A Lógica da Guerra

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“A guerra é, pois, um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se a nossa vontade.”

“A guerra é uma simples continuação da política por outros meios.”
(Carl Von Clausewitz – Da Guerra)

Mais uma vez, uma nova ameaça de guerra ocorre no mundo. Agora, o palco onde se prepara a encenação da peça sangrenta parece estar localizado na Ucrânia. Mas, por que será que isso ocorre em curtos períodos de tempo? São conflitos bélicos que se processaram no Iraque, nos Bálcãs, no Afeganistão, entre outros, envolvendo, na maioria das vezes, os principais países beligerantes do mundo, em especial, os EUA e a Rússia.

O fato é que as maiores potências militares imperialistas não têm poupado esforços no sentido de garantir a supremacia e seus interesses em regiões estratégicas do planeta, nem que para isso corra rios de sangue de homens, mulheres, idosos e crianças que, de uma maneira geral, acabam sendo massacrados nas guerras de rapina do capital, ou mesmo, em guerras civis localizadas a exemplo da Síria.

O que está por trás, na verdade, do extermínio de massas humanas não é tocado em profundidade pelos meios de comunicação, pelos institutos formadores de opinião, tais como as escolas, as universidades, sindicatos e partidos políticos. Querem, na maioria das vezes, transformar motivos realmente pertinentes em manipulações grosseiras de interesses que não aparecem de forma explícita, quando da construção de propostas e projetos políticos do imperialismo. Passa-se a ideia, com mais ênfase, que a guerra ocorre ou tende a ocorrer devido ao estado de humor deste ou daquele presidente, ou de uma pretensa antipatia com um ou outro governante.

Neste momento, o que está por trás da ação dos EUA e Rússia é uma reprodução de conflitos bastante localizados, que a guerra com sua lógica vem encerrar e resolver por outros meios, ou seja, tentar dar cabo das contradições permanentes do capitalismo, o seu desenvolvimento, seu desiderato, bem como a sua sobrevivência. Trata-se de um mundo que, além da divisão social do trabalho e das classes antagônicas em luta – a burguesia e o proletariado –, amarga, hoje, uma simultânea e generalizada crise econômica de longa duração com sinais de exaustão, inclusive, das fontes energéticas que possibilitam o funcionamento das principais locomotivas do capital.

Nunca é demais salientar que, para os EUA e para a Rússia, uma das principais fontes de energia, e importante mercadoria de troca comercial, é sem sombra de dúvidas o petróleo. Na Rússia, por exemplo, mais de 70% das exportações e 30% do PIB são de petróleo e derivados, mesmo em um mundo que corre atrás de alternativas à combustão movida a óleo diesel, gasolina e querosene, mesmo quando pequenas experiências de energia alternativa não são devidamente exploradas e sim postas de lado devido aos interesses econômicos de grandes trustes imperialistas.

O poder hegemônico, de 1800 a 1900, se baseou na energia do carvão mineral, com a tecnologia da máquina a vapor drenando as águas das minas. A Inglaterra tirou exaustivamente proveito dessa situação. Porém, de 1900 aos dias de hoje, a matéria- prima principal do mundo se alicerçou no petróleo e teve no motor de explosão (automóvel, avião) sua principal fonte de energia. Esse novo setor da produção capitalista se constituiu em uma das principais arrecadações de mais-valia e consequente arrancada para a acumulação de capital. Foi a vez, portanto, dos EUA se destacarem. Devido às condições objetivas em que se firmou o seu parque industrial produtivo, tornando-se o principal usuário de combustível fóssil, houve a possibilidade desse país desenvolver uma política militar e comercial agressiva, no que se refere ao controle das principais reservas de petróleo; isso tudo com a incrível capacidade de assassinar seres humanos, conforme se vê pelas sucessivas intervenções no mundo.

