Alguns elementos para pensar o movimento da USP

Ao acompanhar as muitas manifestações divulgadas pelos veículos de comunicação a respeito das mobilizações mais recentes promovidas pelos estudantes da USP, impossível não passar os olhos por sobre os comentários que são realizados nas páginas virtuais por diversos leitores internautas e perceber que para além dos elementos que mais chamam a atenção de todos tais como: a oportunidade ou não de fumar maconha no campus; a presença ou não da polícia dentro da universidade; o voluntarismo de parcela dos estudantes que, a revelia da assembléia, resolveu ocupar a reitoria; a integração da USP à sociedade paulistana (e brasileira por extensão); e a gestão autoritária do reitor (Rodas) que quer passar por cima todos, parece-nos bastante oportuno destacar um elemento que se mostrou recorrente na esmagadora maioria das “manifestações populares” feitas pela internet e também exibidas pela tv: “a USP é vista como um ‘antro’ (sic) de mauricinhos que não têm a menor idéia do que seja ralar muito para conseguir segurar os trancos da vida”.

Para tentarmos entender essa posição “extremada”, exposta de maneira tão contundente por muitos dos que se manifestam em comentários, tweets, e postagens de todo tipo, é necessário termos em conta que para parcela significativa da população, o acesso ao ensino superior por meio do vestibular da Fuvest é algo inimaginável, já que, em função de uma concorrência que agora é intercontinental, aqueles que tiveram uma formação básica na escola pública regular/convencional nem sequer cogitam a possibilidade de um concurso como esse.

Com um cenário assim estabelecido, talvez seja mais fácil compreender algumas das reações mais raivosas, iracundas e até quase que bestiais que pululam nos sites e redes sociais acerca das manifestações feitas pelos uspianos. Percebe-se um certo tom de “frustração” por detrás dos “posts” feitos na internet na medida em que a universidade pública (e a USP em especial) é entendida por muitos como um privilégio de alguns (agora poucos) bem aquinhoados, que tiveram a oportunidade de uma formação básica de qualidade e que, por conta disso, estão colocados em uma posição de relevo e consagrados como a elite econômica de uma sociedade conhecida por seus títulos em desigualdades. As manifestações do “populacho” soam como uma espécie de indignação motivada pelo entendimento de que “aqueles privilegiados” deveriam lembrar a todo tempo de que são bancados pela população trabalhadora, que, por sua vez, percebe que “jamais” (?) poderia chegar à condição em que eles estão.

É então dessa maneira que colocam a questão: do que poderiam reclamar esse bando de “filhinhos de papai”? Acham que a polícia que muitos trabalhadores têm que enfrentar diuturnamente nas batidas em coletivos e nas ruas dos bairros populares não pode abordar os “intocáveis” dentro da cidade universitária? Será que os “playboyzinhos” ficaram chateados com a detenção dos seus “becks” e agora estão de birra como bons meninos mimados?

Vejam que as “questões de fundo”, aquelas que dizem respeito a presença imposta do reitor na Universidade (que nem sequer foi o mais votado, aparecendo como segundo colocado em uma lista tríplice, composta em uma eleição na qual os três segmentos da comunidade acadêmica têm pesos diferentes) ou mesmo quanto ao fato da PM estar (com Rodas e tudo mais) impondo rigor, disciplina e resignação ao instituído justamente no lugar onde deve(ria) ser estimulada a inquietação, o desequilíbrio, a insubordinação, o desafio a ordem, como característica própria (e necessária) para a produção do conhecimento, perdem o seu lugar para dar vazão a um debate fenomênico quer seja quanto ao fato dos estudantes terem sido detidos por fumarem um baseado ou ainda quanto ao crescimento e à redução do número de atos de violência dentro do campus do Butantã.

Não se trata de querer negligenciar a importância desses elementos nem das suas especificidades, mas não podemos tomar o que é “aparente” (a redução do número de “ocorrências” desde a introdução da PM no campus por meio do convênio firmado com a reitoria) como se fosse a expressão direta de todo o problema (sociológico?). Reconhecer que a nossa sociedade está repleta de atos violentos é uma necessidade e que a USP não passa incólume a isso e, nessa medida, está também inserida na mesma situação é inconteste, todavia, não está claro para nós (nem para muitos dos estudantes que estão em greve agora) que a melhor alternativa para fazer frente aos índices de violência dentro campus seja exatamente o recurso àquela instituição social que tem como fito precípuo impor “a lei e a ordem”. Como foi dito antes, cremos que Universidade, em qualquer que seja a sociedade, não é exatamente o lugar onde deve reinar “a lei e a ordem” instituída. Senão, muito ao contrário…

Ressalte-se ainda que o princípio de autonomia, que esteve presente quando da criação das universidades na “Baixa Idade Média”, com os auspícios da burguesia ascendente, buscava reconhecer e estimular a fundação de um lócus privilegiado para o florescimento e proliferação do “novo”, do “não instituído”, do “porvir”… era nisso que pensavam aqueles que viam no conhecimento científico e na filosofia moderna a possibilidade de libertação frente ao pensamento teológico e em seu rastro, das condições (objetivas e subjetivas) para liberação das forças produtivas da nova sociedade.

