Comitês Revolucionários e Conselhos de Trabalhadores

Neste momento, por conta do aprofundamento da crise do capital, de seu correlato movimento de acirramento das contradições internas – inerentes a sua lógica de acumulação e funcionamento – tem ocorrido gigantescas mobilizações de massas a nível internacional. Já de algum tempo sendo despertadas, devido ao barulho ensurdecedor infernal das medidas anti-crise, postas em ação pelos Estados capitalistas no mundo. Isso suscitou levantes de massas de cunho radical na Grécia, na Espanha, no Egito, na Tunísia, na Turquia, no Brasil, dentre outros. Estas experiências, por demais importantes que sejam – e de fato elas são fundamentais para o aprendizado das massas – devem ser vistas e articuladas, ainda, com formas de organizações e lutas mais importantes criadas historicamente nos principais ensaios do proletariado moderno: a Comuna de Paris e a Revolução Russa.

Em 1871, os trabalhadores e a população de Paris tomaram de assalto o poder e instalaram, nesta cidade, uma nova forma de organização estatal e de gerenciamento administrativo do bem público. Muito embora esta experiência tenha se limitado a uma cidade, não conseguindo expandir-se pelo restante do país, o que fez com que a classe dominante do antigo regime se rearticulasse e imprimisse um verdadeiro banho de sangue nas forças dos comunardos. Foram, nada mais nada menos, que 17.000 execuções por fuzilamento, 13.400 condenações, dentre as quais 80 crianças e 132 mulheres. Foram 270 penas de morte, 410 condenações a trabalhos forçados, 322 exilados e o restante, deportado ou preso. Isso veio demonstrar o verdadeiro ódio de classe da burguesia e das forças da repressão.

Na Comuna de Paris, viveu aquela população de explorados e oprimidos uma inusitada experiência de democracia e de controle operário do poder político – poder de um novo tipo, como irá Marx analisar no seu estudo “A Guerra Civil em França” – pois este, ao mesmo tempo em que se constituía em um amplo movimento democrático das massas revolucionárias, deveria, também, ser um fator de desestabilização das forças contrarrevolucionárias e dos exércitos da reação burguesa. Deveria, de fato, estabelecer-se como uma ditadura revolucionária do proletariado insurreto, ditadura para os capitalistas reacionários e a contrarrevolução, ao mesmo tempo, democracia ampla para as massas. O que diferencia a ditadura de classe da burguesia quer seja na sua forma ditatorial fascista ou na dita democracia parlamentar burguesa, em comparação com a ditadura do proletariado, que é o seu inverso, é justamente o fato de que numa o poder está na mão de uma minoria parasitária da sociedade e, na outra, o poder é exercido de forma direta, plena e democrática na maioria da população laboriosa, que unifica as funções legislativas e executivas do Estado de forma classista e de maneira auto-emancipadora.

A Comuna foi a primeira tentativa de se estabelecer, no mundo um Estado operário, uma verdadeira instituição de homens livres. Ela, entretanto, foi uma experiência deficitária devido a uma série de fatores de ordem política, organizacional e de perspectiva estratégica, no que se refere à construção de um Estado proletário de novo tipo. Mas, nem por isso, se podem esquecer as lições que a Comuna deu à luta do proletariado internacional e que, mais tarde, será retomada em outros movimentos revolucionários, em especial a Revolução Russa, como também deverá ser retomada em muitos aspectos desta experiência, quando e onde estiver colocado o enfrentamento com o Estado capitalista, em defesa do socialismo e do comunismo, ou melhor, em todo processo da luta de classes.

