A crise, o desemprego, o protecionismo e a xenofobia: como enfrentar o ataque global à classe trabalhadora?

Há muitas evidências de que o mundo está mudando numa velocidade jamais vista pela humanidade nos últimos 40 anos. Hoje o epicentro da crise não é mais um país da “periferia do mundo”, mas sim a maior potência do planeta, os Estados Unidos da América, levando consigo os demais membros do chamado G-7; em outras palavras, o coração do sistema capitalista está afetado pelos males criados por eles mesmos. O restante do planeta com as suas economias dependentes ou pelas importações ou pelas exportações para esse grupo, já está contabilizando os seus prejuízos.

A presente crise, que começou na década de 70 do século passado, já não se trata de uma crise cíclica, mas de uma crise estrutural, de exaustão “onde o capital foi traído por si próprio: ao incorporar gigantescas possibilidades tecnológicas numa produção limitada pela estreiteza das relações de produção e distribuição capitalistas o capital terminou pondo diante de si seus limites definitivos – de onde se deduz o acerto da afirmação de Marx de que as relações de produção entram a partir de certo momento, em contradição com as forças produtivas. Esta é, de fato, uma contradição objetiva, que antecede e que abre caminho à outra contradição básica da ordem do capital, igualmente objetiva, inscrita no processo de luta de classes, entre os dois sujeitos ativos do sistema: proletariado e burguesia”. (CARVALHO, EDMILSON – A Produção Dialética Do Conhecimento, Editora Xamã, 2008, p. 42).

Mas, porque é tão importante para o movimento dos trabalhadores saber qual o caráter das crises e principalmente desta crise? Pelo simples fato de que, e aqui tomamos o exemplo dos ensinamentos de Lenin: para um revolucionário, uma revolução é inconcebível sem uma crise, sem uma situação revolucionária, não existe a possibilidade de a classe trabalhadora levar a cabo o seu projeto de sociedade, o socialismo, sem que o sistema capitalista esteja em crise.

Entretanto, as crises por si só não levam ao fim um modo de produção. A história do capitalismo está recheada de acontecimentos em que a crise estava presente sem que o sistema ruísse. Para tanto são necessários outros fatores que não só os objetivos (as crises, o desemprego, a situação de miséria da população, a fome, etc.), mas que esteja presente também o que chamamos de situação subjetiva, ou seja, a classe trabalhadora organizada com um projeto seu, para com isso encetar um golpe fatal que derrube de vez o sistema que dela depende para continuar sobrevivendo.

Já assistimos há exatos vinte anos à queda de outro império, o da União Soviética, que para muitos começou a desmanchar ao vivo e em cores com a queda do muro de Berlim e a derrota da ocupação do Afeganistão, sem que a classe trabalhadora tenha saído com alguma vitória, do ponto de vista da revolução. Ao contrário, a burguesia internacional beneficiou-se daquele momento de crise e aproveitou-se da instabilidade gerada nos países sob a mão de ferro dos estalinistas fortalecendo-se, decretando o fim do “comunismo”, onde de comunismo não havia nada. No entanto, os acontecimentos posteriores reservariam muitas surpresas.

Quem apostou no “fim da história” naquela época, hoje está desmanchando na mesma velocidade. Era o inicio da tão festejada globalização, abertura de mercados para que os países desenvolvidos pudessem desregulamentar as leis que impediam seus produtos de serem comercializados livremente nos países chamados da periferia. Para estes últimos, a oportunidade maior das burguesias nacionais se alinharem de vez com as suas coirmãs dos países centrais.

Assistimos então, a um festival de euforia proporcionada por essas aberturas que levaram consigo, com as devidas isenções fiscais, fábricas, novas tecnologias, novas formas de organizar a produção de mercadorias, a ascensão do toyotismo em lugar do fordismo, desregulamentação de leis trabalhistas que, segundo a moderna administração, só retardava o crescimento e o desenvolvimento dos países mais atrasados, ou em desenvolvimento.

O exemplo era a economia do Japão que crescia a altas taxas e seu modelo de gestão empresarial passou a ser copiado e implementado pelas economias de ponta e subsumidas pelas periféricas, como não poderia ser diferente no Modo de Produção Capitalista.

