A patética dança das bolsas e da acumulação financeira em geral

O forte e generalizado tsunami, que hora envolve não só às Bolsas, mas a toda a ordem financeira mundial, não é um fenômeno específico da economia deste ou daquele país, mas algo que se dá por conta da crise e da decadência de toda a economia capitalista mundial, tendo como centro a crise da economia norte-americana. Movimentos passageiros de elevação de alguns indicadores das principais economias do mundo- como PIB, níveis de consumo, de investimentos, etc.-já não podem encobrir a tendência geral de retração do conjunto da economia mundial dos anos 1960-1970 em diante. De fato, em torno de uma linha tendencial de queda desses indicadores tem ocorrido maiores ou menores picos, que se baseiam em fatores circunstanciais, mas sem nenhuma capacidade de reversão da tendência geral de queda dos anos 1970 para cá.

Esses surtos episódicos não têm conseguido levar a economia mundial a ultrapassar ou mesmo utilizar a margem de capacidade ociosa e levantar a acumulação de capital acima do nível herdado da primeira metade dos anos 1960, momento máximo da fase de boom do pós-guerra e dos festejados tempos do Estado do Bem-Estar Social.

Na verdade, exceção feita ao crescimento dos EUA, durante os anos 1990, feito em ganhos de produtividade obtidos pela informatização da economia, os movimentos limitados de picos residuais verificados nos anos 2000 se devem à alavancagem do capital fictício (o caso dos EUA), a causas tópicas, tais como pequenos ganhos de produtividade localizados em arranjos tecnológicos (num pano de fundo de estagnação do avanço técnico e da produtividade), uma brutal e compensatória exploração do trabalhador, ancorada nas reformas neoliberais, que sucateiam e precarizam a força de trabalho e seus portadores, recebimento de fortes auxílios e subsídios estatais que têm como efeito reduzir os custos de produção, sem todavia sinalizar para um vigoroso processo de recuperação da acumulação do capital.

É essa incapacidade de alavancar uma ampla retomada da economia industrial que levou o sistema do capital a enveredar pelos canais de uma inusitada acumulação financeira, essencialmente fictícia, incapaz de gerar valor real, que vinha crescendo até recentemente, mas que, ao que tudo indica, encontra também neste momento, seus limites. Os fatos mais recentes, dos quais a derrubada geral das bolsas do dia 27 de fevereiro, e que apareceram como o ensaio geral, estão a representar os contornos mais ou menos definitivos da crise geral, universal, crônica, estrutural, sistêmica e de exaustão da ordem do capital. É esse o significado do segundo round das turbulências que aparecem mais claramente nas quedas das Bolsas das últimas semanas.

As turbulências dos últimos dias aparecem na crise do ramo imobiliário dos EUA, que vem à tona pelo estopim da falência de toda uma atividade freneticamente motivada, montada e monitorada por um conjunto de transações que partiam das hipotecas dos imóveis para alcançarem operações de risco muito mais amplas e perigosas-tais como os chamados fundos de alto risco (hedge funds, derivativos e outros). A crise das Bolsas não constitui a causa geral, mas cumpre um papel bem definido: o de ser apenas o detonador de uma disposição à crise que é bem mais ampla e profunda e que se aninha nos mecanismos mais decisivos da acumulação capitalista dos EUA e do mundo.

Nesse sentido, o ramo imobiliário da economia norte-americana surgiu como a tábua de salvação de todo um sistema de transações que não encontrava um escoadouro e que, sendo utilizado à soberba, prestou-se como uma muleta utilizada por grandes corporações não só americanas como de outros países (Japão, Alemanha, França, etc.) para realizar o carnaval internacional dos negócios financeiros.

O cambaleante consumidor norte-americano, esse pobre-diabo, acabou sendo o protagonista na verdade a mula de carga de um espetáculo mundial que desabou e ruiu quando ele, o “agente silencioso”, já não pôde mais carregar a canga que lhe dependuraram no pescoço. A partir do ano de 2000, tinham jogado às suas costas bilhões de dólares de crédito fácil, com juros baixos, para que ele pudesse comprar casas e outros bens de consumo e manter a economia em crescimento. Com os bilhões de dólares emprestados a esse consumidor e por ele pagos mês a mês, as instituições de investimentos financeiros fizeram gigantescas aplicações em títulos da dívida pública, em ações e em operações de alto risco que não podiam manter-se indefinidamente.

De fato, quando esse consumidor, finalmente desempregado, endividado e, por isso, agora inadimplente, não pôde mais pagar as prestações de suas casas hipotecadas, a fonte de consumo secou, todo o sistema imobiliário foi nocauteado e, seguindo os seus passos, entrou em crise todo o sistema de aplicações de risco montado, a parti daí, pelos mega-especuladores mundiais em operações de compra de ações e títulos e dos chamados derivativos e outros investimentos ilusórios. A bolha estourou. A falência de grandes financeiras não pôde ser evitada e, em apenas alguns dias, evaporaram-se bilhões de dólares que giravam na ciranda financeira. As grandes instituições financeiras tiveram uma “crise de liquidez”, ou seja, ficaram descapitalizadas.

Em cima dessa crise, os Bancos Centrais (dos EUA, da China, do Japão e o da Europa) não tiveram outra saída senão tentar salvar não aquele consumidor que também entrou em crise e que teve de ver sua casa tomada pelas instituições que lhes venderam os imóveis, mas sim, antes e acima de tudo, para salvar os mega-aplicadores de capital fictício, que agora estavam em pânico. Esses Bancos Centrais passaram a injetar, nessas últimas semanas, bilhões e bilhões de dólares para que os mega-investidores pudessem resolver o seu problema de liquidez, pagar suas dívidas e sobreviver. Só que a acumulação financeira agora já não tem por base uma economia real, produtiva, industrial-como era o caso do ramo imobiliário-, capaz de gerar valor, nem uma massa de consumidores em condições de consumir; e aí, sem essas âncoras na economia real, o impasse persiste: os gargalos e as contradições permanecem intactos e maiores na economia de papéis.

É aqui que “o bicho pega”: em primeiro lugar, porque os Bancos Centrais não podem viver injetando bilhões e bilhões de dólares indefinidamente; em segundo lugar, porque os dólares repassados aos mega-investigadores não vão poder alimentar a economia real nocauteada pela recessão. Logo mais, os problemas voltarão, só que, a cada vez, com mais força, até que a depressão na economia real e o crash na financeira se coloquem com violência inusitada e com repercussões em cadeia pelos mais diversos recantos do mundo. A partir daí, os trabalhadores poderão ver com mais clareza porque a ordem do capital não é sua ordem e porque só lhes resta lutar por uma (a sua) ordem que, sendo fundada no trabalho, mas não mais no capital, não se caracterize por classes e exploração de classes, mais-valia e lucro, capital e crises, desemprego e demais mazelas inerentes ao capitalismo.

Janeiro de 2008. 

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