PRINCIPAIS OBJETIVOS DOS BELIGERANTES

Após o bombardeio da população civil afegã, motivado por uma pseudo caça ao terrorista árabe Osama Bin Laden, que contou com o apoio das forças talibans, os EUA acabaram por conquistar mais um posto avançado de comando no tabuleiro desse jogo de xadrez, que não está isento de qualquer juízo moral, mas pelo contrário, deve-se ir para o banco dos réus no futuro tribunal dos povos oprimidos de punição dos criminosos de guerra. O povo afegão, que já havia sofrido uma ocupação da ex-URSS em seu território – com certeza, por motivos bem menos relatados, mas que de nós bastante conhecidos –, sofreu, mais uma vez, o impacto das forças imperialistas e de seu cruel e sangrento massacre. Isso só foi possível devido à aliança que se estabeleceu entre a CIA, grupos guerrilheiros formados por proprietários de terras que foram atingidos pela reforma agrária do governo pró-Moscou, em final dos anos 70 e início da década de 80 do século passado, e, ainda, os países da OTAN, Israel e Arábia Saudita. As ajudas dos EUA às forças contrárias a ex-URSS, em 1985, somaram o montante de 1 bilhão de dólares por ano. Contava ainda os EUA com a ajuda do nacionalismo e o fervor religioso.

Durante dez anos, os guerrilheiros afegãos armados pelos EUA destruíram 2.000 escolas, 31 hospitais, dezenas de empresas, várias centrais elétricas, 41.000 km de vias de comunicação, 906 cooperativas de agricultores, dentre outras barbaridades. O interesse maior do imperialismo norte-americano, com tal varredura e enfraquecimento da economia e o apoio incondicional às forças que combatiam os russos no Afeganistão, era o mesmo quando apoiou a guerra separatista na Chechênia, ou seja, afastar a Rússia das abundantes jazidas de petróleo do Mar Cáspio. A perda do controle sobre a Chechênia tiraria dos russos o principal oleoduto que sai da região e abriria caminhos para a exploração dos poços pela empresas inglesas e norte-americanas. Portanto, no que diz respeito aos impérios diretamente envolvidos, a guerra por conta disso se traduz em um meio necessário para reafirmar o poder no mundo e tentar estabelecer, em bases mais favoráveis e duradoras, o controle sobre as reservas de petróleo e gás natural no mundo e, em especial, na região do Oriente Médio e do Mar Cáspio.

Os dados referentes à quantidade do potencial energético armazenados nas reservas de combustíveis fósseis do planeta apontavam o seu esgotamento em cerca de 2/3 até 2020, o que tem levado, inevitavelmente, a um acirramento da corrida energética pelo controle das fontes naturais. Para se ter uma ideia do que isso significa, por exemplo, caso os EUA tivessem que contar somente com as reservas existentes em seu território, esse país não teria petróleo suficiente por muito tempo para atender a sua demanda interna. Tais dados, é claro, precisam ser atualizados à luz da descoberta de novas reservas no mundo.

A maioria do petróleo importado atualmente pelos EUA vem da Arábia Saudita, o que não deixa de trazer insegurança a eles devido a qualquer oposição àquele país, tanto interna quanto externamente, pois é ainda o principal aliado norte-americano no mundo árabe. Não é à toa, portanto, que os EUA mantêm uma política por demais agressiva na região de maior produção de petróleo no mundo e não dá sinais de que isso possa arrefecer, haja vista o Afeganistão, o Iraque, a Palestina, a Síria etc.

Já quanto ao Irã, tido como a bola da vez, apresenta neste momento, após muita controvérsia e ofensivas mútuas, uma política de reaproximação, o que não deixa de preocupar a Arábia Saudita. Mas, a singularidade reside no fato de que as empresas de capital francês fizeram pesados investimentos e se associaram à Rússia na exploração das jazidas do Mar Cáspio. Essa aliança permite à Rússia controlar direta e indiretamente um território que inclui as regiões produtoras do Cáucaso (entre elas a Chechênia) e de boa parte da Ásia Central.