Se do ponto de vista da economia essas novas formas de organizar a produção trariam o desenvolvimento de vez, no que diz respeito ao modelo político de administrar tais mudanças, o neoliberalismo inaugurado com a Dama de Ferro (Margareth Thatcher) na Inglaterra (1979), seguido do neo-Cowboy Reagan (1980), nos Estados Unidos, um par perfeito, foi aclamado e seguido pelo mundo afora como a solução política para administrar a crise do capital que insistia em permanecer desde os finais da década de l960 e inicio de l970. Liderança com mão-de-ferro.

Esse conjunto de fatores resultou numa orgia financeira e especulativa cujos resultados estamos presenciando hoje. Se não bastasse isso, os autodenominados partidos e chefes da esquerda do capital, que anteriormente diziam combater tais modelos, se alçaram ao poder em muitos países aplicando a mesma cartilha inaugurada pelo casal perfeito atrás citado, mesmo que com uma roupagem diferente no discurso, mas com uma determinação e eficácia na prática igual ou maior, desde que levaram consigo uma grande massa de pessoas iludidas com as profecias dos novos Messias. É só olharmos para um Lula ou um Cháves, ou tantos outros que formam a nova direita travestida de esquerda. Não há com enganar por tanto tempo.

No entanto, não por ironia do destino, ou mero capricho da história, o Japão que é ainda a segunda maior economia do planeta, viria a sofrer revezes ainda no final da década de 1990, antecipando, de certo modo, o que viria a acontecer nos tempos de hoje. Muito embora com o seu sistema bancário em melhor forma, a economia real se mostrou muito mais vulnerável à crise global e apresenta situação pior que os EUA e Europa já que viu o seu PIB sofrer a maior queda em 34 anos, ou o maior tombo desde 1974, na época dos efeitos do choque do petróleo. A previsão do FMI é que o país encolherá 2,6% neste ano, o que levou o seu ministro da Economia a dizer que o país vive a pior crise econômica desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

O DESEMPREGO GLOBAL

As perdas de empregos decorrentes da recessão que começou nos EUA em dezembro de 2007 podem chegar a estarrecedores 50 milhões até o final do ano, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a mesma que afirmara há pouco tempo que esse número seria de 20 milhões. Só nos Estados Unidos a recessão já engoliu 3,6 milhões de empregos.

A Espanha, que está oficialmente em recessão pela primeira vez desde 1993, segundo o Ministério do Trabalho e Imigração, desde janeiro de 2008 o desemprego subiu 47,12%, atingindo a marca recorde de 3.327.801 de pessoas, em janeiro de 2009. Entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, teve alta de 6,35%, no país.

No Reino Unido a expectativa é que até meados de 2010 a taxa de desemprego chegue a 9,5% ante 6,3% no momento; na Alemanha, pode subir de 7,8% para 10,5%, lembrando sempre que na parte oriental deste país este índice bate os alarmantes 20%. Além do que, só a Volkswagen anuncia mais de 16 mil demissões em todo o planeta. A Islândia, uma das economias-prodígio, que mais se beneficiaram com a política de desregulamentação financeira, e cuja economia está prevista uma contração em torno de 10%, hoje está tecnicamente falida, segundo o The New York Times, de 16.02.09, gerando manifestações enfurecidas da população que viu suas economias desaparecer na orgia proporcionada pelos banqueiros, levando a nocaute o governo, forçando o seu primeiro-ministro a antecipar as eleições nacionais.

Na França, do galã Sarcosy, só em janeiro deste ano foram demitidos 90.200 pessoas (alta recorde), 4,3% a mais que dezembro de 2008 e 15,4% a mais em comparação a janeiro de 2008, perfazendo um total de 2.208.000 de desempregados, segundo dados oficiais anunciados pelo ministério do trabalho daquele país, conforme o jornal Le Monde, de 25.02.09. A mesma França está às voltas novamente com manifestações de estudantes, que retornam às ruas para protestarem contra reformas no ensino universitário em várias cidades, como Lyon, Nancy, Toulouse, Paris, entre outras.

