Crítica ao sindicalismo: A “forma sindicato”, suas origens e seus limites.

O movimento proletário é o movimento autônomo da imensa maioria no interesse da imensa maioria”. (Karl Marx e Fridrich Engels). Nesses primeiros anos de século XXI no Brasil, houve uma verdadeira revoada de sindicalistas e ex-sindicalistas para as hostes da administração do Estado, que a pretexto de preencher espaços nas possíveis brechas deixadas pela administração petista, ocupam cargos e pousam com a arrogância própria das classes emergentes sabendo que são os verdadeiros salvadores dos propósitos da burguesia quanto ao esquema de exploração do proletariado. São pessoas que até pouco tempo, pousavam como lideranças dos oprimidos. São “as Luiza Erundina, as Ideli Salvatti, as Lidice da Mata, os Tarso Genro, os Luiz Marinho ou os José Sergio Gabrielli” etc.

Fora isso, como diz o ditado, há pessoas, que não contentes em seguir os caminhos que os aprouverem, mesmo que esses caminhos os levem para esquemas como os citados acima, ainda querem que os demais os sigam. Com efeito, temos vivido sob constante assedio e toda ordem e argumentos sobre o perigo de ficarmos isolados do movimento, sobre o risco de encolhermos até virarmos seita, ou de termos uma visão anarquista do movimento, de sermos contrários a uma forma objetiva e livre de organização dos trabalhadores.

Essa preocupação com o nosso futuro às vezes se transformam em ódio feroz contra nossa postura política fazendo com que a Oposição Operaria (OPOP), volta e meia receba textos ou panfletos com ataques por parte daqueles que ainda encontram razões para atuarem por dentro dos lamaçais dos sindicatos, ou partidos institucionais PT, PSOL, PSTU, PCdoB ou movimentos de massa como MST, MTD, MPA, como também nas centrais sindicais etc.

 

1. A “forma sindicato”, suas origens e limitações


1.1 As origens

A forma sindical de organização operária surgiu na Inglaterra, sob influência da grande Revolução Francesa de 1789, sendo que, uma das primeiras categorias a se organizar foi a dos sapateiros de Londres que era dirigida por Tomas Hardy; havia também a dos alfaiates, dirigida por Frances Place. Na Escócia os tecelões de Glasgow organizaram já em 1812 uma greve, graças à existência de associações secretas. Essas associações secretas foram proibidas e seus dirigentes perseguidos, pois o segredo que envolvia sua existência ultrapassava os parâmetros então permitidos pela burguesia.

Em 1824, o parlamento inglês – Câmara dos Comuns – votou uma lei reconhecendo o direito de associação dos trabalhadores, que até então era restrito às classes dominantes. Conquistado o direito de livre associação, vem à luz as Uniões Operárias ou Trade-Unions como as chamavam os ingleses. Considerados os primeiros sindicatos, as Trade-Unions logo se desenvolveram por toda a Inglaterra, em todos os ramos de produção e com o tempo tornaram-se bastante poderosas, para em seguida surgirem as federações que passaram a agrupar as várias categorias de trabalhadores numa região. Em 1830 já se constituíam em uma força considerável junto aos operários ingleses – a Associação Nacional para a Proteção do Trabalho – cujo objetivo era atuar como central de todos os sindicatos.

Quando Marx e Engels escreveram há aproximadamente um século e meio, o Manifesto do Partido Comunista, a maioria das economias capitalistas ocidentais era ainda, um modo de produção insurgente e a livre concorrência parecia uma lei econômica natural. No prefácio da edição inglesa de 1888, Engels avisa que o programa da Internacional, teve que ser bastante amplo para que fosse aceito tanto pelas Trade-Unions inglesas, como também pelos seguidores de Proudhon na França, Bélgica, Itália e Espanha, ou pelos partidários de Lassalle na Alemanha. Marx redigiu este programa de modo a satisfazer a todas essas tendências partidárias.

Como podemos observar, já havia na época por parte das organizações sindicais ou anarco-sindicais uma tendência em rejeitar propostas mais radicalmente conseqüentes de revolucionários que, convencidos das insuficiências e limitações nas organizações corporativas para lutas econômicas, reclamavam formas de organizações que visassem transformações mais profundas na sociedade. Esse setor mais radical recebia a designação de comunistas. Apesar de ser um comunismo ainda mal esboçado ou grosseiro – palavras de Engels – tinham uma postura muito mais conseqüente que as de organizações como as de tendências socialistas utópicas ou as Trade-Unions.

