A falência das instituições burguesas

Uma pesquisa feita recentemente pelo Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) e coordenada pelo conhecido professor José Álvaro Moisés, intitulada “A desconfiança dos cidadãos nas instituições democráticas no Brasil”, levanta dados que estão a merecer uma análise que ultrapasse o viciado enfoque acadêmico/oficial e que, por isso mesmo, seja capaz de revelar o verdadeiro significado da opinião pública acerca das instituições supostamente democráticas no Brasil. A pesquisa revela que 81% da população não confiam nos partidos políticos, 73% não crêem no Congresso Nacional, 71% desconfiam dos empresários, 65% não confiam no Governo e 64% não vêem os sindicatos como organizações confiáveis. Em contrapartida, 86% confiam nos bombeiros, 75% na igreja, 61% nas forças armadas, 58% na televisão e 44% no poder judiciário.

A manipulação das pesquisas e dos pesquisadores liberais

Em primeiro lugar é necessário ressaltar o modo como as “pesquisas de opinião” formulam as perguntas a serem endereçadas ao público. Essas perguntas são claramente manipuladas porque são perguntas fechadas, do tipo “sim” ou “não”, e que, por isso mesmo, não deixam margem para as pessoas entrevistadas poderem extravasar as suas “desconfianças” nas instituições. Por detrás de cada “sim” e de cada “não” podem estar disposições mais profundas de que as respostas bitoladas supõem ou pretendem saber. Para ilustrar, quando um trabalhador, respondendo a uma pergunta fechada do tipo “o senhor(a) é a favor da democracia?” com um “sim”, nunca se saberá que tipo de democracia aquele(a) trabalhador(a) deseja-e que pode ser uma democracia muito diferente da que o pesquisador crê e em função da qual formula as perguntas de sua pesquisa assim manipulada. Da maneira bitolada como as perguntas são formuladas, e na medida em que a própria “confiabilidade” não é devidamente qualificada, pode-se perguntar se os bombeiros, que depositam 86% da confiança do público entrevistado, poderiam eventualmente ocupar o poder no lugar dos 85% dos partidos que caíram na descrença junto à opinião pública.

Em segundo lugar deve ser também destacada a mesma manipulação, dessa vez através nas interpretações que os intelectuais liberais fazem dos dados. Diante dos dados mais acima revelados, o próprio professor José Álvaro Moisés e a imprensa oficial emitem opiniões de uma superficialidade gritante. Eles só conseguem ler a opinião pública acerca das “instituições democráticas” do ponto de vista da “democracia” burguesa. Eles não conseguem enxergar nenhum traço, nessas respostas, que apontem para a negação dessa suposta “democracia” na qual vivemos. Um exemplo disso é a opinião que o próprio professor emite acerca dos resultados da pesquisa que ele mesmo coordenou. Na sua opinião, “é preciso discutir esse diagnóstico, interpretá-lo”, porque “a democracia brasileira começa a correr risco”. Liberais como o famoso sociólogo José Álvaro Martins acreditam que vivemos numa “democracia” e nunca passa pela cabeça desse tipo de gente se as pessoas que responderam à sua pesquisa crêem nessa democracia ou se, na opinião dessas pessoas, existe alguma esperança, nos marcos dessa “democracia”, para qualquer solução dos problemas do seu cotidiano, tais como a reversão dos níveis de vida, da concentração da renda, do desemprego, da precarização das condições de trabalho, dos salários, da educação e da saúde, da segurança, da terra, da liberdade, da corrupção e da impunidade, etc.

Outra leitura dos dados colhidos pela pesquisa da USP

Mesmo trabalhando com dados tão viciados é possível fazer uma leitura deles diametralmente oposta à opinião de professores, sociólogos, políticos, governo, dirigentes sindicais e de outras oficialidades mais ou menos cotadas.

Quando, por exemplo, 71% das pessoas opinam que não confiam nos “empresários”, na verdade essas pessoas estão a descrer – não importa o nível de clareza que ainda tenham a esse respeito – é na classe capitalista, opinião que se encontra situada no nível da crise sem retorno do capitalismo. A mesma atitude, ainda que com pouca clareza da parte dos entrevistados, pode ser visualizada nos 81% que não confiam nos partidos políticos, nos 73% que não crêem mais no Congresso Nacional, nos 65% que não depositam confiança no governo ou nos 64% dos que já não crêem mais nos sindicatos.