Na Ásia, que no primeiro momento da quebradeira dos bancos norte-americanos se vangloriava de o seu sistema estar imune, caiu na real, pois com suas economias voltadas para a exportação, não poderia passar tão imune assim pela crise. A Índia, uma das tais economias que mais crescem, estancou. Entre outubro e dezembro do ano passado cerca de 500 mil pessoas perderam o emprego.

A China, a nova “locomotiva” do capitalismo, maior detentora de títulos do Tesouro norte-americano, com uma taxa de desemprego de 4,6%, que segundo a Revista Exame, em sua edição 933, de 25.02.09, revela o fechamento de cerca de 100 mil fábricas de diversos setores, no ano passado, o que proporcionou a demissão de 20 milhões de trabalhadores migrantes, que estão à procura de trabalho ou tiveram que retornar às suas cidades de origem, na zona rural do país. O mesmo semanário lembra que a China, segundo estimativas do governo, crescerá 8%, mas o FMI projeta 6,7%. Esses números comparados com outras economias parecem grandes, porém lembremos que este país precisa incluir 24 milhões de pessoas por ano no mercado de trabalho. Com o mundo em recessão, não é difícil imaginar que os mandarins de Pequim estão perto de uma nova batalha na Praça da Paz Celestial, só que em proporções bem maiores que as de 1989.

Ainda sobre a China, na Folha de S. Paulo, de 05.03.09, o economista norte-americano Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim e vivendo a sete anos no país, fala de uma possível “Guerra Comercial”, se “continuar a produzir tanto e a exportar tudo”, em se mantendo as previsões do Governo. Para o governo chinês manter o crescimento no patamar mínimo de 8% é uma questão de “honra”. Na abertura do Congresso Nacional do Povo havia expectativa de que o governo, sob pressão dos 2.987 delegados do PC Chinês, dobrasse o pacote de estímulo de e trilhões de yuans (R$ 1,39 trilhão, ou três vezes o total das exportações brasileiras em um ano), anunciado em novembro.

Para o economista e professor Michael Pettis, EUA e China são opostos de um sistema que precisa ser ajustado. Segundo ele, os norte-americanos tiveram crédito infinito para seus consumidores, enquanto os chineses tiveram crédito infinito para produzir. Com o colapso do comércio dos mercados para os quais a China vende, e não havendo consumo interno (pelos motivos que assinalamos acima, demissões em massa, etc.), o risco é a China querer exportar a sua produção de qualquer jeito e provocar motivos para a tal guerra comercial, vez que os outros países reagiriam com um protecionismo contra o país em escala global.

O Japão citado anteriormente como exemplo a ser seguido do ponto de vista da organização da produção capitalista, não foge à regra. Com as exportações em queda e o mercado interno encolhido, grandes companhias como Panasonic, Nissan e NEC já anunciaram o fechamento de 65 mil postos de trabalho (a maioria no Japão), o que redundará em efeito cascata em outras fábricas, além de que a Toyota, que recentemente assumiu o posto de maior montadora mundial (assumindo o posto da General Motors), espera o seu primeiro prejuízo anual para o período de 12 meses que se encerra em 31 de março (FSP, 16.02.09).

No Brasil, que segundo o presidente Lula, a crise não passaria de uma “marolinha”, que insistia em dizer o país era o melhor estava preparado para enfrentá-la e servia de exemplo para o mundo, desde novembro do ano passado, segundo dados Ministério do Trabalho, perdeu 797,5 mil empregos com carteira assinada. Isso sem contar as inúmeras férias coletivas em empresas às voltas com super estoques e outras tantas com suspensão da produção devido aos mesmos motivos. Com as matrizes da Volkswagen, na Alemanha, parando a produção por cinco dias e a General Motors, nos Estados Unidos, sendo socorrida pelo governo norte-americano e, ainda assim, com falência anunciada, o quadro das filiais no Brasil, não será diferente. A GM brasileira já está demitindo e os protestos começam a criar corpo.