Assim, apesar de terem se constituído na clandestinidade, as organizações para luta com fins econômicos, como os sindicatos, as federações já se encontravam na legalidade em 1824 e impunham condições a quem lhes propusesse formas superiores de organização. Não é demais alertar ao nosso leitor, que nesse dado período histórico o capitalismo ainda se encontrava em expansão e podiam distribuir alguns benefícios aos trabalhadores tais como: a regulamentação dos salários em função do lucro e aumentos que acompanhavam a produtividade industrial nivelando-os para toda a categoria. Negociavam também com os dirigentes sindicais auxílios ou benefícios para que determinada categoria não deflagrasse greves etc.


1.2 A integração dos sindicatos ao aparelho de Estado Capitalista


Na passagem do século XIX ao século XX o capitalismo da livre concorrência e oportunidades empreendedoras começa a dar lugar a uma “industrialização e comércio que processava com maior rapidez a concentração da produção em empresas cada vez maiores, onde o capital financeiro passou a predominar formando grupos e oligarquias, trustes, cartéis ou conglomerados que partilhavam entre si, em primeiro lugar, o mercado interno, apoderando-se mais ou menos completamente da produção de um país e depois inevitavelmente se entrelaçando com o mercado externo criando um mercado com alcance a nível mundial. À medida que foram aumentando a exportações de mercadorias e dinheiro, os capitais foram se alargando, sob todas as formas de relações com o estrangeiro, principalmente com as colônias colocando-as sob suas “esferas de influência” de suas associações monopolistas.” (LENINE, 1916).

Estabelecidos confortável e tolerantemente sob o capitalismo da livre iniciativa, alguns antigos militantes do campo social democrata, acomodados em seus gabinetes por anos de aparente calmaria da chamada época de ouro desse sistema, passaram então a ter uma posição vacilante, frente a essa nova realidade advinda da concentração de capitais. Gente como Kautsky, Plekanov, Otto Bauer, Ramsay Mcdonald etc., que como dizia Lenine, desfrutavam de uma acomodação ideológica própria do modo de vida pequeno burguês que se mantinham prisioneiros dos preconceitos democráticos, não enxergando o parasitismo desse novo capitalismo que se configurava.

Para essa corrente, como as demais do campo proletário que ainda se denominavam social-democracia, a luta do dia a dia, no interior do próprio sistema existente, a luta pelas reformas, pela melhoria da situação dos trabalhadores, preservando as instituições democráticas, a luta por melhorias das condições de vida do proletariado – era tal a questão principal da tática, deixando a questão da revolução social ou da relação do Estado perante a revolução para um futuro distante. Para as tendências proletárias situadas mais a esquerda dos dirigentes social-democrata de então, a questão da revolução social, pelo contrário, estava na ordem do dia, a luta sindical, a luta parlamentar, essas sim, nessa fase atual de desenvolvimento do capitalismo, haviam tornado-se inúteis, pois se reduziam cada vez mais a simples defesa de duvidosos direitos adquiridos.

Nesse capitalismo imperialista, os sindicatos tornaram-se, cada vez mais, associações gigantescas, demonstrando uma tendência de desenvolvimento revelada anteriormente no próprio aparelho de Estado burguês. Neste último formou-se uma classe burocrática e nos sindicatos observava-se essa mesma evolução do Estado e de sua burocracia: apesar das supostas possibilidades democráticas sindicais, seus filiados não tinham condições de fazerem prevalecer sua vontade contra seus funcionários; frente ao aparelho firmemente organizado por seus regulamentos e estatutos, toda e qualquer revolta esbarrava ante essa burocracia, não conseguindo nem mesmo abalar suas esferas.

Como não são donos de seus sindicatos, os trabalhadores são dominados por eles como por uma força aparentemente exterior, contra a qual eles podem revoltar-se, mesmo que nunca obtenham êxito, embora esta força tenha sido criada por eles mesmos. Isso não é fetichização da entidade como imagina alguns sindicalistas, mas um ponto comum entre os sindicatos e o Estado capitalista, que sob a aparência de ilusória neutralidade (o Estado) de defender determinada categoria (o sindicato), tornou-se agente legal da repressão e opressão da classe trabalhadora. Quando os trabalhadores se revoltam – como agora, nos países capitalistas em crise a exemplo da Europa, os sindicatos são os primeiros a serem convidados para se discutir como e em que proporção esses trabalhadores serão sacrificados, e se os trabalhadores não aceitarem as propostas de acordo, o cassetete da repressão é prontamente convocado.