Além disso, dois “novos” personagens, China e Japão, estão fazendo suas aparições na disputa de interesses na Ásia, não só pelo controle da região, mas, também, pela busca de se destacarem como impérios econômicos mundiais. Apesar de China e Japão serem geridos pelas leis do capitalismo, eles possuem, também, interesses conflitantes com o carro chefe da economia mundial, muito embora a força do capital norte-americano nesses países seja de fácil verificação, o que acaba por inibir, momentaneamente, uma ação mais avassaladora por parte desses setores do capital. Assim, além de estarem sujeitos à lei da crise, conforme demonstrou Marx em “O Capital”, tais países não estão seguros no que diz respeito à estabilidade geopolítica global.

Assim, os empecilhos veiculados pela mídia de que diante da crise econômica não haveria condições de serem deflagradas guerras pelo mundo afora já caíram por terra há muito tempo; o que se vê é o apoio incondicional de parlamentos e governos às ações beligerantes. A guerra, dessa forma, além de ser uma corrida pelo controle energético e de ampliação dos mercados, acaba por ativar um setor produtivo que passa despercebido pelos analistas da conjuntura econômica e política.

De fato, questão objetivamente concreta como a exploração do petróleo no Alaska, que demandaria a construção de um oleoduto com custo mínimo de 20 bilhões de dólares – além da forte pressão dos movimentos ecológicos –, acabou por combinar com a ação militarista do Estado norte-americano em se apossar pela força das riquezas de outro país. A estratégia dos EUA na campanha contra o Iraque é um bom exemplo. A invasão àquele país foi justificada pela necessidade de depor o governo de Saddan Hussein, dito produtor de armas químicas e biológicas de destruição em massa – porém, um ex-colaborador da CIA –, e de colocar em seu lugar um general norte-americano, tal qual aconteceu no processo de rendição do governo Japonês na Segunda Guerra Mundial.

Ao que tudo indica não se poupará nenhuma área rica do planeta em matéria energética e de combustíveis fósseis, como é o caso, por exemplo, do México, um país com abundância em petróleo e urânio. É do interesse do capital imperialista norte-americano (mas não só dele) que essa região passe a compor as suas reservas energéticas.
Numa visão antes tida como futurista, os EUA desenvolve ainda, de maneira estratégica, a exploração aeroespacial, ou melhor, a produção aeroespacial, setor econômico em que reina quase absoluto, e que, neste momento, cumpre um papel também militar.

A LÓGICA DA PRODUÇÃO BÉLICA

A indústria armamentista, desde a década de trinta do século XX, tem desempenhado papel importante na economia imperialista. Essa tendência não possui nenhum indício de diminuição em futuro próximo. Observa-se, pois, um fenômeno que se trata, na verdade, de uma das características do capitalismo em geral e do capitalismo norte-americano, em particular. Tal fenômeno não apresenta nada de novo em se tratando de produção de armamentos, pois já desde o século XV ao século XVIII foi uma das principais fontes de acumulação primitiva e uma das mais importantes parteiras do capitalismo, como coloca Marx em “O Capital”. Enquanto estímulo para acelerar a industrialização ou ampliar o mercado capitalista, as despesas com armamentos e guerras tiveram importância durante toda a história moderna – do capitalismo em particular.

Depois de o início da era imperialista, as despesas militares também contribuíram, substancialmente, para acelerar a expansão da produção nos 20 anos que precederam a Primeira Guerra mundial. O gasto dos principais países imperialistas, no período de 1901 a 1914, passou de quatro bilhões de dólares-ouro para 13 bilhões no período de 1945 a 1955 . Ernest Mandel afirma que os EUA investiram de forma pesada em armamentos no período de 1939 a 1971, tendo aumentado significativamente em épocas de acirramento dos conflitos bélicos posteriores .
A média anual de gastos militares a preços constates, entre 1950 a 1970, calculada a partir de dados nacionais do PIB, era de 6,2% nos EUA, 3,9% no Japão, 1,3% no Reino Unido, 4,2% na França, 5,8% na Alemanha Ocidental e 4,1% na Itália (1951 a 1970). Precisa-se, entretanto, investigar de maneira mais detalhada os efeitos dos gastos militares sobre o desenvolvimento da economia capitalista. Segundo Mandel (1982):