Mesmo reconhecendo que a condição histórica da burguesia no período atual, em oposição aos tempos medievos, requer necessariamente a reprodução de uma postura “conservadora”, ou mesmo “reacionária”, frente ao desenvolvimento do livre pensamento e da crítica progressista, condição na qual aquele princípio gerador de liberdade e autonomia se esvai em meio a artifícios e subterfúgios meramente formais.

Colocando as coisas dessa maneira, parece um tanto leviano, pensar que a instalação da polícia naquela que é a maior e mais importante instituição universitária da latino-américa poderia passar a todos tão somente como uma resposta natural à escalada da violência em suas próprias entranhas. Não obstante tenha sido com esse viés que os veículos de comunicação de massa vêm se esforçando para “instruir” a população sobre a origem de toda a situação, não nos parece que seja apropriado atribuir as inserções no debate feitas pelos mais incautos apenas a um suposto resultado direto das ações ideológicas movidas por um “aparelho privado de hegemonia”. Ressalte-se ainda que parcela significativa da comunidade acadêmica da USP tem chegado aos nossos écrans para repetir esse mesmo “mantra”, o que ainda evidencia claramente que alta racionalidade técnica nem sempre está acompanhada de um conhecimento crítico da realidade, ou, para dizer em outras palavras, em seu estágio hodierno, o desenvolvimento das forças produtivas parece requerer muito menos do que pode nos oferecer uma gnosiologia fundada na perspectiva de uma “totalidade concreta”.

Parece-nos por demais compreensível que muitos indivíduos sejam levados a ver a reação dos estudantes da FFLCH, quando da detenção dos seus colegas com alguns cigarros de maconha, como uma tentativa de se colocar acima da lei federal que inibe o uso de entorpecentes, afinal, para eles esses “porras-loucas”, “doidivanas” deveriam afundar-se nos livros aproveitando e agradecendo sempre (a Deus???) o privilégio de não terem que pagar altas mensalidades para estudar numa universidade como essa. A simples constatação de que os afortunados da USP estão descontentes com algo, soa como escárnio para uma multidão de batalhadores para os quais a conclusão de um curso superior, mesmo que de qualidade sofrível, só é (ou foi) possível mediante um esforço material de grande envergadura.

Nessa medida, submetidos de tal maneira à essa realidade objetiva, é mesmo difícil esperar uma compreensão quanto ao fato de que os uspianos mobilizados querem além de comida, diversão e arte. É quase impossível perceber que entre os “mauricinhos” que estudam lá no Butantã, há muitos que se vão da zona leste, nos mesmos ônibus e/ou trens de metrô; há ainda muitos “asilados” do país inteiro que se fixam no CRUSP por não conseguirem bancar melhor moradia na “paulicéia desvairada”; bem como, também para africanos de muitas origens e gente de toda a América Latina é o Conjunto Residencial da Universidade o único refúgio possível para que possam seguir com os seus estudos, demonstrando assim que se essa não fosse uma Universidade pública e gratuita, são muitos os que não teriam como assegurar uma formação superior.

Outro elemento importante que vale a pena ser resgatado diz respeito ao uso do estrepitoso aparato repressivo por parte da polícia a fim de dar cabo de alguns estudantes amotinados na reitoria da Universidade. Num momento em que boa parte do mundo passa por instabilidades econômicas, sociais e políticas nas quais se inscrevem possibilidades de situações revolucionárias abertas como vêm ocorrendo no norte da África, no oriente médio, na Europa e até no antes inexpugnável bastião do capitalismo contemporâneo, os EUA, é interessante perceber o recado que nos manda o Estado acerca de como os movimentos sociais serão tratados caso a nossa sociedade seja abalada pelas “marolinhas” originadas das convulsões sociais que sacodem o mundo atualmente. O uso de tamanho aparelho repressivo contra os estudantes é, sem dúvida, uma demonstração do que pode ser feito caso haja qualquer desequilíbrio na estrutura de poder.

Assim entendido, nesse momento, mesmo que tenhamos restrições ao encaminhamento da luta dado até aqui, cabe muito bem o chamado de TODO APOIO À GREVE DOS ESTUDANTES!!! Bem como a manifestação de um VEEMENTE REPÚDIO À AÇÃO REPRESSIVA DA POLÍCIA E AOS PROCESSOS PERSECUTÓRIOS EM CURSO TANTO JUDICIAIS COMO ADMINISTRATIVOS CONTRA ESTUDANTES, DOCENTES E SERVIDORES DA USP.

Para aqueles que ignoram o conjunto do debate e das manifestações de estudantes, trabalhadores e docentes da USP que se estabeleceu desde a nomeação do Reitor João Grandino Rodas, em novembro do ano passado, passando pela assinatura do convênio com a PM em agosto último, até a “batida” policial na FFLCH que levou à detenção de três estudantes, pode parecer até prosaica a greve estudantil que está em curso, mas para quem se propõe a uma análise um pouco mais detida, somente as brumas não vão ser suficientes para entender a possível ocorrência de uma grande onda que se anuncia…

Novembro de 2011.

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1 comentário

  1. O próprio distanciamento da produção acadêmica das questões extramuros; o ciclo que se forma nesse país em torno da valorização do currículo lattes em detrimento da práxis, assemelha o sentimento que a chamada populaccia tem em relação aos políticos de Brasília e aos estudantes da usp. Existe uma crise de legitimidade dessas instituições – família, escola, estado. E há muito que a caretice impera. A primavera de Praga se repete como fraude.

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