Mesmo sob revolta daqueles que eles dizem defender, depois que a cota de sacrifício pelas crises capitalistas já foram determinadas oficialmente nas negociações com os capitalistas, os sindicalistas esperam que a revolta dos únicos prejudicados – no caso os trabalhadores – se acalmem, para então restabelecerem-se em seus postos, apesar do ódio e do ressentimento das massas, que eles sabem impotentes se quiserem tirá-los das direções dos mesmos, donde eles se mantêm porque se apóiam na indiferença ou na falta de clareza da maioria dos operários, e não na vontade homogênea e perseverante das massas, como ainda acreditam alguns. Essa camada de dirigentes sindicais aburguesados ou «aristocratizados» pelo seu gênero de vida, pelos seus vencimentos vultosos e por toda a sua concepção do mundo, constitui o principal apoio da exploração capitalista, sendo que hoje se constitui no principal apoio social (não militar) dos capitalistas. São os agentes dos interesses da burguesia no meio do movimento operário, lugares-tenente da classe dos capitalistas, veículos do reformismo; disso os defensores dos sindicatos bem sabem, mas fingem que não.

As posturas de oposição aos sindicatos já datavam do inicio do século XX, vejamos o que diz Pannekoek, militante da esquerda comunista européia:

“Existe sempre uma diferença entre a classe operária e os sindicatos. A classe operária deve olhar para além do capitalismo, enquanto o sindicalismo está inteiramente confinado nos limites do sistema capitalista… O papel dos sindicalistas não é o mesmo que o dos operários. Eles não trabalham na fábrica, não são explorados pelos capitalistas, não são ameaçados pelo desemprego. Estão instalados em gabinetes, em lugares relativamente estáveis… Eles caminham ao lado dos capitalistas, negociam com eles os salários e as horas de trabalho; preocupam-se com os “interesses da indústria” procuram agir como mediadores… Por conseguinte os sindicalistas entram necessariamente em conflito com os operários.” (PANNEKOEK, 1936).

Para Pannekoek, as organizações sindicais tornaram-se órgãos do Estado capitalista para reprimir a revolução. Na qualidade de representantes e dirigentes dos sindicatos, encarnam o caráter e interesses desses órgãos de opressão de classes, pois dentre as funções do sindicato no Estado capitalista está à intervenção e mediação para amortização dos conflitos. Como os sindicatos se tornaram inúteis, compete aos trabalhadores mudar essa situação. Assim, caber-nos-ia lembrar as lições tiradas da comuna por Engels que diz no prefácio da edição alemã do Manifesto (1888) que: “A comuna de modo particular, demonstrou que a classe operária não pode se contentar em apoderar-se da máquina do Estado (dentre elas a sindical) tal qual existe e fazê-la funcionar em beneficio próprio”. Rosa Luxemburgo na sua brochura “Reforma ou Revolução” (1900), já afirmava que:

“A Inglaterra oferecia-nos o exemplo do princípio e do atual estágio do movimento sindical, os quais reduziam nessa fase suas lutas cada vez mais, necessariamente à simples defesa de direitos adquiridos e mesmo isso estava cada vez mais difícil de ser conseguido. Os comunistas participaram das lutas sindicais enquanto elas foram de importância mesmo que relativas para as classes trabalhadoras e mesmo sabedoras dos seus limites entendiam serem esses órgãos representações das massas, algo que os próprios sindicalistas reconhecem não mais acontece.” (LUXEMBURGO, 1986 in Livro I, capitulo 03).

Atualmente, acreditamos que só uma pessoa hesitante nos problemas teóricos, com horizontes limitados ao oportunismo e que vise uma única coisa: conduzir-nos ao abandono do objetivo final da possibilidade de uma revolução social para inversamente fazer das reformas sociais seu objetivo último, só em relação a tais indivíduos poderia-se “justificar” sua participação em organizações permanentes de defesa de salário como fazem os sindicatos. Mas a classe operária deve olhar para além do escravismo capitalista, pois a revolução proletária só se realizarará numa luta permanente contra a ordem estabelecida e não interior dessa ordem, que não deve ser reproduzida e sim destroçada.

A postura de um revolucionário diante dos sindicatos não pode ficar no campo da discussão de conceitos de como gostaríamos que fossem os sindicatos etc. Lembremos então da velha máxima de Hegel e sua famosa tese citada por Engels em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã de 1888: “Tudo o que é real é racional; e tudo que é racional é real”. A quem o velho segundo violino complementa afirmando “que nos domínios da história humana, tudo pode se converter em irracionalidade com o decorrer do tempo; portanto, por seu próprio destino, tudo que é real, leva previamente em si mesmo, o germe do irracional, pois tudo que existe merece perecer”.

