Que nem “Urubu na Carniça”!

Se existem, de fato, três espécies de animais sobre os quais as ideologias do preconceito transferiram para elas as piores pechas colhidas no imaginário popular — no que esse imaginário, resultante da influencia do ideário de todas as classes dominantes desde o Brasil colônia até o Brasil atual, “civilizado”, industrializado e “globalizado”, tem de pior, vale dizer, de expressão de um senso comum rebaixado até o extremo da mais vil degradação humana —, essas três espécies dos “nossos irmãos” são o bode, o jegue, jumento (ou, para as expressões mais refinadas da classe média bem pensante, o “jerico”) e o urubu. Nem é por puro acaso que se abatem sobre eles as mais duras penas do tratamento preconceituoso: trata-se de figuras autenticamente populares, que nunca deixaram de co-participar dos sofrimentos, provações e privações (des)humanas de seus velhos parceiros, homens e mulheres das classes mais populares do Nordeste brasileiro.

Se bem que o popular jegue, ou jumento, tenha tido o privilegio de ser homenageado por um gênio da literatura musical — a referencia é clara: trata-se nada mais, nada menos, do que Luiz Gonzaga, que o chamou, numa de suas canções, de “nosso irmão”— a verdade é que os generosos e sinceros elogios dispensados pelo velho Lua a esse “nosso (e nobre) parente” não conseguiram sustar o desprezo e a decadência que se abateram sobre o popular “manhoso”, que, aposentado de sua secular folha de serviços, praticamente sumiu da sociabilidade nordestina, seu habitat natural entre nós, depois que a “pós-modernidade” capitalista obrigou ao nosso jegue a bater em retirada à medida que foi sendo sistemática e rapidamente substituído pela bicicleta e pela motocicleta.

Segue que o jegue, sem qualquer correlato ao que seria um “plano de saúde equino”, sem uma justa “aposentadoria”, “direito trabalhista”, “assistência social” ou similar (não consultamos nenhum deles, mas, dado a que seu nível de exigência alimentar é muito baixo, nos atrevemos a adiantar, em seu nome, que um pasto com um mínimo de uma “brachiaria” qualquer, com apenas uma razoável capacidade de suporte, seria de bom tamanho para que o nosso amigo pudesse ter um resto de vida digno de um dos símbolos dos sertões nordestinos) deixando-lhe tão somente uma ou, no máximo, duas opções como destino: ser abatido por empresas capitalistas para exportação de “carne de cavalo” ou viver o resto de sua vida como sucata, pastando pastos sem capim, submetido a um processo similar ao de nosso irmão humano, o “trabalhador precarizado”.

No caso do bode não aconteceu coisa melhor. Esse animal, extremamente inquieto, boliçoso, habilidoso, inconformado e um intrépido trepador de lajedos, árvores, encostas e terrenos acidentados, pagou caro por ser possuidor de tais qualidades e atributos. O nosso bode, com a sua parceira, a cabra, receberam, do mesmo senso comum rebaixado e numa comparação com o carneiro, e parceira respectiva, a ovelha, títulos pouco invejáveis. Uns o encararam como representantes —ou a própria encarnação—, do Diabo, ao passo que ao outro, porque caído nas graças da Igreja, passava a representar os “queridinhos” de Deus, daí títulos como “o cordeiro de Deus”, a “ovelha de Deus”, deixando uma ou duas únicas exceções, que confirmam o preconceito (como regra geral), de ser a “ovelha negra” da família para designar todo e qualquer ousado que deseje trilhar caminhos opostos que estejam na contra-mão das regras impostas de convivência social. Quando o infeliz do bode nasce preto, sem remédio passa a ser persona sem par em todas as modalidades de magia (de novo …) negra! De tal maneira que uma horda qualquer de homens e mulheres sem caráter passou a ser chamada de “cabroeira”, embora não se tenha noticia de bando algum de cabras que tivesse atitudes de “maucaratismo”, até porque não faz sentido atribuir a animais, mazelas que as sociedades de classes inculcaram nas pessoas (seres humanos).

E o nosso urubu, terá tido destino melhor? Sempre na base do senso comum, quando alguém quer agredir uma pessoa negra, chama-o de “urubu” simplesmente, ou
”urubu de coqueiro” ou “gari sertanejo” se é homem, “filhote de urubu”, se é criança. Se se trata de negro retinto, se lhe chamam de “tinta forte”, se se trata de um negro nascido de um ato sempre isolado e raro de miscigenação, não tem jeito, é “tinta fraca”. De maneira que se esquecem de que o urubu, como as pessoas que são agredidas moralmente, de modo injusto e injustificado, em seu nome merece todo o nosso respeito. Não basta que esse animal, que trabalha, sempre “na dele”, sem mexer com ninguém, como um autêntico ambientalista moderno, nunca foi lembrado por nenhum artista plástico, poeta, escritor ou compositor, quando não por outros motivos, nem sequer pela enorme folha de serviços que dispõe em favor do nosso “homem do campo”, como se diz. E, no entanto, toda vez —o que constitui aparição rara, que pode ser contada de dedo—que o urubu tem a chance de sugerir ou de aparecer numa obra de arte feita por gente séria, como nessa autentica obra prima do cinema nacional, Cinema, Cafiaspirina e Urubus”, pode-se esperar por uma obra de valor incontestável, como é o caso do filme atrás citado.

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