Esses altos índices de desemprego, especialmente entre os trabalhadores mais jovens, já levaram a protestos em países tão diversos quanto Letônia, Chile, Grécia, Bulgária e Islândia, bem como a China em fábricas isoladas e contribuíram para greves no Reino Unido e na França. “Quase todo mundo foi pego de surpresa com a rapidez com que o desemprego vem crescendo, e quase todos estão sem saber como reagir, afirmou Nicolas Véron, do centro de pesquisas Bruegel, em Bruxelas, na Bélgica.”

Essa situação tende a agravar-se de tal maneira que levou o novo diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos Dennis C. Blair a afirmar atônico ao Congresso norte-americano que a instabilidade causada pela crise econômica global e suas conseqüências trágicas com relação ao emprego já é a maior ameaça à segurança de seu país, ultrapassando o terrorismo.

Em suma, a contabilização desses números muda à mesma velocidade em que a crise avança à mesma velocidade em que os Bancos Centrais dos países despejam dinheiro público para salvarem bancos e empresas falidas ou à beira da falência.

O PROTECIONISMO E A XENOFOBIA

A crise econômica global tem levado chefes de estado a apelarem para uma velha e conhecida prática, o protecionismo, ou seja, a voltar-se para o fortalecimento de suas economias internas, com bens de consumo produzidos internamente, indo de encontro com as políticas que apontavam para uma saída da crise anteriormente detalhada. Como não poderia deixar de ser, começando pelos Estados Unidos e o velho Partido Democrata (sempre protecionista), agora com o pop star internacional Barack Obama, à frente do espólio deixado pelos Republicanos de George W. Bush.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, de 16.02.09, o sociólogo belga Marc Jacqueman alerta para o aumento da xenofobia na Europa, enfatizando o discurso sobre a “preferência nacional”, que tem se disseminado e agora norteia até os partidos da direita clássica. “E, como há uma direitização da cena política europeia, é possível que aumente a busca por bodes expiatórios imigrantes.” A bem da verdade, o que o sociólogo afirma já está a acontecendo na Europa, senão vejamos: em setembro do ano passado, o premiê fascista italiano Silvio Berlusconi lançou um pacote onde anunciava um estado de emergência decretado nacionalmente “por excesso de imigrantes” e o censo dos ciganos, ou seja, na prática, responsabilizado esses segmentos pela alta da criminalidade na Itália, o que levou a uma série de incidentes e a sucessão de incêndios de acampamentos de ciganos naquele país. Outra demonstração clara foi a tentativa de criminalização de todos clandestinos, por parte do mesmo Berlusconi, o que só não aconteceu por conta da pressão de alguns segmentos sociais e do Vaticano.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, segundo dados oficiais, tem aumentado as denúncias de agressões raciais em pelo menos oito países da União Europeia, agora impulsionados pelo desemprego crescente e a queda do poder de compra da maioria da população. Num cenário marcado pela proliferação de governos dominados ou integrados por partidos de extrema direita, a Europa vê ressurgir a proliferação dos discursos xenófobos que contaminaram até legendas historicamente moderadas com relação à imigração, como afirmou o referido sociólogo belga, mais atrás.

Em nosso Boletim OPOP de janeiro de 2009 abordamos o tema do fascismo, que se encaixa perfeitamente em nossa análise do atual momento da crise, e de lá destacamos o seguinte: “Como o fascismo é um assunto da maior atualidade, uma realidade que é sempre palpável e, por isso mesmo, um regime político e social ao qual a burguesia recorre toda vez que entra numa crise sem saída visível, como tudo leva a crer que está prestas a acontecer, é bom que os trabalhadores comecem a se interessar por compreendê-lo para tomar de que se trata e de como deve lutar contra ele – principalmente, como agora, impedindo que ele volte a acontecer”.

Mais adiante o mesmo boletim destaca que o fascismo, ao contrário do que a mídia nos impõe, não é obra de uma pessoa, de um “monstro”, mas uma saída para as burguesias nacionais: “Uma vez posta pelos capitais nacionais alemães e italianos, a necessidade de um tal regime autoritário, o passo seguinte constitui articular um Estado e um governo à altura da tarefa – é a partir daí que surge outra necessidade: os partidos, as instituições, o aparato estatal e, naturalmente, os homens com vocação e aptidões para o cumprimento do “projeto”. E aí nasceram os Mussolines, os Hitlers, os Goebells, os generais, etc., que, produtos sociais e históricos de uma situação dada, são também agentes que vão reproduzir o fascismo”.

