Godot e a crise: “Esperando Godot”

Samuel Beckett (1906-1989), dramaturgo irlandês, Prêmio Nobel de Literatura em 1969, é o autor da famosa peça Esperando Godot. A trama consiste numa longa e curiosa espera de dois mendigos, por um amigo comum que não comparece ao encontro marcado. Durante toda a espera os dois amigos ficam a fazer vãs conjecturas na tentativa de compreender os motivos pelos quais Godot não veio ao encontro. Os críticos e comentaristas de literatura e de teatro já gastaram muito papel e tinta tentando saber quem é Godot, com interpretações que vão desde supor que se trate de alguma pessoa conhecida do próprio Beckett, até de se tratar de Deus, o que, neste caso, teria faltado aos homens sem esperanças. Em se tratando de um autor — Samuel Beckett — que negava qualquer perspectiva ao ser humano, não é difícil concluir que Godot é a representação metafórica dessa falta de perspectiva. Godot podia ser, portanto, a espera inútil e vazia, pelo ser humano, de uma existência absurda, sem saída e sem sentido.

Alguns analistas, críticos e até militantes políticos tentam traçar um paralelo entre o Godot de Samuel Beckett e a crise atual. Para essas pessoas, os marxistas, que compreendem que a crise estrutural do capital já está em curso e anunciam que uma forte depressão econômica combinada com um crash financeiro à escala mundial já estão a caminho, estão a ver neste desfecho da crise, uma espécie de Godot. Traduzindo: essas pessoas acham que assim como o Godot de Beckett não tinha hora para chegar, também a precipitação da crise não tem a sua. A culminância da crise-Godot numa depressão-crash pode ser adiada pelo capital mundial por muito tempo, ou por um tempo indeterminado, segundo esses críticos.

Godot comparece ao encontro marcado

Para nós, Godot, ou melhor, a crise, já compareceu ao encontro, já está conosco, ou no mínimo tem feito anúncios retumbantes de sua chegada. As “quedas das bolsas”, que já se reproduzem desde os anos 1980 e 1990, e que de novo acontecem agora numa escala muito maior e envolvendo o coração do capital, os EUA, constituem os sinais de que o “nosso Godot” finalmente chegou e promete instalar-se entre nós em definitivo.

Para quem leva a sério a análise da crise atual do capital, para quem sabe que esta crise nada mais representa além da etapa mais madura da decadência de toda a ordem do capital, ou ainda, para quem sabe ver que o capital já “gastou” praticamente todas as suas “contratendências”, com as quais protelava o amadurecimento da crise, a economia capitalista mundial, tendo a economia norte-americana à testa, já não dispõe de muitas reservas para impedir a culminação da atual crise com uma depressão e um crash financeiro maior que os de 1929/1930. É isso o que Godot veio fazer.

Em um número anterior de Germinal, no artigo Dança Patética das Bolsas, nós traçamos um esboço explicativo da atual crise econômica e financeira mundial — o nosso Godot — e concluíamos afirmando que os cerca de 500 bilhões de dólares despejados pelos maiores Bancos Centrais nos principais centros financeiros do mundo não constituíam nenhuma solução para a crise e que, ao contrário, na ausência de uma recuperação da economia real, esses recursos, repassados a juros baixos para instituições e fundos financeiros em apuros, na melhor das hipóteses apenas reporiam o ciclo da acumulação de capital fictício e que, mais dias menos dias, não evitariam a volta de um tsuname financeiro muito maior do que o atual. Agora é necessário que procedamos a um balanço sucinto de como as coisas se encontram nos seis primeiros meses posteriores aos meses de julho e agosto que presenciaram a “queda das bolsas”. E o ano de 2008 começou com todos os sinais de que a crise que vem por aí não será fácil para a economia capitalista.

