O Núcleo Duro do Capital

Há um século e meio, quando Marx escreveu O Capital, a livre concorrência era, para a maior parte dos economistas, uma “lei natural”, mas o teórico alemão demonstrou que a livre concorrência gera a concentração da produção, que por sua vez, num certo grau do seu desenvolvimento, conduz ao monopólio. Em meados do século XX o monopólio já era um fato. Lenine, em seu livreto “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, de 1916, pode fixar com bastante exatidão o momento em que o novo capitalismo veio substituir definitivamente o velho: fim do século XIX e crise de 1900 a 1903, quando os cartéis passaram a ser uma das bases de toda a vida econômica. Foi aí que capitalismo transformou-se em imperialismo e trouxe toda uma série de inovações conjunturais, como a formação de uma casta de rentiers, uma elite financeira ligada ao governo e a “partilha do mundo” entre conglomerados econômicos, hoje chamados de corporações.

O revolucionário russo com propriedade percebeu que a produção passara a ser social, mas a apropriação dessa riqueza socialmente produzida continuara a ser privada e reduzida a um número tendencialmente cada vez menor de capitalistas, diante o monopólio e a concentração cada vez maior dos meios de produção. Mas talvez a sua maior contribuição no ensaio seja a de esquadrinhar o processo de como o monopólio industrial em certo ponto se une ao monopólio bancário, formando assim uma elite financeira que perpassa os mais variados setores da economia. Os principais bancos que, em conseqüência do processo de concentração, ficam à frente de toda a economia capitalista, absorvem, incorporam, subordinam os menores e alinham-se entre si, verificando-se e acentuando-se cada vez mais a tendência para se chegar a um acordo monopolista, ao trust dos bancos. E, por terem assegurados em seus domínios somas imensas de capital e, ao mesmo tempo, o conhecimento cada vez mais pormenorizado e completo da situação econômica de cada capitalista individual, assumem uma posição extremamente vantajosa do ponto de vista das relações capitalistas, levando a uma “dependência cada vez mais completa do capitalista industrial em relação ao banco[i]”.

Ao mesmo tempo, desenvolve-se, por assim dizer, e em contrapartida, “a união pessoal dos bancos com as maiores empresas industriais e comerciais, a fusão de uns com as outras[ii]” mediante toda a sorte de estratagemas, como negociata de ações, participação dos diretores dos bancos nos conselhos das empresas ou mesmo das entidades patronais, etc., e vice-versa. A amálgama dos bancos com a indústria completa-se com a interação de umas e outras sociedades com os governos. Quando lugares nos conselhos de administração são confiados voluntariamente a personalidades de renome, bem como a antigos estadistas e funcionários públicos, os quais podem facilitar em grau considerável as relações com a governança e, no mesmo sentido, quando diretores e industriais passam a integrar conselhos de regulação e política econômica, etc., resulta-se, por um lado, a junção dos capitais bancário e industrial, e, por outro, a transformação dos bancos em instituições com um verdadeiro “caráter universal”.

Tal constatação teórica foi, obviamente, alvo dos mais variados ataques durante todo o século, desde disposições errôneas, como o “ultraimperialismo” de Kautsky, até mesmo ao pretenso rebaixamento à “teoria da conspiração”, muito provavelmente pela dificuldade material de então de se angariar dados econômicos, contábeis e estatísticos suficientes para se desenhar um mapa de como essa casta de rentiers se constituiria diante uma cada vez mais complexa rede internacional de negócios. Mas, quase um século depois, surgiu o primeiro estudo positivo nesse sentido, que deu a conhecer empiricamente as interligações entre as multinacionais mundiais, revelando que um pequeno grupo de atores econômicos – sociedades financeiras ou grupos industriais – domina a grande maioria do capital de dezenas de milhares de empresas no mundo[iii].

O italiano Stefano Battiston, que passou pelo laboratório de física estatística da École normale supérieure, o suíço James B. Glattfelder, especialista em redes complexas, e a economista italiana Stefania Vitali, investigadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, examinaram as interações financeiras entre multinacionais do mundo inteiro. O seu trabalho – The network of global corporate control[iv] (A rede de controle global das corporações) – examina um painel de 43.000 empresas transnacionais (transnacional corporations) selecionadas na lista da OCDE. Os estudos levam em consideração e revelam as interligações financeiras complexas existentes entre estas entidades econômicas como participação cruzada, participação indireta no capital, parte do capital detido, entre outras.

O resultado é que 80% do valor do conjunto das 43.000 multinacionais estudadas é controlado por 737 entidades: bancos, companhias de seguros ou grandes grupos industriais. Mas o monopólio do capital não fica por aí. Por uma complexa rede de participações, 147 multinacionais, controlando-se entre si, possuem 40% do valor econômico e financeiro de todas as multinacionais do mundo inteiro. E que, ainda, neste grupo de 147 multinacionais, 50 grandes detentores de capital formam o que os autores chamam uma super entidade, constituindo o que seria o núcleo duro do capital. Nela, como antecipou Lenine, encontram-se principalmente grupos bancários e seguradoras – sociedades financeiras em geral: o banco britânico Barclays à frente, assim como os americanos (Capital Group Companies, FMR Corp, JP Morgan, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley), e também franceses (Axa, Natixis, Société générale).

