A onda árabe: O que aprender dessas experiências?

“O ontem é a memória de hoje, e o amanhã o sonho que temos agora.” (Khalil Gibran – escritor árabe, nascido no Líbano). Desde dezembro do ano passado, a imprensa internacional tem noticiado as insurreições que têm acontecido no chamado “Mundo Árabe”. Essas convulsões sociais tomaram corpo e derrubaram ditadores na Tunísia e no Egito e se propagaram com uma rapidez impensada no norte da África, na península arábica e no Oriente Médio. Os países envolvidos nesses conflitos estão localizados em pontos estratégicos para o sistema do capital, pois ocorrem em regiões produtoras de petróleo, uma das principais fontes de energia para movimentar a economia do planeta; além disso, alguns desses países, como é o caso do Egito, se constituem em pontos de conexão entre continentes, pois lá está localizado o Canal de Suez, entre o continente africano e o asiático, ligando o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, principal passagem de navios petroleiros que abastecem países da banda ocidental.

A nossa pretensão com esta análise em série é procurar entender o que de fato ocorre naquela vasta parte do mundo e fazer as devidas conexões com a crise global e seus desdobramentos no mundo como um todo. Para tanto, não podemos deixar de trazer para o âmbito desta discussão, o que está latente na Europa, cenário de inúmeras jornadas de mobilizações durante todo o ano de 2010 e as que aconteceram nos primeiros meses deste ano. Os Estados Unidos, principal potência do planeta e epicentro da alavancada da crise em 2008 e 2009, carregam consigo, pouco a pouco, o restante das economias para próximo da bancarrota. Por lá as vozes das ruas já se fazem ouvir, sobretudo no Estado de Wisconsin, governado pela nova direita estadunidense, o agrupamento de ultradireita chamado Tea Party, surgido no seio do Partido Republicano. Lá, como no restante do planeta, o ataque é contra o conjunto da classe trabalhadora e as suas organizações, onde elas possam existir, que fique bem claro. E para comprovar a nossa análise de que o mundo dos árabes é o mesmo que o dos ocidentais, as manifestações acontecidas naquele Estado norte-americano, marchas que chegaram reunir 300 mil pessoas, eram embaladas por uma canção de rap que diz, literalmente walk like an egiptisian, [andar como um egípcio], já fazendo referência à Onda Árabe. Destarte, do ponto de vista da crise, que assola o sistema do capital e a repercussão no seio das mais diversas sociedades que vivem sob a égide dessa forma de organização das sociedades, podemos afirmar sem receio que o “Mundo Árabe” e o mundo ocidental fazem parte de um mesmo mundo.

O que está evidente, é que o mundo foi assolado pela crise nas economias centrais, dos Estados Unidos à Europa, em 2008, o que para alguns analistas é apenas mais uma etapa, um novo estágio da crise que denominamos estrutural, firmemente enraizada há quatro décadas e que está levando o restante do planeta a uma espécie de arrastão global. A conjunção desses fatos, com a falta das mais elementares necessidades básicas, tipo: comida, liberdade de expressão e organização, moradia, emprego, falta de perspectiva com relação ao presente e ao futuro, entre tantas outras, levou as massas às ruas numa rapidez que surpreendeu a todos. Isso fez entornar o caldo e colocou em xeque a sobrevivência de regimes até então tido como moderados, sólidos e seguros, sempre do ponto de vista dos interesses do capital, o que nos levou a presenciar a queda de ditadores como Ben Ali, da Tunísia e Hosni Mubarak, do Egito, incondicionalmente apoiados por todas as “democracias” do Ocidente.

Se na Europa a luta é contra os planos de austeridades, que cortam empregos, reduzem salários e aposentadorias, por melhores condições de trabalho, devido ao avanço da precarização do trabalho, no norte da África e na Ásia a luta é por mais empregos, moradia, enfim os motivos citados acima, fazendo-se necessário estabelecer um nexo entre esses movimentos, tendo como fio condutor a crise que hoje faz o velho sistema do capital tremer.

Restabelecida a conexão dos fatos como norte para estabelecer o patamar da crise global e a devida repercussão nas especificidades de cada sociedade, com os levantes, as mobilizações, enfim, o acirramento da luta de classes, agora em escala global, tentaremos, ao longo da série de artigos, promover uma articulação entre o pensamento de Vladimir Lênin, no que diz respeito à teoria da situação revolucionária, espalhada em sua vasta bibliografia, e os acontecimentos atuais, procurando identificar as similitudes e as discrepâncias.

Convém lembrar que a Opop, desde os preparativos para seu II Congresso ocorrido no ano passado, já havia trazido para debate a necessidade de pautar a Revolução para assentar uma ampla discussão com os militantes do movimento e as forças organizadas que se dispuserem a debater e atualizar a Revolução em nossos dias. Por esse motivo, o que chamamos de Teoria da Situação Revolucionária servir-nos-á como um guión para a investigação, e não um manual, uma fórmula pronta, mas algo vivo, latente, que nos ajudará a entender, pari passu, o andar dos acontecimentos.

