Sobre as Eleições (Jornal Faísca)

A cada dois anos, somos convocados a participar do processo eleitoral. Neste período, propagandas permeadas por promessas tomam quase todo tempo e espaço nas mídias sociais. Os corações de muitas pessoas se enchem de esperança, achando que a disputa eleitoral e a sucessão de parlamentares podem provocar mudanças significativas na sociedade. Para elas, o voto faz grande diferença! Acreditam que a participação na política se resuma à liberdade de escolher entre três ou quatro candidatos com propostas aparentemente divergentes. Seria, então, o Estado capaz de resolver os problemas sociais? A corrupção e a “má vontade” política são mesmo as grandes inimigas da democracia?

A história nos mostra que as desigualdades sociais nunca foram eliminadas com uma simples mudança de governo. Não quer dizer que estas mudanças na política nunca modificaram ao menos pontualmente aspectos econômicos da sociedade. Entretanto, elas não passam de “ajustes” que buscam ampliar e tornar mais eficiente a exploração da classe trabalhadora, bem como contornar as barreiras que impedem a acumulação do capital. Neste sentido, ajustes na direção do Estado podem até proporcionar maior eficiência da sociedade capitalista, impulsionando o crescimento econômico do país. Mas não podemos esquecer que este crescimento se reflete de maneiras diferentes na vida de cada um, atingindo cada classe social de uma forma específica e extremamente desigual.

Quando observamos mais de perto o crescimento econômico, percebemos que aquela história de que “precisamos crescer o bolo para depois dividir as fatias” é apenas uma história, e que a maior parte das riquezas está acumulada nas mãos de poucas pessoas. Quando o governo faz sua propaganda política, é muito conveniente ignorar que nem todo mundo se beneficia. Quem acumula a maior parte das riquezas provenientes da produção do país são os capitalistas, sobrando apenas migalhas para os trabalhadores. Dentro do capitalismo, qualquer partido que esteja no poder, governa, na verdade, para o capital, não importando qual seja o regime político ou a forma de governo.

O Estado é incapaz de solucionar os problemas sociais. Essa incapacidade não é culpa da “má vontade” dos políticos ou mesmo da corrupção. Claro que elas prejudicam a vida social, mas não é a “má vontade” política ou a corrupção que levam o governo a reprimir severamente as manifestações sociais por mais qualidade de vida e as greves dos trabalhadores por melhores salários. Os políticos tomam suas decisões porque este é o seu papel dentro do Estado. As circunstâncias fazem com que eles incorporem as exigências das grandes empresas por vias legais ou ilegais, diante dos constantes assédios de empresários corruptores. Para aqueles que nadam contra a maré, resta o risco de perder apoio financeiro, retirar-se frustrado da política ou dedicar-se honestamente a completa ilusão da luta parlamentar. Por mais que a gente viva sob um regime político chamado de “democracia” – e que este seja muitas vezes confundido com “poder exercido pelo povo” ou “liberdade de escolha” –, ele não se estende, por exemplo, para o ambiente de trabalho. Enquanto acreditamos viver em uma verdadeira democracia política, no dia-a-dia de nossos trabalhos vivemos uma verdadeira ditadura.

Os trabalhadores não têm poder de decisão em um dos aspectos mais importantes de suas vidas, o produto do seu trabalho. Antes de fazer política, os indivíduos precisam garantir o pão de cada dia, pois é a superação de nossas necessidades básicas que nos permite realizar todos os outros aspectos de nossa vida social. O trabalhador não é totalmente livre ao ponto de escolher onde e como trabalhar e negar-se a ser explorado isso significaria a ruína de sua vida material. Somos constrangidos a procurar por um patrão que nos explorem. Afinal, pior do que ser explorado é não ter ninguém para lhe explorar. Logo, a liberdade que o trabalhador possui no capitalismo é bastante limitada.

O limite da liberdade entre os indivíduos é um reflexo das suas condições de vida, afinal nem todas as pessoas são iguais. O direito afirma que todos os indivíduos são iguais perante a lei, mas não são iguais do ponto de vista material. Enquanto uns vivem bem, outros vivem mal. Como o direito iguala todos os indivíduos do ponto de vista político, cria-se a impressão de que todas as pessoas são igualmente livres nos outros aspectos de suas vidas. Neste sentido, a democracia cria uma falsa impressão de que toda a população é responsável pela direção política do país, uma vez que elegem seus representantes legais para participar da gestão do Estado.

Seguindo este raciocínio, o verdadeiro poder da sociedade não está na escolha de seus representantes legais no Estado, mas no controle das riquezas socialmente produzidas. Quando a democracia cria esta aparência de liberdade, está apenas reproduzindo uma realidade fantasiada, que não revela sua verdadeira natureza. A intensificação das alienações apenas facilita o controle da vida social pelo capital, uma vez que oculta dos indivíduos a verdadeira origem das desigualdades sociais e a maneira de resolvê-las.

A via eleitoral encontrada por todos os partidos brasileiros modificará muito pouco a vida social, menor ainda serão os benefícios destinados às classes trabalhadoras. É necessário evidenciar que todos os políticos, conscientes disso ou não, estão apenas concorrendo a uma vaga de representantes dos interesses do capital dentro do Estado. Não é uma reforma política que irá fazer com que esse quadro mude.

Já que as eleições não nos trazem nenhum horizonte, o que pode nos fortalecer são ações que ampliem e estendam nossas lutas, numa união organizada e autônoma que esteja além das instituições controladas pelo o Estado, a exemplo dos sindicatos.  Devemos investir todo o esforço, não na participação nas eleições, mesmo com o objetivo de denúncias e proposições socialistas, mas no trabalho permanente junto à classe trabalhadora para contribuir – ideológica, política e organizativamente – para que ela volte a assumir o seu papel de protagonismo revolucionário. Somente desta forma mudaremos o curso da humanidade, que já se encontra sem perspectivas pelos caminhos propostos pelo capital.

A liberdade plena se encontra, como nunca antes na história, bem diante de nós, porém, é necessário um grande salto para poder alcançá-la!

[Publicado originalmente no JORNAL FAÍSCA (Ano I – n.º 1 – Outubro – 2014). O FAÍSCA é um jornal independente, produzido e mantido por estudantes e trabalhadores,  e  não  possui  nenhum  vínculo  com  partidos  políticos  e/ou sindicatos. CONTATO: contato.faisca@gmail.com. PÁGINA: facebook.com/faiscarevolucionaria].

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