Os ecos da crise e as tentativas desesperadas do Capital

É praticamente um consenso que o capitalismo começou há alguns meses sua pior crise desde a década de 1930 do século passado, ou seja, a pior crise desde a chamada “quebra da bolsa de Nova Iorque”, fato ocorrido em 1929 e que repercutiu praticamente no mundo inteiro, tendo seus efeitos irradiados não apenas no espaço mundial, mas por anos e anos a partir do fato detonador. Pois o novo fato detonador, que nem é tão novo assim – pois vários órgãos da imprensa e mesmo nós, de Germinal, já apontávamos para o acirramento da crise que estava chegando –, chamado por muitos de “crise financeira”, é na realidade a face mais espetacular e superficial de uma crise mais profunda que perpassa o sistema capitalista costurando e amalgamando várias crises (energética, ecológica, financeira, alimentar, empregos, etc.), tendo como substrato uma grande crise sistêmica do modo de produção capitalista. 

Cem planos Marshall

Após a destruição dos países europeus, que foram palco da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos intervieram naquele continente com um grande pacote que ficou conhecido como Plano Marshall. Foi com o dinheiro canalizado por aquele pacote que os EUA financiaram a reconstrução dos países europeus do ocidente, ao tempo em que os colocaram sob a sua esfera de influência. Para se ter uma idéia da dimensão da crise atual, o dinheiro gasto pelos países, sobretudo pelos Estados Unidos da América, já ultrapassou a cifra de 11 trilhões de dólares, quer seja para resgatar bancos e seguradoras em processo de falência ou pré¬falimentar, mas também na redução de impostos, ou para patrocinar e investir em projetos de infraestrutura.

Essa cifra que levantamos – os U$ 11 trilhões e os demais dados aqui alçados – consta de uma matéria da revista Veja – que de vez em quando tem que falar algumas verdades – número 2104, de 18 de março de 2009, intitulada “Cem Planos Marshall”. A essa altura o leitor já imagina o porquê do título da revista, que nós tomamos de empréstimo; é isso mesmo: onze trilhões de dólares equivalem, já ajustado o efeito da inflação, a cem vezes o que foi gasto para reconstruir a Europa destruída; equivale a cem vezes o volume de dinheiro despendido pelo Plano Marshall à época. Isso dá uma idéia da dimensão da crise?

De onde vem tanto dinheiro?

Essa é outra pergunta crucial para se entender não apenas a crise, mas o tamanho dela e, de resto, o beco sem saída em que se meteu o sistema capitalista na tentativa inglória de postergar indefinidamente os seus problemas, ao tempo em que tenta sobreviver fingindo que esses não existem. A questão é que, apesar do derrame de recursos para salvar empresas antes tidas como sólidas e acima de qualquer suspeita, a maior parte dessa dinheirama, pasmem, simplesmente não existia. Tudo ou quase tudo isso é papel¬moeda novo, dinheiro pintado pelos Estados Unidos e seus parceiros para salvar os bancos e outros grandes e fazer frente à drástica contração do crédito que se verificou quando se “descobriu” o volume de “créditos podres” que serviu por anos para alavancar artificialmente um sistema que já não andava na sua dinâmica própria.

Os governos têm o monopólio da impressão de dinheiro, então os governos “pintam” dinheiro e abarrotam o sistema com esse “valor” criado abusivamente, sem nenhum lastro. Mas isso pode funcionar dessa maneira simples assim? Vejamos! A quantidade de moeda na economia americana passou de 781 bilhões de dólares para 837 bilhões, entre setembro de 2008 e março de 2009. Mas além de pintar papel os governos também emitem mais títulos, aumentando o seu endividamento público, ou seja, as dívidas dos governos, que já eram grandes, tornam-se gigantes, sobretudo a do governo norte-americano. A previsão para os Estados Unidos é que o seu déficit será multiplicado por quatro, de 3,2% do PIB em 2008, para 12% ainda em 2009. Em suma, o endividamento dos bancos, das grandes empresas e seguradoras, que atingiu níveis insustentáveis também por conta do endividamento das famílias, toda essa espiral – exceto os trabalhadores que serão cobrados – está sendo agora socorrida pelo endividamento dos Estados, que cresce desmesuradamente. A pergunta é inevitável: quem vai pagar o endividamento dos Estados que cresce sem parar? Como sustentar essa economia viciada? Qual a próxima etapa na dinâmica da crise?

