O Que Acontece Hoje no Brasil

O que acontece hoje no Brasil é muito parecido com o que ocorreu na época de Collor. Naquela época, a burguesia escolheu Collor para começar a implementar o plano de reestruturação, chamado de “neoliberalismo”. Sistema este que já havia sido implantado com sucesso em outros países, tendo como mentora Margaret Thatcher e como laboratório o Chile. Logo tiveram que descartar Collor, pois “meteu as mãos pelos pés”, não teve o jogo de cintura esperado, exagerou na cobrança de propinas e a camarilha do setor produtivo e financeiro, que o elegeu, não gostou do que viu.

Para este desiderato, contou com o quarto poder, a imprensa, que fez uma campanha violenta nas revistas semanais (principalmente, VEJA e ISTO É) e nos canais de televisão (REDE GLOBO, notadamente). Justamente as mídias que mais trabalharam para elegê-lo, passaram a chamar o povo para se manifestar nas ruas, em especial os jovens, que receberam a alcunha de “caras-pintadas”, culminando com o impeachment. O período que restava do mandato foi assumido pelo vice-presidente Itamar Franco, o qual veio a calhar, pois era um político experiente, ex-governador de um dos Estados mais importantes, Minas Gerais, e deu um “freio de arrumação” na economia com o “Plano Real”. Aí, aparece a figura emblemática de Fernando Cardoso, o “mentor” do “Plano Real”, comprometido dos pés aos cabelos com o plano em execução. Conseguiu consolidar o neoliberalismo, logicamente, às custas do brutal arrocho salarial, desemprego e violência policial contra a classe trabalhadora.

O saldo que ficou foi de milhões de desempregados, centenas de suicídios, milhares de famílias abaixo do nível da pobreza e uma grande insatisfação da classe média. Mas a crise do sistema capitalista, que perdurava por três décadas, insistia em não arrefecer. Nos últimos anos dos dois períodos de governo, o controle da economia começou a desandar, turbulências nos mercados de câmbio e ações. A burguesia precisava de alguém que tivesse a “cara” do povo para ocupar o mais alto cargo do país, pois, depois dos vários planos mal sucedidos desde o governo Sarney, os movimentos sociais recomeçavam a fervilhar, os operários, experientes em fazer greve desde os anos 1980, voltavam a fazer grandes movimentos e a própria burguesia já não tinha tanta confiança que o Plano Real continuaria dando conta do domínio da economia.

A continuidade e manutenção do neoliberalismo precisava de uma liderança que tivesse a confiança da classe proletária, sobretudo dos trabalhadores dos segmentos produtivo e financeiro, que precisavam ser acalmados,  pois a insatisfação era muito grande. Então, Lula que ainda era uma figura desagradável para parte da burguesia, com a sua liderança inquestionável, colocou o PT na parede e junto com a sua turma conseguiu “convencer” o partido a se comportar como queria a burguesia. Em 2002, candidato à presidência, fez uma “Carta aos Brasileiros”, deixando a máscara cair, mostrando a sua face “moderada”. Colocava que a premissa da transição era “naturalmente o respeito aos contratos e às obrigações do país”. Pronto, este era o candidato da hora. Os mesmo carinhos dados pela imprensa a Collor e Fernando Henrique, são dados agora ao ex-metalúrgico Lula da Silva. Ele não decepcionou. Seguiu direitinho a cartilha e os setores produtivo e financeiro nunca tiveram tanto lucro quanto no seu governo e nos quatro anos do governo Dilma.

Mas, essa danada da crise, que insiste há quase cinco décadas em queimar os miolos dos economistas burgueses, disse pra que veio. Desandou o angu, apesar de todas as tentativas de os governos Lula e Dilma maquiarem o desequilíbrio da economia com incentivos ao consumo à base de isenção de impostos para as grandes indústrias e incentivo ao crédito para facilitar a compra de mercadorias. Mas, a crise é oriunda da produção e não do consumo. O consumo é uma ponta da crise, porém não o seu principal fator e não é aumentando ou diminuindo o consumo que ela vai ser debelada.

Claro que mais uma vez a burguesia vai utilizar de suas armas para descartar aquilo que não lhe serve mais. Tem coisa melhor do que um escândalo de corrupção? A que existiu no governo Collor foi fichinha comparada com esta de agora. A corrupção é intrínseca ao sistema capitalista, em todos os níveis e em todas as entranhas do sistema, mas serve também, quando é conveniente para a burguesia, para derrubar governos.

O “jogo é jogado”, como se diz no popularesco, e nessa contenda só quem sai perdendo é a classe proletária. A Carta Capital trata do assunto como se fosse um golpe, mas não é. Está tudo tramitando dentro das regras institucionais. Até o impeachment, se acontecer, vai estar dentro destas regras. O plano neoliberal tem que seguir o seu curso dentro da normalidade e não ser interrompido enquanto for conveniente ao sistema. Lula, Dilma e o PT fizeram parte disto. Agora é a vez de substituí-los. Vejam que o “golpe” está sendo forjado a partir dos próprios aliados do PT ou o que o PMDB está fazendo não faz parte desse “golpe”?

Quando a imprensa afagou Lula e o PT por terem aceito as regras e por terem contribuído para o desenvolvimento do projeto, não foi admoestada. Agora que está promovendo passeatas e editando notícias a favor da Oposição, não serve mais. É o quarto poder agindo novamente.

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