A Exploração do Trabalho Pelo Capital: A Mais-Valia

A Descoberta da Mais-Valia

Já faz mais de um século que Karl Marx revelou a existência daquilo que constitui a essência da exploração do trabalhador pela burguesia, a mais-valia. E, no entanto, a grande maioria dos trabalhadores permanece desinformada acerca do que vem a ser a mais-valia. Ou seja, os trabalhadores, de um modo geral, não conhecem o que é a fonte do lucro capitalista e como se dá a exploração e o grau de exploração do seu trabalho pelo capital. A que se deve tal desinformação? De fato, não há nenhum interesse, por parte da burguesia, em que o trabalhador esteja informado acerca da causa e do grau de exploração que a classe burguesa submete à sua classe. O mesmo desinteresse existe por parte da maioria das organizações “de esquerda” que se dizem “defensoras dos interesses dos trabalhadores”. Essas organizações, com base numa prática que se localiza por dentro das instituições burguesas (busca da ocupação de cargos no parlamento e no executivo e atuação principal em formas totalmente dominadas pela burguesia, como o sindicato e as centrais sindicais, etc.), terminam por propor aos trabalhadores não o que a eles interessa, mas o que é do interesse da classe capitalista.

Onde a Mais-Valia Não é e Nem Deve Ser Discutida

Dessa forma, não é nos comitês eleitorais de deputados, nem no parlamento, nem nas ONGs, nem nos ministérios e nem na imprensa do governo e das organizações de “esquerda” que a discussão de temas que revelam a verdadeira exploração da classe operária acontece. Por isso é que os trabalhadores, para serem educados teórica e politicamente como classe, não para a burguesia mas como classe para si própria, devem criar formas de organização autônomas nas quais eles possam discutir os temas que lhes revelem a essência e o grau de exploração do seu trabalho e a prática de lutas que os levarão ao necessário enfrentamento da burguesia.

Onde a Mais-Valia Deve Ser Discutida: Os Círculos de Fábrica

Uma forma que tem sido muito eficaz para a formação teórica e política dos trabalhadores é o círculo (ou os círculos) de fábrica. Os círculos de fábrica são agrupamentos criados pelos trabalhadores de fábrica, com número variável de componentes (de 3 a 5 ou 6 trabalhadores), que se reúnem regularmente (1 ou 2 vezes por mês), sob sigilo em relação aos funcionários da segurança da empresa, nos quais os componentes desses círculos discutem as questões acima referidas, e também como criarem novos círculos e, ainda,  como devem se organizar para mobilizar o coletivo das empresas para fazerem suas reivindicações. É óbvio que esses círculos devem reunir-se longe dos tentáculos dos sindicatos. Um círculo de fábrica é o lugar mais adequado para os trabalhadores discutirem temas como o da mais-valia.

O Que é Mais-Valia?

Partamos de um exemplo muito simples para a compreensão da mais-valia. Imaginemos uma padaria com único patrão, o proprietário da padaria, e um único trabalhador, o padeiro. Suponhamos que o proprietário da padaria fornece ao padeiro 1 saco de farinha de trigo, 1 kg de fermento e ½ kg de sal para serem transformados em pão pelo trabalhador (o padeiro). Todos os ingredientes, as matérias-primas (no caso a farinha de trigo, o fermento e o sal), foram adquiridas em outras empresas igualmente capitalistas (o moinho, a salina, etc.) e têm um custo a ser repassado para o pão. Se tais ingredientes custaram, digamos, R$ 100,00, então no valor do pão estará repassado este custo.

Mas o valor do pão, agora o preço de custo do pão, vai ter outros componentes: ao lado do custo com as matérias-primas deverá constar um valor novo, desta vez criado pelo trabalhador (o padeiro), que nasce do trabalho gasto pelo trabalhador na transformação dos ingredientes em pão. Se os pães forem vendidos por, digamos, R$ 150,00 (preço de mercado), os R$ 50,00 que apareceram, acrescentados aos R$ 100,00 anteriores, constituem o valor novo produzido pelo padeiro. Desse valor novo, criado pelo trabalhador (o padeiro) no processo de produção dos pães, uma parte será paga ao trabalhador pelo capitalista enquanto a outra constituirá o trabalho não-pago pelo proprietário ao trabalhador. A parte paga é o salário do trabalhador, enquanto que a não-paga é a mais-valia. Nota-se que tanto a parte que recebe como a que não recebe são produzidas pelo trabalhador.

