O Brasil e a crise estrutural do Capital

De começo, torna-se imperativo afastar alguns mal-entendidos espalhados por uma imprensa comprometida com um governo também comprometido com os grandes bancos e grupos capitalistas. O primeiro mal-entendido é um chavão, repetido até a exaustão pelo próprio Presidente da República, como se pretendesse nos convencer pelo cansaço, e que consiste em afirmar que a crise é algo gerado nos EUA, não se sabe por que “irresponsáveis” processos, ou que, por meio de outro também não explicado processo, teria migrado para o resto do mundo, o Brasil incluído. O segundo chavão consiste em afirmar que o Brasil, por ter a sua economia assentada em “fundamentos sólidos”, na pior das hipóteses sofreria apenas alguns arranhões e que, passada essa “marolinha”, o país, fazendo jus ao seu papel de “florão da América”, sairia ileso e, até, mais robusto da depressão.Já existem os mais intrépidos, entre os formadores da opinião pública, que estão¬nos querendo convencer de que o sucateamento iminente do coração da indústria automobilística do mundo – Detroit, a cidade-Meca da Ford, GM e Crysler — deixaria o espaço livre para que países como o Brasil o ocupassem com ares de potência promissora do mundo do capital.

O que os senhores e senhoras do vasto mundo da mídia, da academia, dos palácios governamentais e dos banquetes servidos pelos senhores do capital não conseguem é: 1) explicar por que a crise, que, no entendimento deles, é coisa gerada pelos países de pele branca e olhos azuis, se propaga tão rapidamente pelos demais países; ou por outra, porque países como o Brasil, a Índia e a China, não obstante ter suas economias baseadas nos tais “fundamentos sólidos”, não conseguem evitar a contaminação e dar continuidade ao seu crescimento “autossustentado”, como se diz no bordão mais vulgar do mundo; 2) explicar, com base em tanta certeza, quais os cenários desenhados para os rumos do país, uma vez superada a crise ¬uma tarefa que não pode ser difícil para quem está possuído de tanta certeza acerca da invulnerabilidade do país à crise.

O primeiro chavão, o da preferência do Presidente, deve a sua falácia por “esquecer” que a crise, não obstante ter ido mais longe nos EUA, na assim chamada “locomotiva do mundo”, é, antes e acima de tudo, uma crise sistêmica, estrutural e geral de toda a ordem do capital; por isso mesmo, uma crise que acomete o núcleo e mecanismo da acumulação do capital, e que, portanto, é gerada simultaneamente por todos os países que se movem pelas leis capitalistas que emanam desse núcleo de onde emerge a reprodução ampliada do capital — independentemente da cor da pele e dos olhos de sua população. O equivoco do segundo chavão deriva do primeiro, e consiste em que não existem, no quadro de crise estrutural do capital, razões concretas que endossem uma crise de pequenas repercussões para Brasil, Índia e China.

O que precisa ficar claro de uma vez por todas é que, em se tratando de uma crise estrutural do capital, esta é a mais profunda crise que o capital sofreu; uma crise que, apenas iniciada agora, começa a se alastrar, sem nenhuma possibilidade de ser superada com outro ciclo de onda longa, como o dos anos 1945 a 1975, e que, portanto, vai alcançar todas as economias do mundo, sejam elas do G-7, do G-20, desenvolvidas, subdesenvolvidas ou “emergentes” ou que possam ser reconhecidas por quaisquer rotulações que se lhe dêem. No que diz respeito à duração e profundidade da crise nos diversos países do mundo, dois tipos de repercussões podem ser ressaltados: os de curto e os de longo prazo. No longo prazo, a crise, sendo estrutural, sistêmica e de exaustão do capital, terá atingido, com suas hordas de desempregados e de sub¬remunerados, a todos os países por igual, enquanto a questão do grau de aprofundamento no curto prazo vai depender de situações e circunstâncias em cada região e país do mundo. Mais do que inclinações gerais, nenhum analista tem o que apontar; ou seja, a crise incidirá com a mais absoluta certeza, a longo prazo, em todos os países do mundo; porém, a curto prazo ela deverá atingir, de maneira diferenciada, às diversas regiões do mundo de conformidade com condições e circunstâncias próprias de cada país ou região.

Ademais, o grau de velocidade relativa com que os diversos países do mundo cairão nas garras da depressão também não pode ser estipulado de antemão; até porque o aprofundamento maior ou menor em tal ou qual país dependerá do fator mais decisivo nessa alçada, ou seja, da capacidade que o proletariado organizado tenha de se fazer presente com um projeto e uma direção firme para reverter a crise de acordo com os seus interesses de classe numa ou noutra região ou país, lembrando sempre que nunca a humanidade terá sua viabilidade tão dependente de um projeto operário como pressuposto de sua emancipação. O futuro da humanidade está, agora mais do que nunca, nas mãos da classe operária. Se a classe, que tem sobre os seus ombros tamanha tarefa, falhar, só restará à humanidade a barbárie numa escala inimaginável. Nunca foi tão claro esse dilema, que foi outra das convicções de Karl Marx e Friedrich Engels.

Junho de 2009.

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