 

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