Na verdade, tais descrenças devem ser creditadas às instituições capitalistas acima citadas, por meio das quais o capitalismo em crise e em decadência tenta sobreviver. Essas descrenças devem crescer à medida que a crise e a decadência do sistema capitalista, um e outro processo em marcha, se aprofundem mais e mais. De mais a mais, essas mesmas descrenças não têm como ser revertidas, pelo simples fato de que tais instituições são e serão mais ainda absolutamente incapazes de oferecer qualquer solução para os problemas que assomam as condições de existência das massas trabalhadoras em geral-até porque o papel de tais instituições é referendar, garantir e promover todo um sistema que, na sua sede inesgotável de lucro, só fazem negar até as mais simples conquistas dos trabalhadores para preservarem o sistema de exploração do capital sobre o trabalho.

Assim, é simplesmente impossível que os 81%, os 73%, os 71%, os 65% e os 64% dos entrevistados voltem a crer nas instituições burguesas, como os interpretes da burguesia pretendem, sendo mais do que provável que a crença residual, que ainda pode ser vista nessas instituições, evolua para longe dos níveis de “esperanças” que os interpretes da pesquisa depositam na revitalização das instituições capitalistas. É este o caso da forma sindicato: há uma desconfiança crescente dos trabalhadores nessa instituição claramente estatal, e essa desconfiança não pode ser revertida, mas, à medida que os trabalhadores amadureçam a compreensão do papel dos sindicatos na preservação da exploração capitalista, essa desconfiança pode e deve tornar-se repúdio e busca de alternativas de formas de luta autônomas dos próprios trabalhadores.

Palavras finais

A “desconfiança” que os trabalhadores e o povo em geral depositam nas instituições capitalistas não é privilégio dos trabalhadores e do povo brasileiro, mas, com a mais absoluta certeza, é a mesma que existe nos mais diversos países e regiões do mundo onde o capitalismo existe e explora, corrompe e oprime. Na verdade, essa descrença é um sentimento, para empregar um termo da moda, “globalizado”.

Em segundo lugar, o estágio de maior potencialidade virtual de uma crise “no topo” não é o estágio das condições objetivas da crise. Esse estágio objetivo das crises capitalistas é a base material da qual emergem efeitos, aspectos e reações mais circunstanciados e mais completos da crise, mas ainda não constituem toda a crise. Na verdade, o “ponto” em que as crises capitalistas tendem a transbordar-se é exatamente o das “desconfianças” e das “descrenças” nas instituições oficiais por parte das massas trabalhadoras. É só quando as massas trabalhadoras deixam de crer nos partidos da ordem, no Parlamento, nas instâncias executivas, no sistema eleitoral, nos sindicatos, etc., é que elas se sentem impelidas, agora já no plano subjetivo, a ações autônomas e de vulto, demonstrando que “não querem mais viver como antes” e revelando impulsos e ações na busca de soluções por sua própria conta e risco.

É exatamente a partir daí que a burguesia e seu estado-maior, o governo, passam a se preocupar com as perspectivas que se esboçam. Mas, como se pode observar mediante uma consulta aos anais da História, mesmo assim as classes dominantes não abrem mão dos abusos que elas próprias perpetraram; ao contrário, aprofundam-nos: crescem a exploração, a corrupção, o cinismo, a opressão e o único “antídoto” que conseguem vislumbrar, a repressão. A partir daí, as massas tendem a tomar o seu destino em suas próprias mãos. Nesse ponto entendem que devem lançar as velhas instituições no lixo e formular suas próprias formas de luta e de organização. É o que se compreende como uma “situação revolucionária”. Só falta, agora, um projeto que dê cobertura e coroamento científico à tarefa, inclusive para evitar o revés e a barbárie. Talvez o que o festejado pesquisador da USP tenha sondado, sem querer, foi o prelúdio que se coloca mais além daqui e das instituições, nas quais tanto o mundo da academia como o da oficialidade crêem.

Janeiro de 2008. 

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