No caso, então, o valor do pão, produto produzido pelo padeiro, contém duas parcelas: uma, no caso R$ 100,00, que será repassado pelo capitalista aos demais capitalistas que lhe forneceram matérias-primas. Outra, o valor novo, criado pelo trabalhador (= R$ 50,00), no caso o padeiro, que vai ser subdividido, por sua vez, em duas partes: uma, no caso R$ 25,00, que será repassado ao trabalhador, que constitui o salário, que é o preço da força de trabalho, que o trabalhador destinará aos gastos com a sua subsistência, e a outra, no caso os R$ 25,00 restantes, que é a parte do valor criado pelo trabalhador que o patrão capitalista, no caso o dono da padaria, não repassa ao trabalhador, no caso o padeiro. Esta última parcela é a mais-valia, a fonte do lucro do capitalista, que é valor criado pelo trabalhador, mas que é retido pelo capitalista, que vai usá-lo, agora, para ampliar o seu capital.

Como Se Mede o Grau de Exploração do Trabalho Pelo Capital?

É claro que este assunto está colocado aqui nos seus termos mais simples, desde que é necessário que o nosso leitor assimile o conceito de mais-valia e o que ela significa para o capitalista. Em outras vezes voltaremos ao assunto para que a nossa discussão alcance maior nível de aprofundamento. Pelo momento introduziremos apenas um dos efeitos da produção da mais-valia pelo trabalhador e retida pelo capitalista.

Vejamos como se pode medir o grau de exploração do trabalho pelo capital. No caso da nossa padaria, vimos que o pagamento da força de trabalho — o salário — foi de R$ 25,00, enquanto que a mais-valia foi, também, de R$ 25,00. Se relacionarmos os dois valores veremos que para R$ 1,00 recebido pelo padeiro como salário, o capitalista retirou, do trabalho produzido pelo trabalhador, o equivalente a R$ 1,00. Esta relação é de 1 para 1 ou, o que dá na mesma, de 100 para 100, isto é, 100%. Ou então, para cada salário que o trabalhador recebe, ele deixa de receber o equivalente a um salário. Ou ainda, o trabalhador trabalha meia jornada para produzir seu salário e outra meia jornada para produzir a mais-valia que será desembolsada pelo capitalista. Esta relação é de 1 para 1 ou, o que dá na mesma, de 100 para 100, isto é, 100%. À relação do valor retido pelo capitalista com a que ele paga ao trabalhador dá-se o nome de taxa de exploração ou taxa de mais-valia.

Evidentemente, no caso concreto, vamos nos deparar com empresas que têm dimensões muito maiores do que uma simples padaria, e que, numa grande empresa capitalista moderna, ao lado das matérias-primas, existem outros gastos com máquinas, reposição de máquinas, instalações industriais, etc., que entram na conta de “ingredientes” da produção. Também a massa de salários representa uma soma dos salários, não só de um padeiro, mas de todos os trabalhadores que operam numa fábrica de porte; e que, finalmente, a massa de mais-valia, ou seja, o valor total de mais-valia ou trabalho-não-pago pelo capitalista ao conjunto de trabalhadores que ele explora, é muito maior do que o da padaria. E mais, a taxa de mais-valia, que relaciona o valor total da mais-valia apropriada pelo capitalista com o valor total dos salários pagos, é muito maior do que o exemplo dado aqui (que tinha objetivos meramente didáticos).

É perfeitamente possível que encontremos casos (de grandes empresas) nos quais esta relação seja de 10 para 1, 20 para 1 ou mais. No caso, por exemplo, de uma empresa na qual a taxa de exploração seja de 20 para 1, isso significa que para cada real que o capitalista paga de salário, ele deixa de pagar o equivalente a 20 reais ao trabalhador; ou que, para cada salário pago ele retém o equivalente a 20 salários não-pagos e que se convertem em mais-valia. No caso de uma taxa de exploração ou taxa de mais-valia de 30 pra 1, significa que num mês de 30 dias, o trabalhador trabalha apenas 1 dia para produzir o seu salário e que nos 29 dias restantes ele estará trabalhando de graça para o capitalista. E por falar nisso, por hoje ficaremos por aqui, prometendo aos nossos leitores voltar ao mesmo assunto, explorando muitos outros aspectos e desdobramentos que dizem respeito à exploração do trabalho pelo capital a partir da categoria mais-valia.

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