O desenvolvimento da luta operária entraria num processo de acumulação de forças em vários países da Europa. No entanto, só em 1905, desta vez na Rússia, é que se irá ensaiar novas e significativas experiências: os sovietes (conselhos). Estes surgiram num processo que vitimou centenas de operários, quando da realização de uma manifestação em frente ao palácio do Czar, em que se reivindicava trabalho e pão. Mas o que se encontrou foram as rajadas dos gendarmes, que distribuíram chumbo grosso e passaram na ponta do sabre dezenas de corpos de homens e mulheres explorados e famintos. Estes acontecimentos ficaram marcados para sempre na memória do povo russo. Foi na verdade o prelúdio da revolução socialista, que aconteceria doze anos mais tarde (1917), e que seria, desta vez, dirigida pelo Partido Operário Social Democrata Russo (Bolchevique) através das formas de organizações próprias: os sovietes de deputados operários, camponeses e soldados. Naquele período, o projeto da classe operária, o socialismo, o poder político e a sua forma de Estado, eram uma coisa única e indivisível. Falar em socialismo significava falar em sovietes, falar em poder operário, ou melhor, em ditadura do proletariado significava igualmente falar em sovietes. Forma e conteúdo nunca estiveram tão próximos em toda história do movimento revolucionário moderno, formas que expressavam os interesses objetivos e subjetivos da revolução e da luta pelo progresso comunista da humanidade.

Estas experiências (Comuna de Paris e Revolução Russa) deram ao conjunto do movimento dos trabalhadores, em nível internacional, uma nova perspectiva que, entretanto, acabaria por sucumbir momentaneamente, através da vitória das forças que compunham a contrarrevolução, como também, pelo processo de burocratização que se instalou na URSS. Mas, um dos fatores que atualmente têm sido discutidos pelos significativos expoentes do movimento comunista, é que nestas experiências inexistia um plano previamente estabelecido e desenvolvido de forma científica, no que diz respeito à formação da vanguarda dos trabalhadores, para que esta, inclusive, pudesse exercer de forma plena o poder de Estado, instalando-se nos postos de comando, com um grau de conhecimento vasto, no que se refere ao controle operário da produção.

Na Revolução Russa, verificou-se a inclusão de elementos nocivos nos postos importantes da economia e do poder, através de uma política realizada pelo partido, que acabou por reproduzir, na URSS, os mesmos métodos de direção empregados em qualquer empresa capitalista dos demais países do mundo. Por não existirem em número suficiente no partido, bem como, no conjunto dos sovietes, os técnicos, cientistas, engenheiros e administradores, acabaram retomando seus postos, não só na estrutura econômica, mas também, na máquina do Estado via abertura que se fez no partido bolchevique.

Naquele período, Lênin havia estabelecido que a vitória do socialismo na URSS se daria em cima de uma estratégia que combinava fatores externos com internos, a saber, a vitória da revolução também na Europa, em especial na Alemanha, país dos mais desenvolvidos até então, o que não ocorreu. Como também, um resoluto apoio do campesinato ao Estado operário, o que também não ocorreu de maneira satisfatória, fazendo com que uma Nova Política Econômica (NEP), fosse realizando, dentre outras coisas, concessões ao campesinato, para que, basicamente, estes pudessem exercer atividades capitalistas, minando, assim, desta forma, uma das bases de sustentação da aliança que compunha o poder. Mas, afora estas dificuldades de ordem objetiva concreta, foi na questão política que se verificaram as principais falhas. Com toda a dificuldade que se tinha em edificar o Estado soviético, devido a falta de uma vanguarda educada para a direção do poder de Estado e de todo o processo produtivo é que vai ocorrer uma revocada do processo revolucionário como um todo, até, o estabelecimento novamente do capitalismo.

A militância dos movimentos sociais hoje tem que, necessariamente, se apropriar do conhecimento histórico, em especial, das lutas do proletariado revolucionário internacional, para que, desta forma, possa dar um salto significativo no seu grau de organização e consciência política. Isso vale muito mais do que delongas e mais delongas de discursos batidos e rebatidos, daqueles que insistem em afirmar serem eles os verdadeiros defensores dos trabalhadores. A estes, só nos resta, um combate ferrenho às suas concepções políticas e práticas autoritárias, como, também, um total desprezo pela suas insistências em manipular consciências – com os mais diversos recursos ideológicos que dispõe o capital em crise – mas que servem, muito bem, ao arcabouço da moral burguesa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s