Se o fascismo é expressão do lado desumano que é próprio do capital as burguesias que o criaram, o fizeram por necessidade delas, eis porque empresas tão conhecidas nossas como a Volkswagen, a Siemens, a Krupp e a FIAT, entre outras, o patrocinaram e se beneficiaram desse modelo de gerir o capital.

Não é por outro motivo que trazemos à tona essa discussão, vez que estamos vendo medidas sendo tomadas em diversos países na direção que se aproxima de tais ideologias, mesmo que com vozes destoantes.

O presidente francês Sarkozy, que propôs uma “refundação do capitalismo” ao anunciar medidas para salvar as montadoras de automóveis PSA Peugeot-Citroën, Renault e Renault-Trucks (uma bagatela de 6,5 bilhões de euros), em contrapartida exigiu que as empresas se comprometessem em não demitir nem fechar fábricas na França, o que resultou reações na Europa, sobretudo na República Tcheca, onde existem fábricas dessas montadoras (Folha Online, 25.02.09).

Como podemos observar hoje, a palavra de ordem dos “antigos” defensores da globalização, do livre mercado, tornaram-se, de uma hora para outra, árduos defensores da nacionalização e da estatização de bancos e empresas falidas, ou à beira da falência, injetando somas gigantescas de dinheiro público, com o eufemismo de salvarem suas economias internas e o emprego de seus patrícios. A situação é escandalosa e trágica, vez que traz consigo a sombra do recrudescimento da disseminação da procura de responsáveis pela crise no “outro”, no que é de fora. A América para os americanos, diz hoje quem há pouco dizia: “nós podemos”. A Europa para os europeus. Só para alguns, pois quem é da parte leste desta Europa, está fora.

Toda essa situação tem levado muitos a temerem o pior, inclusive gente de governo, como é o caso do ministro brasileiro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência, Paulo Vannuchi, cujas palavras proferidas em Genebra, no dia 02.03.09 (agência EFE), alerta contra o perigo de que a crise provoque um aumento da intolerância e xenofobia: “a crise econômica pode levar a uma crise política aguda e, com isso, não só ter carências matérias, mas desequilíbrios sociais que podem comportar focos de intolerância e discriminação, algo que devemos evitar a todo custo”.

COMO ENFRENTAR O ATAQUE GLOBAL À CLASSE TRABALHADORA?

Diante do exposto anteriormente, nós da Oposição Operária, que pautamos a nossa atuação no movimento de massas segundo a nossa Carta de Princípios (ver nosso sítio em http://www.opopgerminal.wordpress.com), acreditamos que formas como sindicatos, centrais sindicais e partidos políticos ligados à ordem burguesa estão superados do ponto de vista da organização para uma luta da magnitude necessária contra o sistema do capital. E mais, esse tipo de organização está a serviço do capital, na medida em que reproduz a ideologia da classe dominante.

E mais, segundo Marx “a ideologia dominante de toda a sociedade é a ideologia da classe dominante”. Sendo assim a nossa tarefa não é coisa fácil. Vivemos num momento particular histórico, tanto do ponto de vista econômico, quanto do político. Urge para a classe trabalhadora uma forma de atuação muito mais contundente, o que vale dizer, muito mais organizada. Essa atuação tem de pautar-se por uma ação que leve em conta o universo da classe, no plano internacional, com formas de organização condizentes com o tamanho das necessidades que são impostas pelo atual estágio da crise do capital, bem como da crise do próprio movimento da classe trabalhadora, que da mesma forma é uma crise internacional.