 

2. O sindicalismo no Brasil

Desde o início do século XX no Brasil, já haviam sido criadas várias associações de classe, tais como a União dos Operários Estivadores em 1903; a Sociedade União dos Foguistas, também em 1903; a União dos Operários em Fábrica de Tecidos em 1917, entre outras, que embora não possuíssem caráter sindical já demonstravam interesse quanto à significação social das lutas e dos movimentos operários.

Em 1906, foi realizado o primeiro Congresso Operário Brasileiro sob forte influencia do anarco-sindicalismo, que predominou no movimento operário brasileiro durante os anos que vão de 1906 a 1920.  Em 1920 surge a Confederação Geral dos Trabalhadores, já com influência nitidamente pró Russa, a qual se opôs veementemente à Confederação Nacional do Trabalho, provocando uma profunda cisão doutrinária da classe operária, que, entretanto, durou pouco tempo, visto que poucos meses depois de instalada a Confederação Geral dos Trabalhadores, foi a mesma declarada extinta por ato governamental, pois o governo queria impedir que os ideais anarquistas ou socialistas ditassem os contornos da ação sindical no Brasil.

Entretanto, o movimento proletário enfrentaria forte repressão por parte dos governantes brasileiros desde aquela época. Arthur Bernardes, presidente do Brasil de 1922 a 1926, fortaleceu a repressão aprovando em 1923 a Lei Adolfo Gordo, que punia operários que fizessem propagandas e movimentos considerados perigosos ao país. Na segunda metade da década de 1930, quando por meio de um golpe se dá o estabelecimento do Estado Novo, Getulio Vargas, um ano depois através do Decreto de nº 19.770, do ano de 1931, seguindo seus projetos, decreta a lei de sindicalização, tornando o Estado o controlador dos sindicatos.

Assim os sindicatos, que em outras regiões do planeta foi na sua “fase inicial” um mecanismo de defesa dos trabalhadores, no Brasil, mal cumpriram essa função histórica gestacional, comportando-se desde sua puberdade como mecanismo imposto a favor de um governo ditatorial. Estava (desde 1920) oficializado o “peleguismo”, ou seja, a política de “amaciamento” das massas trabalhadoras pelos burocratas sindicais (conhecidos como pelegos) a serviço do governo e dos empresários. Como podemos verificar diferentemente do que apregoam os nossos sindicalistas, no Brasil eles já nascem a serviços e comprometidos com o desenvolvimento do modo de produção capitalista e seu Estado.

É bom lembrar que o citado Decreto-Lei nº. 19.970 cria também o mecanismo que vai garantir que diretorias pelegas se perpetuem nas direções dessas entidades e de suas federações ou confederações através de um imposto que é subtraído do salário do trabalhador e realocado em seus benefícios. Recentemente, uma emenda aos artigos 578 e 579 da CLT foi sugerida, numa tentativa de retirar a obrigatoriedade do imposto sindical, sofrendo forte pressão contraria das cúpulas das centrais sindicais e dos sindicalistas-deputados, que não querem acabar com essa mamata que atualmente incide sobre 43 milhões de pessoas e gerou recursos na ordem de R$ 1,02 bilhão em 2010 e que são distribuídos da seguinte forma: 60% para os sindicatos, 15% para as federações, 5% para as confederações e 20% para a “Conta Especial Emprego e Salário”, administrada pelo governo.

Esses são alguns dados que os sindicalistas omitem fingindo desconhecer e sugerem que coloquemos a cara a tapa na tentativa de mudarmos esta estrutura, ou quem sabe pratiquemos o “entrismo”, como fazem alguns grupos de esquerda no Brasil, talvez assim quem sabe, possamos conseguir algumas migalhas do que cair da mesa daqueles que se banqueteiam com a espoliação e a miséria dos trabalhadores. Para nós da Oposição Operaria, existe muita diferença entre os interesses do proletariado e os interesses dos sindicatos. No plano econômico seus dirigentes já não podem ser considerados proletários, eles caminham ao lado dos capitalistas, negociam com eles fazendo valer seus interesses, ocupam lugares na estrutura burocrática desses órgãos e tem pavor de um dia terem que voltar ao chão da fabrica.