Talvez o método mais seguro seja analisar a dinâmica das mais importantes contradições internas, ou dificuldades de desenvolvimento, do modo de produção capitalista à luz de um orçamento militar permanente e vultoso. Para isso, é necessário transformar o esquema de Marx, que opera com dois setores – Departamento 1: meios de produção; Departamento 2: bens de consumo – num esquema com três setores, acrescentando a esses dois departamentos um terceiro, que produz os meios de destruição. Fazemos essa distinção porque o Departamento III, ao contrário do I e II, produz mercadorias que não entram no processo de reprodução dos elementos materiais da produção (substituindo e ampliando os meios de produção e a força de trabalhos consumidos) e, também, porque não são intercambiáveis com esses elementos, como acontece, por exemplo, com as mercadorias de consumo absorvidas improdutivamente pela classe capitalista e por aqueles que a servem.

O que ocorre nessa estrutura lógica do setor de armamentos é uma reprodução regressiva e destrutiva, o que faz dar a esse esquema proposto uma força necessária a ser incorporada ao método de estudo das economias capitalistas, em que deverá ser observado, ainda, o quantitativo essencial para a manutenção do capital em suas operações de guerra no mundo.

O RECURSO IDEOLÓGICO

Há muito tempo a burguesia teima em caracterizar de “terrorista” qualquer ação que parta das forças políticas contrárias ao seu domínio. Isso ocorreu, e continua ocorrendo, nos momentos em que os governos imperialistas se viram ameaçados, mesmo que de maneira superficial, pelo que se entendeu como “comunismo”. Na verdade, as experiências de revoluções acabaram sendo abortadas pela ascensão ao poder de Estado do stalinismo e suas derivações, como o maoismo na China, o castrismo em Cuba etc. Portanto, essas experiências não podem ser caracterizadas e/ou confundidas com o verdadeiro ideal comunista, pois não houve a superação das contradições inerentes ao modo de produção capitalista.

Enquanto persistir na sociedade atual a exploração de classe, através da extorsão da mais-valia, com a qual os capitalistas realizam o seu lucro – que, por sua vez, lhes proporciona capital suficiente não só para desenvolver o seu modo de produção, como para usufruir de todas as esferas de mordomias e ostentações, a custo do massacre de grande parte da população trabalhadora –, a luta pelo socialismo e o comunismo está, portanto, na ordem do dia. É fundamental entender o nazismo, o fascismo, o franquismo, o salazarismo e as ações do imperialismo no mundo de hoje, para se combater a face brutal da burguesia. Faz-se necessário um amplo movimento que barre a irracionalidade, nem que para isso haja um endurecimento também da ação dos movimentos realmente sérios e que tenham a perspectiva de um mundo solidário e verdadeiramente humano.

Os métodos utilizado pelo terrorismo, quer seja de grupos nacionalistas, religiosos ou pelo Estado capitalista propriamente dito, são essencialmente diferentes e antagônicos à luta socialista. É preciso deixar claro que não se realizará transformação social alguma sem a resistência organizada, só que ela será exercida pela maioria da massa dos trabalhadores, desta vez contra uma minoria exclusivista que se mantém no poder de Estado nos principais países do mundo, devido à fragilidade em que se encontra o movimento operário neste momento de aprofundamento da crise econômica em escala internacional.

Portanto, neste momento em que a Rússia ameaça ocupar a Ucrânia, numa conjuntura de estagnação econômica daquela economia, com saída de capitais das grandes fortunas feitas por burocratas corruptos do governo, os quais não confiam mais na estabilidade do regime, o conflito bélico não deixa de ser descartado, mesmo porque é um mecanismo para se garantir posições estratégicas conquistadas, bem como uma saída para setores do capital. É assim que a conjuntura prepara novos desdobramentos para que outros agentes históricos possam atuar: os trabalhadores.

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