Os Movimentos Sociais Que Florescem no Brasil: Uma Breve Análise

Protestos-Rio-de-Janeiro

A Oposição Operária/Germinal saúda e apoia de forma irrestrita os movimentos sociais que florescem no Brasil desde o dia 13 de junho de 2013 e rechaça e repudia a maneira covarde e violenta como a polícia tem atacado os manifestantes assim como a manipulação dos órgãos de comunicação, com ênfase para os canais de TV, que tentam a qualquer custo desvirtuar e criminalizar as manifestações. Com tais manifestações, a população brasileira entra em conexão com o resto do mundo, que ao exemplo dos países do norte da África e ainda da Grécia, Turquia, Espanha, EUA, França e tantos outros, vão às ruas, ocupam as praças, expõem as suas bandeiras de luta, reivindicações e ensaiam novas formas de luta e de organização, tal como ocorreu na Praça Tahrir no Cairo, na Praça del Sol em Madri e mais recentemente na Praça Taksim em Istambul.

Mas, no Brasil, o que querem as massas que foram às ruas e avenidas de mais de uma centena de cidades? O programa que emana das ruas é simples e está sendo colocado de maneira clara. Coloca como exigência central um programa socialista, só que, como as massas ainda não podem perceber o alcance de suas exigências, elas o reclamam sob o véu de um reformismo impossível.

Isto porque, exigem os manifestantes a liberdade para se expressar e para lutar; mas estão dizendo isso apenas superficialmente, sendo necessário que se diga que estão verdadeiramente exigindo isso: a liberdade para lutar pela vida; ainda, cobram direitos iguais, direito a ganhar uma melhor remuneração por seu trabalho, direito à comida, saúde, educação, emprego e segurança pública; colocam os insurgentes, no centro de suas reivindicações, por conseguinte, o fim dos privilégios políticos e da corrupção.

Mas, o que reclamam as massas é impossível de se conseguir no interior de uma sociedade capitalista, ou seja, tais bandeiras, que estão colocadas nas ruas, são só possíveis de se alcançar fundamentalmente com uma revolução. Uma revolução que as coloque em prática.

Entretanto, o que leva as massas de volta às ruas em locais tão distintos do planeta, inclusive no Brasil? Em uma palavra, a crise. Nos escritos que o Germinal vem publicando e nos debates que a Oposição Operária vem participando, temos insistido em que essa crise não é qualquer crise, ela é “a crise”.

Temos posto em relevo que a crise atual poderá substituir ou mesmo gerar, pela sua natureza, extensão, duração, profundidade e força, a partir das contradições que exalam do seu interior, guerras entre posições imperialistas, enquanto decisivos fatores de desestabilização da governabilidade e da sociabilidade de nações inteiras, fazendo soprar “os ventos da mudançai.

Identificamos, a priori, que a vigente crise capitalista, pelo seu caráter, extensão, duração e por ser crônica e irreversível e, ainda, pelo atraso das massas, sobretudo o da classe proletáriaii, não poderá seguir um curso linear na sua dimensão sócio temporal, mas, antes, um curso aproximadamente senoidal – não numa forma matemática, evidentemente, mas através de ciclos sem uma ondulação rigorosamente regular, por ciclos, como tendência, porém com durações e espaçamentos.

Características estas derivadas de fatores sociais de várias ordens, cujos contornos precisos não podem ser fixados de antemão, já que inexistem condições objetivas e subjetivas para uma sustentação linear do referido processo.

Por outro lado, viemos afirmando, com igual insistência, que essa crise desembarcaria no Brasil de modo particular, trazendo na sua bagagem todo um arsenal, constituído de efeitos, causas, determinações e aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais, ideológicos e ecológicos deletérios que uma crise crônica, sistêmica e universal como esta é capaz de portar.

Em outras palavras, a crise do capital no Brasil já se manifesta com uma gravidade tão intensa quanto como ocorre nas economias mais atingidas no mundo.

As razões são conhecidas: primeiramente, o Brasil possui uma estrutura econômica oligopolista responsável por uma das mais regressivas distribuições estruturais da renda do planeta; distribuição estrutural esta que nenhum esquema governamental de distribuição de quinquilharias assistencialistas e populistas, feitas apenas para tapear as camadas dos sans-culottes brasileiros, é capaz de anular, quanto mais alterar sólidas posições de classes numa estrutura rigidamente inviolável.

Soma-se a esse aspecto da distribuição da renda no país, que responde por uma das maiores taxas de lucro e, dessa forma, também por um dos mais elevados graus de exploração da mais-valia, uma segunda razão, o de possuir uma das mais sufocantes políticas tributárias e de arrecadação fiscal do cenário mundial, bem entendido, quando apontadas para os salários e para as pequenas rendasiii.