 3. O Neo- peleguismo e o enfraquecimento da luta sindical 

Na década de 80, depois de anos de amordaçamento e repressão do regime militar, há um novo levante grevista gerando conseqüências estrondosas que mudariam o cenário político do Brasil. Foi nessa década que a CUT e o PT organizaram-se. Na época, eram correntes progressistas de massa e era a direção das lutas contra os patrões e os pelegos que os apoiavam. O PT seria o partido aliado dos trabalhadores, gerador da consciência classista das massas do principal centro operário, o ABC paulista, e era a alternativa da década contra o regime militar e os partidos patronais existente.

A expressão política do novo processo social, que se deflagra em maio de 1978 no ABC paulista é enorme e o cenário político social é rico em experiências e tentativas de organização da classe trabalhadora em luta. Havia toda uma perspectiva futura. Surge uma série de propostas para formas embrionárias de organização. Mas acreditamos que a abrangência daquele movimento teria sido outro se por detrás ou à frente daquele movimento estivesse um partido de quadros do tipo leninista, orientando e encorajando aqueles contingentes do proletário para tentar formas de organização mais conseqüentes como as comissões de fabricas e conselhos operários, por exemplo.

Mas como não se encontrava na frente das lutas da classe operária um partido de quadros e sim um difuso partido de massas que era o PT, a classe operária perdeu este momento único, momento que Lenine denominava de momento revolucionário embrionário, donde a classe dominante estava impossibilitada de manter imutável sua dominação; tal momento, propiciado por uma crise na política das classes dominantes, abria uma brecha por onde poderia irromper o descontentamento e a indignação das classes oprimidas. Infelizmente perdemos este momento por não estarmos organicamente preparados. A conjuntura mudou e a classe dominante teve tempo de recompor-se, de rearrumar sua casa, de cooptar lideranças surgidas etc. A postura de enfrentamento foi substituída pela acomodação, pelas negociatas, pelas reuniões de gabinetes banhados por sucos, cafezinhos e outros mimos que a burguesia costuma ofertar a quem se dispõe a negociar com ela.

Atualmente, alguns agrupamentos de militantes, que até a década de 1980/1990 atuavam conjuntamente com os sindicalistas do PT e da CUT, proclamam sua contrariedade com os rumos tomados pelo PT e pelos sindicalistas com eles comprometidos e recomendam-nos a “criar” oposições aos mesmos ou filiar-nos aos “novos partidos de massa”, como o PSOL e o PSTU! Santa paciência! Esses partidários das frentes únicas fazem-nos duvidar de sua capacidade em fazer autocrítica quando se põem a andar em círculos, quando tem a cara de pau de propor, em nome da unidade operária, a diluição das organizações autônomas do proletariado nesses agrupamentos de massa, o que é o cumulo do cinismo!

Há pouco tempo atrás, no dia 10 de novembro de 2011, pudemos ler na internet uma nota da oposição Ecetista em Luta no CONREP, onde grevistas dos Correios acusam os dirigentes do Sindicato e da Federação em São Paulo de não defendê-los das retaliações sofridas pelo último movimento grevista, sendo que estes dirigentes formariam uma camarilha, um “Bando dos Quatro” (PT, PCdoB, PSTU e PSOL), grupo esse que compõe a maioria dos dirigentes da referida federação. Estamos divulgando o fato para que o leitor desse texto não tenha nenhuma ilusão quanto ao papel desempenhado pelos sindicatos e por suas centrais sindicais, seja ela CONLUTAS, CGT, Força Sindical ou CUT, pois todas elas, independente da matriz ou agrupamento que representa, são organismos de poder da burguesia. Citando mais uma vez Pannekoek:

“Tal organização já não é unicamente uma assembléia de operários; forma um corpo organizado, que possui uma política, um caráter, uma mentalidade, tradições e funções que lhe são próprias. Os seus interesses são diferentes do da classe operária e não recuará perante nenhum combate para defendê-los. Se algum dia os sindicatos perdessem a sua utilidade ainda assim não desapareceriam. Os seus fundos, os seus adeptos, os seus funcionários, são outras tantas realidades que não estão a ponto de se dissolverem de um momento para outro”. (PANNEKOEK, 1936).

Estruturalmente, os sindicatos não se movem no terreno da luta de classes, mas nos territórios do Estado burguês, não sendo uma forma contrária ou um adversário do capitalismo, pois estão localizados no mesmo terreno de outras estruturas da sociedade de classes. Os sindicatos não visam derrubar o capitalismo, longe disso, eles constituem um elemento necessário para a estabilidade, para a normalidade da sociedade capitalista e, conseqüentemente,  não pode ser um órgão de luta revolucionário.