A ineficácia das intervenções dos principais Bancos Centrais do mundo para debelar a crise financeira

O articulista Gabirel Kolko, num texto intitulado A Crise Financeira, publicado no sítio http://resistir, de 12 de outubro de 2007, informa-nos que a referida crise “… agora está a apossar-se de bancos, casas de investimento, hedge funds e especuladores — alguns estão apenas a perder enormes somas de dinheiro, outros estão indo para a bancarrota ou estão escalados para a venda a saldo”. Sabe-se que grandes bancos europeus estão com mais de 500 bilhões de dólares em ativos derivados da crise imobiliária dos EUA, sem saber o que fazer com esses papéis desvalorizados. Por outro lado, se alguns hedge funds foram temporariamente salvos pela ação concertada dos BCs, por outro, a maioria desses fundos simplesmente sumiu do mapa. Hoje, passados apenas alguns meses da explosão das Bolsas e da intervenção maciça dos BCs, nos diz Kolko que, não obstante a intervenção que fizeram, “…todos os bancos centrais estão dilacerados por dilemas. Eles não têm nem os recursos nem o conhecimento, incluindo poderes legais, para remediar o presente turbilhão.” Ou seja, os 500 bilhões não só não resolveram como são insuficientes para socorrer todos os magnatas do capital financeiros “necessitados”.

Segundo o mesmo autor, as intervenções de salvamento das instituições financeiras, golpeadas pela recente crise, fracassaram, porque essas instituições financeiras, que tiveram acesso aos 500 bilhões de dólares ofertados pelos BCs, neste exato momento estão assustadas e evitando correr mais riscos, o que significa dizer que estão retendo essa dinheirama em dólares como medida de segurança. Por seu turno, afirma Kolko, “o Federal Reserve – o Banco Central norte-americano – reconhece em privado a sua incapacidade para estar à altura de uma estrutura financeira desordenadamente complexa. Os banqueiros centrais europeus enfrentam exatamente o mesmo dilema: eles simplesmente não sabem o que fazer.” As intervenções dos BCs são inócuas, pelo menos por um par de razões: primeiro porque a única destinação para os recursos, por eles despejados nas instituições financeiras, será certamente voltarem-se para a especulação, e, segundo, porque os BCs não têm como controlar um mundo de negócios absolutamente desregulamentados e que se tornaram simplesmente incontroláveis. Por isso, conclui Kolko: “O sistema financeiro global agora está fora de controle. A cobiça é desenfreada. As instituições internacionais existentes não podem mudar essa realidade. Estamos à beira de uma crise séria – se não for agora, será no futuro próximo.”

De agora por diante, as coisas só tendem a piorar, porque, como afirma Rodrigue Trembley, como “a taxa anual de depreciação do dólar é de cinco por cento e a taxa a curto prazo do retorno dos títulos de tesouro americano é de quatro por cento, os bancos centrais estão a perder cerca de 22,5 bilhões de dólares por ano. Como os estrangeiros privados detêm uma dívida de mais de 2 trilhões de dólares, a perda líquida anual dos possuidores estrangeiros de dólares americanos pode atingir facilmente os 50 bilhões de dólares por ano”. De tudo o que foi visto, resultará, segundo Paul Craig Roberts, ex-secretário do Tesouro assistente na administração Reagan, que “Os EUA estão a caminho do Armagedão econômico. Tosquiado da indústria, dependente de bens e serviços deslocalizados e privado do dólar como divisa de reserva, os EUA tornar-se-ão um país do terceiro mundo.” Por certo um grande exagero, mas, dessa conjuntura em diante, a tendência dos EUA é de decadência, sem que aos demais países imperialistas do mundo caiba destino mais brilhante.

Conclusão

Esses são fatos que estão acontecendo neste momento de queda das bolsas, momentos que constituem desdobramentos da “crise-Godot” e que deverão ganhar corpo e evoluírem para uma depressão econômica combinada com um crash financeiro sem antecedentes. Governos, bancos privados e bancos centrais — sem contar com o FMI, absolutamente minúsculo e impotente diante de uma situação “globalizada” — se vêem num beco sem saída, depois que a única “saída” de que lançaram mão, inócua como temos asseverado, constitui no “socorro” ao capital financeiro ao custo de cerca de 500 bilhões de dólares. Como ações desse tipo são absolutamente incapazes de negar as leis – gerais e particulares — que determinam a presente crise estrutural do capital, podemos ter a mais absoluta certeza de que novas quedas das bolsas, novas e maiores quebradeiras, novos e mais profundos cortes nos programas sociais (educação, saúde previdência, etc.), novas e mais ousadas investidas contra o que ainda resta de direitos conquistados pelos trabalhadores vão ser acrescentadas aos já levados a efeito pelo figurino neoliberal.

Fevereiro de 2008. 

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