Os riscos aumentam

Ampliar gastos públicos, como fazem os governos – inclusive o chinês, que lançou um pacote de 585 bilhões de dólares em obras de infraestrutura –, é antecipar a utilização de recursos que deveriam ser usados no futuro. Quando fazem isso sem lastro, como ocorre agora, e com uma perspectiva de diminuição da arrecadação por conta da retração da economia e do aumento do desemprego, aí o problema se agrava a olhos vistos, aumentando os riscos de novos gargalos e solavancos que o sistema não sabe mais como conter. Os títulos americanos, por exemplo, tidos e considerados pelo mercado mundial como os títulos de menor risco do mundo, dado o poder da economia dos Estados Unidos e de sua máquina de guerra, passarão a ser vistos cada vez mais com desconfiança, não apenas pelos investidores que sustentam a jogatina global, mas por países como China, Japão e os europeus, que alimentam a economia americana acostumada a pintar moeda e negociar com papéis.

O excesso de moeda em circulação, sobretudo por conta das impressões sem lastro, deverá pressionar a alta da inflação num momento não muito distante, o que poderá provocar um descontrole dos preços. Isso tudo, combinado com menor arrecadação e maiores dívidas poderá tornar tentadora a solução de imprimir mais e mais papel¬moeda sem o respectivo valor correspondente na economia real. E como o dólar é ainda considerado o “dinheiro do mundo”, o papel moeda aceito e reconhecido na maior parte das transações comerciais do planeta, particularmente com o petróleo – e o Tesouro Americano pode imprimir dólar à vontade –, vemos que os Estados Unidos têm hoje a capacidade de provocar uma inflação mundial, com todas as consequências que podem advir de um processo como esse.

Uma solução temerária e provisória

Não há duvidas de que a brutal intervenção feita pelos países capitaneados pelos Estados Unidos conseguiu, mesmo que provisoriamente, como dizem os especialistas, “acalmar os mercados”, mas, como demonstramos acima, isso à custa de mais contradição ainda, que certamente vai estourar adiante e não vai ter nem Deus para socorrer Estados endividados ao extremo, com dividas impagáveis e inflação galopante num cenário internacional. Os títulos do Tesouro Americano, assim com os empréstimos do subprime, estão¬se tornando uma espécie de “ativo tóxico”, e os países que possuem grande quantidade desses títulos, como a China, buscam a cada dia um pretexto para se livrar deles, o que nao é fàcil. Tudo isso coloca também em xeque a posição do dólar como “moeda mundial” e a própria hegemonia americana a partir do poder de sua moeda. Se a desconfiança e a desvalorização do dólar aprofundarem¬se, como vem ocorrendo nos últimos anos, qual moeda poderá assumir o seu papel? Simplesmente nenhuma! Nem euro, nem yen e nem a moeda chinesa, o yuan, pois não há economia com força suficiente para substituir o poder da economia americana, agora em desintegração. O descontrole do sistema tende então a aumentar.

Esperar o desmoronamento do sistema?

É por tudo isso que os trabalhadores devem “pôr suas barbas de molho”; é por todos esses sinais de desintegração, que têm sido dados, de maneira cada vez mais clara, pelo sistema capitalista, que nós devemos nos assenhorear de um projeto que vise não a reforma ou melhoria de um sistema, que apodrece a olhos vistos, mas que vise a construção de um verdadeiro sistema que prime pelas soluções dos problemas humanos, pelo respeito à natureza e ao planeta. É preciso entender o capitalismo e suas limitações, não apenas como sistema, mas as suas limitações históricas. É preciso saber onde está a sua força e onde estão as suas fraquezas. É preciso que comecemos a esboçar um novo projeto de sociedade alternativa ao modo de produção capitalista, para que possamos apontar a perspectiva de vida às novas gerações, e não a barbárie que se avizinha com as soluções arremedadas que esse sistema tem costurado e que só fazem aumentar os problemas e as contradições, com todas as consequências que são cobradas de nossa classe. Mas para isso não podemos esperar simplesmente que o sistema caia de podre; temos uma tarefa em nossas mãos, e é preciso que nos conscientizemos disso.

 Junho de 2009.

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