O desdobramento do processo de crise

Num primeiro momento, situado por volta dos anos 1968-1975, teve início o ciclo descendente do crescimento de onda longa que se mantinha desde o início do pós-2ª guerra mundial. O referido ciclo compreendeu duas fases, uma de boom, de 1945 aos anos 1970, e outra de refluxo, que iniciou nos anos 1970 e se arrasta até os dias atuais. Não se trata mais de uma crise de superprodução de curta duração, como os dezenove ciclos experimentados pela ordem do capital desde 1825 até o presente, mas, ao contrário, de uma crise sistêmica, estrutural e crônica do capital, que marca os limites de sua decadência iminente. A dinâmica desta crise, que potencializa todos os traços das crises de superprodução anteriores, se nos apresenta mais ou menos da maneira que se segue.Nos anos 1968-1975, ocorre uma crise de superprodução que provoca uma derrocada na tendência da taxa média de lucro das economias do globo, que põe a nocaute o taylorismo-fordismo, a social-democracia e a terapia keynesiana que dão suporte aos “trinta anos de ouro” do capital. Os trabalhadores vão às ruas e, forçando uma regressão na taxa de mais-valia, acrescentam mais motivos para que a crise cale mais fundo nas sociedades capitalistas mais desenvolvidas — e todos estamos bem lembrados do Maio de 68 na França, que se coloca como um processo emblemático a esse respeito.

Com a compressão da taxa média de lucro no plano mundial e com a universalização da re-estruturação produtiva, iniciada pela Toyota na esfera das atividades produtivas e, de modo conjugado, o neoliberalismo como a política de Estado pensada para dar suporte institucional às reformas na base produtiva, os capitalistas lançam-se à mais larga e profunda aplicação de profundas e radicais inovações tecnológicas sobre a base estrutural estreita de extrema concentração do capital e da renda num feixe de tacanhas relações de produção de que se tem notícia, trazendo com isso uma crise como nunca antes sequer pensada na ordem do capital. Com uma tendência geral de queda da taxa média de lucro — acompanhadas de picos circunstanciais de picos para cima e para baixo da linha de tendência média — e com um forte movimento de desemprego, rebaixamento da taxa de salários e toda a política de desqualificação, a assim chamada precarização do trabalho, de que resulta uma insuficiência crônica do mercado de massas, não resta aos capitais outra saída senão a de destinarem seus lucros para uma outra forma de realização “mais fácil”, inaugurando a fase mais febril de acumulação financeira, sem precedentes na história.

Assim, dá-se um fato notável: a acumulação financeira não revela pujança na economia, mas ela exibe, ao contrário, a extrema fragilidade do modo de produção na sua fase de decadência. Com efeito, a acumulação financeira se desenvolve na medida em que — e porque — a acumulação de base, a da esfera produtiva, já esta em pane. O que essa fase traz de novo é o excesso de dinheiro para muito além de seu papel de mediador da circulação de mercadorias (com efeito, enquanto o PIB mundial é da ordem de 45 trilhões de dólares, a soma total de ativos financeiros se coloca em torno de 432 trilhões de dólares, com a inexorável desvalorização do dólar), a formação de bolhas de valor fictício e um perigoso descolamento de acumulação financeira da base real da produção que, mais na frente, vai dar o troco na forma de: a) um acirramento da crise de superprodução, que, sempre presente nesses anos todos, irrompe agora ancorada na própria crise financeira e como conseqüência da exaustão das rendas e dos salários provocadas pelo tsunami do capital financeiro; b) uma crise de liquidez que retira as condições de crédito para as poucas oportunidades de incremento das atividades produtivas; c) a conjugação de uma generalizada crise financeira com uma crise também generalizada na economia real, dando agora uma feição nova à crise — a marcha inexorável para uma depressão à escala mundial.

Nesta que pode ser considerada a terceira fase ou etapa da crise estrutural do capitalismo, ocorre um fato novo: o recrudescimento da crise de superprodução, que se materializa por impactos ao longo das cadeias produtivas e que aparece — ou reaparece — com um vigor multiplicado na forma de quedas vertiginosas das margens de lucros, concordatas, falências generalizadas, fusões, férias coletivas, arrochos num patamar até então desconhecido, demissões, etc. Se, no momento anterior, a chama da olimpíada das falências estava com bancos e fundos, grandes ou pequenos, não importa, na fase atual, que apenas se insinua agora, foi passada às falências de empresas gigantes — GM, Ford, Nissan, Fiat, Sony, a lista é grande — monopólios e multinacionais de peso, da mesma forma grandes ou pequenos, que caminham (arrastando todo o seu séquito de sistemistas, terceirizadas, fornecedores avulsos, etc.) para a insolvência ou para a extrema fusão num verdadeiro mutirão do horror que aponta para uma situação de conflitos sociais e políticos comparados aos quais os até aqui praticados são “fichinhas”.

Fevereiro de 2009.  

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