Antes, porém, é necessário entender melhor um dos cenários em que se dá a luta, que, não por acaso, escolhemos e que se convencionou chamar de Mundo Árabe. É no Mundo Árabe que se encontra a Causa Palestina, palavra de ordem permanente na Praça Tahir, símbolo do poder das massas em luta na cidade do Cairo, no Egito. Foi na Praça Tahir que presenciamos mais claramente até agora como se deu a “coisa em si”, como os manifestantes acampados organizaram comitês para prestar segurança aos museus, evitando a depredação por vândalos a mando de Mubarak; como eram distribuídas gratuitamente comida e água; como eram organizadas as brigadas para revistar as pessoas que para lá fluíam de todos os lugares da cidade do Cairo; e foi lá na Praça Tahir que foi montado um grande hospital de campanha, organizado pelos médicos e enfermeiros que aderiram ao movimento, para tratar os feridos à bala de tanque como na fatídica noite de 28 de janeiro de 2011. Falaremos dela mais adiante.

Mas tudo começou, segundo a mídia internacional, na Tunísia, tendo como fato detonador do processo o ato de imolação de Mohamed Bouazizi, um jovem de 26 anos que teve seu meio de trabalho, um carrinho de vendedor ambulante, brutalmente confiscado pela polícia. Esse ato reverberou no Mundo Árabe de tal maneira que outros mais aconteceram, o que fez a luz verde das insurreições se acenderem de vez.

E tudo continua, agora com a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) bombardeando a Líbia, de Kadaffi, sócio de várias famílias magnatas do planeta, da Itália à França e Inglaterra, passando por Brasil e outros tantos que nem sabemos.

Passaremos em análise o Bahrein, monarquia totalitária de uma minoria sunita oprimindo uma maioria xiita, para ressaltar o CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) que se reuniu e aprovou uma resolução, à semelhança da ONU em relação à Líbia, para ocupar, junto com os Emirados Árabes Unidos, com mais de quatro mil soldados, com o objetivo de “ajudar” aquele país a conter a rebelião. Poucos falam dessa intervenção por terra desses soldados árabes, justamente no país, o Bahrein, onde funciona uma espécie de Banco Central dos países do Golfo Pérsico.

Mas o que é esse “Mundo Árabe”?

O que comumente se chama de “Mundo Árabe” é o conjunto de 22 países (incluindo a Palestina, que ainda não é um país) que configura a Liga dos Estados Árabes ¹, com uma população estimada em 350 milhões de pessoas. Esse vasto deserto compreende uma extensão de cerca de 14 milhões de quilômetros quadrados. Esse mundo dos árabes é hoje o palco das turbulências que têm atormentado os tiranos locais e os seus apoiadores da banda ocidental do planeta. Em outras palavras, o mundo dos árabes é o mesmo mundo do assim chamado mundo dos ocidentais: é composto por maronitas, coptas, berberes, curdos e africanos, árabes e muçulmanos. Em suma, é tão diversificado quanto o mundo dos europeus, por exemplo, onde coabitam latinos, germanos, eslavos, anglos, gregos, bascos, celtas, católicos, protestantes, muçulmanos, etc. Para um egípcio soaria tão estranho ser chamado de árabe quanto para um inglês ou francês ser chamado simplesmente de europeu.

É no mundo dos árabes, sob uma superfície de ”mares de areia”, que se encontra grande parte das jazidas de petróleo, fonte energética imprescindível para tocar a economia capitalista em seu estágio atual, não obstante os danos causados ao planeta e à humanidade. Qualquer mexida no tabuleiro político dessa região tem de levar em conta essa riqueza que sustenta elites locais associadas às elites internacionais. Na era da globalização, o capital transcende nações e regimes políticos, sempre de acordo com os interesses da elite também globalizada. Nesse terreno, todos os tiranos locais fizeram fortunas e todos tiveram o apoio das elites ocidentais e dos seus regimes. Esses regimes de opressão promoveram, simultaneamente, o enriquecimento das elites que dominam aqueles países e o empobrecimento e a pauperização da população.

Talvez o único resíduo de diferença seja que no mundo árabe a própria elite tem de estar à testa dos regimes autoritários, o que no Ocidente não costuma ocorrer, pois aqui a figura do testa de ferro foi muito bem introduzida com o intuito de camuflar a sua cara, com raras exceções. Por vezes, no limite extremo da democracia burguesa – numa necessidade de rearrumação ou consolidação de poder por uma ala – um Bush tenha que cumprir um duplo papel de um estadista/elite. Por uma razão muito simples: nas potências capitalistas, a concorrência ainda sobrevive; e na crise, se acirra.

É instigante observar que, no alvorecer da segunda década do século XXI, o mundo, como um todo, se depare em sua encruzilhada nodal, na acepção física da palavra; ou seja, linha formada numa superfície coberta de areia e posta a vibrar com a possibilidade da Revolução acontecer, não por ironia, justamente no continente que serviu de berço para o surgimento da humanidade.

Nota:

1 A Liga dos Estados Árabes, criada em 1945 na cidade do Cairo, no Egito, com a benevolência britânica, compreende atualmente os seguintes países: Egito, Iraque, Jordânia, Líbano, Arábia Saudita, Síria, Iêmen, Líbia, Sudão, Marrocos, Tunísia, Kuwait, Argélia, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Qatar, Omã, Mauritânia, Somália, Palestina, Djibouti e Comores. Ver Uma História dos povos árabes, de Albert Hourani, Companhia das Letras, 2001, páginas 388 e 389. 

(2010). 

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