O terceiro motivo que ao nosso entender deverá fazer com que a crise mundial, na sua versão social, nasça ou renasça no Brasil com desmedida força, pertence à ordem das superestruturas, pois diz respeito à cultura política com a qual as chamadas “elites” brasileirasiv acharam-se no direito sagrado e, por assim dizer, perpétuo, de tratar o gentio pátrio com a maior falta de respeito, com o mais absoluto desdém, com a maior torpeza e falta de sensibilidade no trato aos graves problemas impostos às massas; certamente por se sentirem seguros de que a impunidade que eles mesmos erigiram jamais seria cobrada.

Além disso, identificamos ainda uma quarta razão crucial para o particular desenvolvimento da crise no Brasil que é a de que o proletariado brasileiro nunca pôde, a rigor, dispor, durante toda a sua existência, de uma direção revolucionária total e exclusivamente sua; fato este que contribuiu sobremodo para o atraso da sua consciência de classev.

Assim é que curso não linear do aprendizado da classe operária no Brasil e, de um modo geral, do povo brasileiro, oriundo do curso não linear da crise, não deve esquecer essa larga experiência passada – e ainda presente – de manipulação dos seus próprios interesses, assim como deve aprofundar e enriquecer esta fase atualíssima, na qual o povo, fazendo uma síntese de todo o aprendizado pelo qual historicamente passou, sai às ruas, finalmente, dando um basta, exigindo respeito e afirmando, mesmo que ainda limitadamente, a sua autonomia.

Mas tal aprendizado, que fique claro, que teve uma aceleração inusitada com esta demonstração monumental, apenas se encontra em seu início e ainda porta muitas falhas, erros e equívocos, imaturidade, defeitos gritantes no âmbito da organização, inclusive nas táticas de enfrentamento das forças de repressão, sem falar da necessidade imperiosa de formação de novas lideranças.

Tais novas lideranças deverão ser recolhidas no meio da luta e acostumadas a prestar contas aos liderados que dirigem e dirigirão, porque um movimento de massa sem direção, sem noção de rumo e organização, é um prato feito para os reacionários, para os espertalhões da política oficial e também para as forças policiais de repressão.

Em verdade, esta luta teve apenas o seu primeiro round. Uma luta na qual os lutadores ainda se encontram na fase em que começam a se estudar para se conhecer, a medir forças.

Com efeito, a luta anunciada deverá cumprir-se por ciclos e estamos teórica e empiricamente convencidos de que estamos acabando de atravessar o primeiro desses grandes ciclos; estágio inicial que não pode ser varrido do mapa, como, aliás, era a intenção de alguns dos mandatários da nação e nem, por outro lado, deixar de ter delineados os seus contornos e entrar em seguida em um refluxo temporário.

Isto tudo devido às circunstâncias em que essa movimentação das massas se apresenta, como, por exemplo, o seu gigantismo, que ultrapassa a soma um milhão de pessoas em todo o país, e, sobretudo, por não poder ser permanentemente sustentado ou avançado pela classe média, diante os seus próprios limites intrínsecos, que é quem até aqui está caracteristicamente carregando-o e dando-lhe o seu selo ufanista e conciliatório.

O necessário refluxo temporário que está porvir obedece a determinações estruturais, mas também aos apelos ideológicos do Estado e da Mídia, como a insistência da reivindicação “pacífica, ordeira e civilizada” e pela divisão “natural” do movimento entre os “cidadãos” e “baderneiros e vândalos”; como se um genérico e oportuno conceito de vandalismofosse capaz de resumir um contexto em que amplos segmentos populares, enfurecidos pela mentira, desespero e desesperança, recorrem à violência como forma de se fazer ouvir.

Ora, em tal contexto, se por vândalose entende aquele quem depreda o patrimônio público ou privado, então por que não também etiquetar enquanto vândalos as quadrilhas que espoliam muito mais, com desfalques, desvios de verbas e falcatruas das mais criativas, o patrimônio encerrado nos cofres públicos que deveria ser destinado à atenção dos pobres e trabalhadores?

E que estranha noção de violência é essa que enche a boca da grande mídia, que iguala a polícia e os seus provocadores, infiltrados nas manifestações, aos estudantes, trabalhadores e desempregados, que estão à mercê de um insuportável grau de exploração, que recorrem à violência insurrecional por não ter outro meio de se contrapor à violência burguesa?

Ainda assim, a grande mídia tenta a todo custo convencer aos insurgentes a enfrentar com flores, beijos e abraços a estrutura repressora capitalista e a sua violência fascista institucionalizada, que, por sua vez, nunca medirá violência para manter a ordem burguesa, como demonstram os recentes movimentos em todo o mundo, vítimas das mais brutais formas de repressão.