Esse monopólio mundial do capital não é um fenômeno recente, se desenvolve a mais de um século, como identificado por Marx e Lenine, e esse núcleo duro tem-se mantido com relativo sucesso à frente do capital mundial. Em “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, o russo estudou mais detidamente a formação dos monopólios bancários na economia alemã, nomeadamente do Deutsche Bank, hoje 12º colocado na “rede de controle global das corporações”. O banco alemão já contava, no início do século passado, contando com os bancos a ele ligados, com a acumulação de capital mais considerável do Velho Mundo. Por sua vez, entre 1905 e 1916, o Barclays cresceu através da aquisição da diversos outros bancos menores e já era o principal banco inglês. Em 1900, o JP Morgan já era uma das principais casas bancárias do mundo. E esses são apenas três exemplos de casos quase uníssonos na lista das 50 maiores control-holders do estudo suíço.

A inovadora pesquisa ganha outra importante faceta ao permitir que passemos da pergunta de “Como se constituiria essa rede de controle global das corporações?” para “Quem constituiria essa rede?”. O núcleo duro do capital pode revelar o núcleo duro da burguesia, que, por motivos políticos óbvios e também pela complexa rede financeira de participações de capital, não aparece nos rankings de ricos da Revista Forbes. Como é o caso do Sr. Marcus Ambrose, que atualmente é o “chairman”, ou principal homem, do Barclays, que é como vimos o principal banco controlador de capital do mundo, ele é casado com Katherine, filha de Edmund de Rothschild. Os Rothshield, que já na primeira quinzena do séc. XIX emergiram como a família mais rica da Europa[v] e ainda hoje são uma das principais famílias de banqueiros do mundo. Lenine já observava que era evidente que “um banco que se encontra à frente de um tal grupo e que se põe de acordo com meia dúzia de outros bancos, quase tão importantes como ele, para operações financeiras particularmente volumosas e lucrativas, tais como os empréstimos públicos, deixou já de ser um “intermediário” para se converter na aliança de um punhado de monopolistas[vi]”. A conclusão mais imediata é a de que os “principais clientes dos fundos hedges e outras carteiras de investimentos geridos por estas instituições são, por conseguinte, mecanicamente, os donos do mundo[vii]”.

Mas nem tudo são flores para esse grupo que podemos chamar de núcleo duro da burguesia. No próprio estudo suíço, os autores já alertam que uma rede financeira tão densamente ligada e interdependente torna-se muito sensível ao risco sistêmico e citam a “crise do subprime” de 2008 como um claro exemplo de derrocada em cascatas de capitais. Essa relação das crises do capital com o monopólio já era identificada por Lenine em 1916, “– as crises de toda a espécie, sobretudo as crises econômicas, mas não só estas – aumentam por sua vez em proporções enormes a tendência para a concentração e para o monopólio[viii]”. E no seu conjunto, o capitalismo gere crises econômicas cada vez mais densas e estruturais, no inflar de lucros parasitários ancorados cada vez mais em “bolhas” especulativas oriundas do capital financeiro e na estagnação do capital industrial por meio das crises de superprodução, como duas faces de uma mesma moeda.

O capital financeiro aparece então como uma força absolutamente decisiva, subordina todas as relações econômicas e internacionais, até mesmo diante os Estados que gozam de determinada independência econômica. Mas essa subordinação, segundo Lenine, assume sua forma mais lucrativa e “cômoda” para o capital financeiro quando traz consigo a perda da independência política dos países submetidos, através das concessões oriundas dos acordos auferidos por imposição aos empréstimos públicos. As aprovações dos pacotes de ajuda econômica, chamados de bailouts, para ajudar as sociedades financeiras afetadas pela crise executados por diversos países como Estados Unidos, Grécia, Alemanha, Portugal etc., e que se repetem por todo o mundo, são apenas a continuação dessa velha tática, esmagando trabalhadores do mundo todo sob somas que alcançam os trilhões.

Não se pode ignorar que o imperialismo é justamente a época do capital financeiro e dos monopólios, que trazem consigo, em toda a parte, a tendência para a dominação e controle, seja qual for o regime político, e para a exacerbação extrema das contradições, não para a liberdade – ou melhor, apenas para a “liberdade” condicionada do consumo. E suas particularidades políticas – como já precocemente alertava o bolchevique – são a reação em toda a linha, a intensificação da opressão, dominação e violência da oligarquia dos rentiers sobre o conjunto da sociedade.

 OPOP

Janeiro de 2012.


[i] LENINE, Vladimir Ilitch. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Junho de 1916.  NET, Arquivo Marxista na Internet. Disponível em <http://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/index.htm> Acesso em: 03/01/2012.
[ii] LENINE, Ob. Cit.
[iii] ROY, Ivan Du. 737 maîtres du monde contrôlent 80% de la valeur des entreprises mondiales. Setembro de 2011. NET, Basta!. Disponível em <http://www.bastamag.net/article1719.html>. Acesso em: 03/01/2012.
[iv] O estudo original pode ser descarregado aqui em inglês: <http://arxiv.org/abs/1107.5728>.
[v] GRAY, Victor e ASPEY, Melanie. Rothschild, Nathan Mayer (1777–1836). Oxford Dictionary of National Biography, Oxford University Press, Setembro de 2004; edição online, maio de 2006. Acesso em maio de 2007.
[vi] LENINE, Ob. Cit.
[vii] ROY, Ob. Cit.

[viii] LENINE, Ob. Cit.

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