Deste modo, o internacionalismo é algo imprescindível neste momento e não cabe a nós trabalhadores achar que uma solução não passe por esse viés. Aqui começam a aparecer as nossas diferenças com as inúmeras formas de organização existentes no seio da nossa classe. A busca pela solidariedade entre o operariado internacional não é novidade, porém os obstáculos para a sua realização são muitos e necessariamente terão de ser ultrapassados. Para tanto não acreditamos que iniciativas espontâneas sejam a solução para garantir os meios para uma resposta à altura dos ataques de tamanha monta que a classe tem sofrido nos últimos tempos. Para esse intento precisamos de organizações fortes, com princípios bem definidos e que tenham única e exclusivamente como objetivo a libertação da classe da opressão mantida pelo sistema do capital.

A OPOP não tem a pretensão de ser a única organização a possuir uma proposta de organização da classe para a tarefa da revolução, objetivo principal a ser perseguido. A construção de um projeto para a luta anticapitalista passa necessariamente por formas mais avançadas como, por exemplo, a existência de um partido que contenha um programa, uma tática, uma atuação voltada para esse fim. Além disso, é preciso organizações de massa, que denominamos SISTEMA DE CONSELHOS, do tipo soviets, autônomos com relação ao Estado e às instituições burguesas, que sejam mantidas com contribuições da própria classe, com dirigentes escolhidos, eleitos e rotados (em sistema de rodízio segundo o ritmo e a necessidade da luta) diretamente pelas bases e provenientes delas.

Em nossa proposta, ou seja, a classe organizada nesse sistema tem como primeiro passo a constituição de CÍRCULOS de discussão e educação política, que objetive a formação e conscientização no “chão da fábrica”, por unidades de produção, permitindo a todos o conhecimento do funcionamento da totalidade da empresa, de composição variada (de acordo com o tamanho da fábrica, poderia existir mais de um círculo), mas sempre em número pequeno (cinco ou seis pessoas), mantendo as questões de segurança para evitar as perseguições ou demissões, compostos por pessoas que tenham a confiança dos demais trabalhadores e trabalhadoras e que sejam por estes protegidos.

O passo seguinte é a formação de uma COMISSÃO DE EMPRESA, saída dos componentes dos círculos, e eleita diretamente em assembléias, pela totalidade trabalhadores da fábrica, ou empresa, ou banco, com mandatos revogáveis sempre que alguém não estiver à altura da delegação a ela dada, ou por outra necessidade qualquer e sempre mantendo as questões de segurança, garantindo o funcionamento da comissão e que terá como objetivo representar o conjunto dos operários e operárias, diante do patronato em todas as situações que se fizerem necessárias.

Dessas comissões sairiam os representantes nos CONSELHOS, instância maior, que reuniria a totalidade das fábricas de uma cidade, região, ou um distrito industrial, mantendo o mesmo sistema de eleição direta, com mandatos também revogáveis, que teriam como função primordial o exercício do poder no sentido mais amplo, encarregado de comunicar-se com conselhos de outras regiões ou estados ou até mesmo outros países.

De forma sumária seria esse o SISTEMA DE CONSELHOS, órgãos verdadeiros de exercício do poder operário, com uma rígida disciplina, sempre respeitando as decisões tomadas em assembléias que devem ser convocadas permanentemente.

Essa forma de organização vale também para os desempregados, que são muitos, ou os que estão no chamado mercado informal, que também são muitos, e a tendência com o recrudescimento da crise é de aumentar mais ainda, que podem e devem se organizar em seus locais de moradia, nos bairros, nas regiões de grandes cidades e mesmo nas cidades pequenas. E essa seria uma forma de intercâmbio de idéias e ações, com o restante da classe que continua empregada, despertando nesses a solidariedade de classe, evitando com isso a dispersão e a segmentação da classe, entre quem está empregado, quem está amargando o desemprego ou se encontra no mercado informal.

Neste momento conjuntural, de crise econômica aguda, cenário em que estamos assistindo ondas de desemprego em massa no mundo todo, que podem trazer consigo crise de caráter político, na medida em que os governos não têm alternativa, do ponto de vista do capital, se não injetar dinheiro público nas empresas e bancos que estão à beira da falência, como dissemos mais atrás, sem preocupação com quem de fato está à míngua, por conta da orgia dos que muito tem à custa dos que nada possuem, agravando de forma violenta o quadro de miséria da população.