O que é cuidadosamente silenciado pela grande mídia é que esse tão insistentemente denominado “vandalismo” do manifestante é em grande parte um reflexo próprio e indissociável da exploração desmedida, da violência estrutural de que é vítima; que está o insurgente, ainda que parcialmente ou mesmo inconscientemente, a extravasar o ódio acumulado por toda uma vida, quando lança mão de tais atos em face de instituições simbólicas da dominação burguesa, como os bancos, a polícia, as assembleias, os fóruns e as casas do governo.

Esperamos, então, com esta nota, contribuir para a consonância e integração das manifestações de todo o mundo e por fim, deixar claro que, apesar das massas, nesse exato momento, ainda não perceberem o alcance do programa que levam às ruas, é de extrema importância que haja a insistência da luta, pois, só assim aprenderão os insurgentes, através das negações que o sistema burguês lhes imporá.

É evidente que a ordem capitalista não pode nos dar aquilo que reivindicamos, mas apenas aquelas bandeiras mínimas, como a redução no custo das passagens do transporte público e plebiscitos sobre reformas desprezíveis de um sistema político podre por natureza, apenas migalhas frente às necessidades das populações e possibilidades materiais existentes, mas nunca cederão pacificamente às mais importantes bandeiras, como a gratuidade de tudo o que é necessário e de todos os serviços públicos e a gestão popular de todos os meios da vida coletiva.

O resultado do acirramento desse processo atual, nestes termos, deverá ser a retomada da consciência da classe proletária e a emergência de um projeto socialista, nos próximos rounds, quando estivermos mais preparados e à altura do programa que aflora diretamente das ruas.

Junho de 2013.

Oposição Operária.

________________________

i Tradução Livre. “Scorpions. Wind of Change. Crazy World: 1990. Mercury Records”.

ii A classe proletária, entre as que compõem o todo diferenciado da massa do povo, pelo caráter de classe que lhe é imanente, é a única que detém a faculdade potencial de assumir a direção de um projeto revolucionário de emancipação social de si e de toda a humanidade, mas se encontra atualmente numa situação de atraso que requer, por óbvio, todo um processo de aprendizado, que efetivamente só está tendo início agora, no Brasil, exatamente com tais experiências em curso, dos Protestos de Junho deste ano de 2013, mesmo que não tenha esta classe, contudo, contado com o benefício de uma direçãoproletária nas movimentações.

iii Mas, sublinha-se, no caso do capital dos grupos monopolistas e oligopolistas do agronegócio, do comércio, da indústria, notadamente, da automobilística e, sobretudo, das finanças, aí sim, a conversa é outra: gordas isenções fiscais e financeiras, transferências de recursos financeiros sem nenhuma contrapartida de qualquer natureza, além da cessão, a título de “estímulo”, de galpões, água, energia, portos, terrenos e outras regalias como se a toda poderosa Ford Motor Company Brasil necessitasse de tantos brindes como os que lhe foram gentilmente ofertados pelo “saudoso” vice-rei da Bahia, o até ontem sempre lembrado Antônio Carlos Magalhães, para os íntimos o “Côxo”, na versão do espirituoso autor satírico baiano.

iv Fazendo uso eventual do senso comum, reunimos dentro dela, a “elite”, empresários capitalistas, políticos e influentes intelectuais da ordem, isto é, todos os que mandam ou pensam que mandam nos destinos da sociedade brasileiras.

v As mais diversas aparições nesse sentido, em relação ao atraso no desenvolvimento de uma consciência de classe eminentemente proletária, só têm contribuído com a atual emergência da necessidade de tal expansão da consciência de classe para si; atraso este que, tendo início em 1922 com a inauguração de um projeto reformista nacional-burguês, seguiu curso por variadas formulações igualmente problemáticas, que incluíram desde o foquismo, de inspiração guevarista, passando pelo conceito da guerra popular, com o cerco da cidade pelo campo, notadamente maoísta, até, recentemente, concepções “pós-modernistas”, que falam abstratamente do proletariado, mas que na prática estão de olho mesmo é na disputa eleitoral e na ocupação de cargos no Estado, de toda maneira com uma convivência e um comprometimento tão íntimos com os agentes, os símbolos e os valores burgueses que não é tarefa fácil distingui-los uns dos outros. Desde, portanto, a inauguração, em 1922, até a emergência das mais diversas combinações de reformismo putchista, surgiu, afinal, algo novo, como um partido, finalmente de trabalhadores e dirigido por trabalhadores e intelectuais comprometidos com os trabalhadores. Deu no que deu. Quem não estava ali para se divertir, tratou logo de sair, com denúncia e marcando posição; quem, no oposto, estava ali à “procura de encosto” por lá permaneceu, de alguma forma conciliando com a construção do maior engodo da história dos trabalhadores no Brasil. Há também os que optaram por seguirem os caminhos da dependência às instituições oficiais, por fora do Partido dos Trabalhadores. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s