Os sindicatos que, nas antigas doutrinas social-democratas era um dos meios de luta contra a exploração do capital, já demonstravam que são incapazes de impor o domínio da classe operária no processo de produção e também no que se refere às dimensões de produção e seus processos técnicos. KAUTSKY (1970, p. 153/190) dizia que:

“(…) a única estratégia possível para os trabalhadores alemães é a estratégia da erosão contra o Estado, do poder mordiscar as posições dos entes burgueses, e não de uma estratégia de destruição do capitalismo”… e completava (Op. cit., p. 198) afirmando que (…) “as táticas parlamentares são preferíveis à ação revolucionária de massas e até mesmo para os ataques políticos: “uma vitória eleitoral produz uma impressão muito mais forte”.

Enquadramento e integração no sistema político capitalista através da vida parlamentar e da luta sindical, os quais lhes garantem uma parte significativa do seu financiamento e auto sustentação. Essa integração tende a levar essas forças a se diluírem em frentes fazendo com que as suas orientações estejam muitas vezes a reboque da «opinião pública» por um oportunismo político puro, por acomodação.  Nos dias de hoje a estratégia de esgotamento tomou outras denominações, mas o objetivo continua a ser o mesmo: instaurar o socialismo pela via parlamentar ou ocupar espaços como é comum entre as correntes grancistas, trotskistas, stalinistas e sociais democratas.

Dividir o proletariado em categorias rígidas, corporativas, para desempenhar um papel de reprodução continua dentro dos limitados parâmetros da exploração capitalista, limites que reproduza essa exploração isso é o que quer as correntes reformistas, desde as primeiras organizações operárias. O capitalismo da época do imperialismo, com suas grandes coalizões empresariais, não pode conceder reformas duradouras para o proletariado, que é condenado a ações cada vez mais selvagens de defesa contra a deterioração das suas condições de vida. A força motriz das lutas economicas, não traz qualquer esperança de melhorias nas suas condições de vida. A questão agora passa a ser, a saber, que formas de organização e de luta devem ser criadas para substituir essas formas tradicionais já caducas, e dar continuidade e conseqüência às insatisfações que ganham corpo cada vez mais no meio dos oprimidos.

Com as enormes dimensões assumidas, a crise estrutural do capital faz com que a utilidade dos sindicatos como órgãos de conciliação de classe caducassem. Dividindo a classe em “corporações de ofícios”, ele acaba fraguimentando ainda mais o conjunto dos trabalhadores, criando obstáculos ao desenvolvimento de qualquer luta e à sua generalização a outras camadas de trabalhadores.  Assim é que em todo o mundo só se tem ampliado a atuação dos sindicatos enquanto gestores do capitalismo em crise. Para a esquerda européia, a maioria da Terceira Internacional que recomendava o parlamentarismo, o sindicalismo ou os “partidos de massa”, etc., como forma de luta, eram os centristas. Acreditamos que essa formulação continua válida, agora sendo necessário apenas incluir nela outras correntes que se resguardam no mesmo campo.

Referências:

Folha de São Paulo – Folha hoje na história, Quinta-Feira, 07 de Janeiro de 1907-Promulgada no Brasil a Lei Adolpho Gordo, que autoriza a criação de sindicatos profissionais: São Paulo Janeiro de 2011.

KAUTSKY, Karl. Zuerst erschienen in Die Neue Zeit, 28. Jahrgang, 2. Band, 1910. Abgedruckt in Antonia Grunenberg (Hrsgb.): „Die Massenstreikdebatte“, Frankfurt a.M.: Europäische Verlagsanstalt, 1970, S. 96-121. HTML-Markierung und Transkription: J.L. Wilm für das Marxists’ Internet Archive.

LENINE, Vladimir Ilitch. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Tomo 2 das Obras Escolhidas em seis tomos. Editorial «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1984. Transcrito por: Tiago Saboga. HTML por: Tiago Saboga e José Braz para o Arquivo Marxista na Internet.

LUXEMBURGO, Rosa. “Social Reform or Revolution”, Militant Publications, London, 1986 (no copyright). Transcrição de: Fernando Araújo. HTML de: José Braz para The Marxists Internet Archive.

PANNEKOEK, Aton. Os Conselhos Operários  a partir de I.C.C. vol. II, n.º 2 Janeiro de 1936. HTML  por José Braz para The Marxists Internet Archive.

OPOP

Dezembro de  2011.

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