Essa proposta não é uma inovação da OPOP, mas uma forma recorrente da luta criada pelos próprios trabalhadores, e sempre reaparece em momentos de crise aguda, da do tipo que estamos vivendo hoje, com o agravante que esta é mundial e por isso mesmo merece uma atenção maior do conjunto da classe para fazer valer o atendimento de suas necessidades. A Comuna de Paris, em l871 é o nosso primeiro exemplo. Elas reapareceram na Rússia em l905, no bojo de uma situação revolucionária (que foi desmanchada na época), e com a sua permanência, estavam presentes na crise de 1912, na mesma Rússia, e de novo em 1917, quando com as suas experiências e maturidade levaram a classe operária à sua primeira Revolução, em outubro daquele ano, já com o do Partido Bolchevique, dando a importância devida e essa forma de organização dos operários.

A forma CONSELHO, também surgiu na Itália, na Alemanha, na Hungria, entre outros tantos países, na época em que a Revolução esteve prestes a acontecer, antes e depois da I Guerra e, dada a sua autonomia e democracia, foi duramente combatida e até mesmo aniquilada pela burguesia, visto que impunha uma ordem de organização operária que ia de encontro com a forma de “democracia” burguesa, que vinga até os dias de hoje. Para os trabalhadores sobraram os sindicatos, forma domesticada pelos capitalistas e os partidos políticos que se adequaram àquela “democracia”. Mas nem por isso deixaram de fazer reaparições, mesmo que de modo embrionário, sempre que a crise se aprofunda, com modelos diferenciados, como no Equador, na Argentina, na década passada e no início deste milênio e, não com a mesma amplitude das que surgiram nos países acima citados, mas é uma forma recorrente onde a classe trabalhadora faz dela a sua forma de democracia.

Para nós, não restam dúvidas de que elas reaparecerão brevemente. E será justamente neste contexto de crise global, em que o sistema do capital parece não ter mais o que oferecer nem para a grande massa da população, dada as suas próprias contradições internas, a não ser a devastação do planeta em escala jamais vista; fome e miséria jamais vistas; continentes sendo simplesmente sucateados, como a África e parte da Ásia, envolvidas em guerras de extermínio; com revoltas da fome ocorrendo em mais de 30 países, sem que aja solução imediata ou no curto prazo.

Eis, então, porque propomos como alternativa para esse sistema, outro; ao invés da barbárie que já está acontecendo, o socialismo. Porém, não fiquemos nas palavras, tão somente. Por isso a proposta da constituição, desde agora, do que chamamos de pré-Estado, com o sistema de CONSELHOS, atrás descrito, de forma sumária. O denominamos assim, porque ele servirá de escola da Revolução Proletária, da nossa Revolução. Sendo “escola” servirá para a classe aprender, ainda nos marcos da capitalismo, na prática, a exercitar a gestão do seu Estado, o estado a ser construído depois da derrubada do capitalismo, o estado da transição, o Estado dos Conselhos, o socialismo, a caminho de um estado sem as classes sociais, sem a opressão de uma classe sobre a outra, ou seja, uma sociedade sem Estado, a sociedade do futuro, comunal, onde as pessoas tenham a liberdade plena e o trabalho seja tão somente um momento a mais de prazer e o conhecimento esteja ao alcance de todos, na mesma medida, e a ciência seja, de fato, para benefício da humanidade.

As experiências do passado, inclusive as recentes, servem de exemplo para nós. Se os jovens da Grécia recusam o futuro que lhes está reservado pelo sistema do capital, que os seus protestos e suas manifestações de massa, ocupando as ruas e as sedes dos sindicatos (que lhes negaram apoio), nos sirvam como memória viva de que a luta é necessária e a violência seja organizada contra quem da violência vive e com ela oprime, que se volte contra quem promove a barbárie e a miséria e que sirva para nos libertar da classe que só existe porque explora a nossa força de trabalho e que, por isso mesmo, é responsável por toda ordem de violência, já que joga às ruas quem ela não precisa, já que somos muitos. Se muitos somos, arregacemos as mangas e partamos para a luta, porque dela depende o nosso futuro.

Julho de 2009.  

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