A Greve dos Policiais Militares na Bahia: Uma Breve Avaliação

 

Depois dos 12 dias de greve dos policiais militares e de tudo que ela pode expressar sobre como a sociedade se organiza, alguns elementos chamam a atenção para uma análise mais específica.

A forma como o movimento foi construído, por fora da estrutura sindical, ao mesmo tempo em que possibilitou certo grau de radicalização, também expressou os limites de uma luta corporativa imposta tanto pelas Associações que o dirigiram quanto pela característica própria da corporação, marcada pelas hierarquia e disciplina militares.

Esses limites, contudo, não ofuscam todo o potencial que uma greve como essa traz para a nossa conjuntura. Considerando as contradições centrais advindas da divisão social do trabalho e que são postas em movimento na medida em que os agentes da repressão de classe são recrutados dentre aqueles que não possuem meios de produção, podemos perceber, como uma síntese desse processo, todo o combate exercido pelo Estado no sentido de descaracterizar e desqualificar a mobilização promovida por aqueles que, sem ironia, são um dos principais executores da repressão imposta aos demais trabalhadores.

Ver  https://revistagerminal.com/2012/02/13/ha-algo-de-novo-no-front/

A maneira como foi preparada a edição de imagens e de áudios e, mais ainda, os posicionamentos dos jornalistas exibidos em emissoras de rádio e televisão e veiculados em jornais impressos e eletrônicos divulgando diálogos entre algumas das lideranças do movimento mostrou, de maneira cabal, a capacidade de articulação do Estado, enquanto instrumento político de coerção, com os efetivos interesses de classe daqueles de quem é representante.

A ação deliberada promovida no intuito de criminalizar o movimento atribuindo aos grevistas a responsabilidade por ações de depredação e até mesmo de extermínio ocorridas no decorrer da paralisação, associada a denúncias totalmente descabidas que tentam transformar em ato criminoso a articulação e busca de solidariedade entre lideranças regionais do mesmo segmento evidenciam uma política de Estado que se mostra disposta a tratar um movimento de contestação como uma atividade criminosa.

Essa situação demonstra ainda que a burguesia começa a se dar conta do perigo que encerra constituir uma força pública de repressão, arregimentando policiais em diversas camadas do proletariado onde medra o desemprego e a desassistência absoluta, atingindo em cheio as bases sociais, familiares, de amigos, vizinhos e demais companheiros de infortúnios que são, invariavelmente, aqueles a quem vai caber a ação repressiva.

Tudo isso gera um clima de revolta em potencial e latente na tropa ou ao menos em parcela ponderável dela, apenas sufocada pela necessidade de manter o emprego para continuar mantendo o mínimo de meios de subsistência da família. Nessa medida já é possível perceber reações que vão desde a rejeição de parcelas crescentes de policiais que, individualmente, se negam a perpetrar atos de repressão contra trabalhadores em ações de massa, em países que estão encalacrados na crise atual e envolvidos em situações revolucionárias, até reações objetivadas em simultâneas greves de soldados num solo social no qual essas greves se entrelaçam com greves crescentes de trabalhadores. Essa simultaneidade de movimentos de greve cria uma atmosfera favorável a um entendimento entre lideranças de operários, segmentos populares e de soldados para a discussão de destinos comuns.

Mesmo que tenhamos que reconhecer que o movimento feito pelos policiais na Bahia ainda se mostrou muito longe dessa perspectiva, não é demais lembrar que nenhuma revolução de caráter socialista foi possível sem a participação de soldados. Já na Comuna de Paris o papel da Guarda Nacional foi preponderante para o êxito daquele levante insurrecional. Na Revolução Russa o processo foi bem mais complicado do que em Paris. Em 1905 na manifestação da população frente ao Palácio de Inverno, morada oficial do Czar, os manifestantes foram literalmente metralhados pelas forças da repressão o que deixou marcas profundas na memória do povo. No entanto, isso não foi empecilho para que esta mesma população viesse apoiar soldados que desertavam da frente de batalha vindo aí, em 1917, a se organizarem em sovietes de operários e soldados.

Coloca-se aí uma questão de fundo: uma parte da soldadesca deverá lutar ao lado do proletariado em um processo de aliança política das forças revolucionárias. Neste sentido ele tem que ir, desde já, ensaiando a quebra da hierarquia dentro e fora dos quartéis. Portanto, manifestações e greves nas corporações policiais pode se constituir numa verdadeira escola para as novas gerações de soldados que são constantemente incorporados aos contingentes. Greves que apesar de serem corporativas, bem ao agosto do modelo sindical, como as que observamos no momento, não deixam de ter um potencial explosivo, à medida que mexem com setores articulados do capital, causando insegurança, pavor e medo.

Nesse sentido, identificando a possibilidade de aprofundamento das contradições apontadas e percebendo o caráter potencial que movimento exibiu é que nos colocamos em posição de solidariedade às reivindicações salariais e rechaçamos a imputação de represálias e/ou retaliações aos grevistas da Polícia Militar.


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