O PT

Ideologias do PT

Quando falamos em ideologia, não queremos nos referir às concepções dadas por Lênin, Lukács ou Gramsci. Preferimos nos ater às elaborações de Marx e Engels nos seus escritos da “Ideologia Alemã”, obra que se constituiu numa verdadeira prestação de contas com o passado, um texto que não tinha nenhuma pretensão de ser publicado e que, por isso mesmo, foi deixado de lado, “a critica roedora dos ratos”, como diriam mais tarde. Este só iria ser trazido a público na década de 30 do século XX, quase cinquenta anos após a morte dos seus autores. Nesta obra, eles vão realizar uma crítica filosófica profunda a Feuerbach, B. Bauer e Stiner, pensadores alemães que mais se destacavam na época pós-hegeliana. Assim, é que se concebeu, através de um esforço de elaboração teórica dialética e materialista, a formulação de que o resultado do pensar humano, desvinculado de uma base material lógica e histórica, pode vir a se constituir em falsa consciência, em ideologia. Na linguagem de Marx e Engels a ideologia é uma falsa consciência do mundo real, o que gerou, em momentos posteriores, muitas controvérsias no movimento operário socialista e comunista, principalmente depois de Lênin que propugnava, no corpo do desenvolvimento de sua teoria, a existência de uma “ideologia proletária” em contraposição à ideologia burguesa e que, por sinal, não chegou a ter acesso à obra de Marx que tratava do tema. Portanto, aqui, ao reportarmos ao PT, optamos em resgatar a concepção de Marx e Engels na “Ideologia Alemã”, muito embora não queiramos, em nenhum momento e sobre quaisquer hipóteses, fechar as portas ao debate a esta discussão, que é de fundamental importância  ser travada no campo do marxismo.

O PT nas suas origens, ainda se dava ao luxo, mesmo que de maneira incompleta e na maioria das vezes, utilizando de recursos estilísticos e políticos contraditórios, que mais pareciam uma colcha de retalhos, criada para “aproveitar” todos e cada um dos pedaços da esquerda e em especial dos setores que combatiam a ditadura militar, suas manobras, seus decretos autoritários, suas leis de exceção e de combate ao movimento operário, sindical e popular, enfim, ainda se falava em partido sem patrão, e, de uma maneira vaga de fato, na necessidade de uma sociedade sem exploradores e sem explorados, sem opressores e oprimidos, uma sociedade que se entendia caber perfeitamente no “socialismo”. Isso se mostrou, na verdade, mais como um chavão pomposo, do que realmente se encerra de conteúdo e forma a toda concepção política, econômica, histórica e filosófica a que esta alternativa social propõe.

Era comum, no PT, a discussão dos aspectos legais da forma de organização que se propunha em alternativa à ditadura militar, que assumiu o poder em 1964, com mais de vinte anos no comando do Estado. O que se via, neste sentido, era uma forte tendência à participação no processo de transição para uma “nova” forma estatal “democrática”, que possibilitasse a anistia política, o exercício do sufrágio universal mais constante e duradouro e a convocação de uma nova Constituinte. Foi assim, que o PT entrou na campanha das “Diretas Já”, junto com um largo arco de alianças, que cabia de tudo o que era possível encontrar no mercado político ideológico de resistência democrática burguesa ao fascismo e a sua ditadura. Estas lutas encampadas pelo PT, lutas de cunho liberal e social-democrata, escondiam e camuflavam a verdadeira essência da exploração de classe dos trabalhadores, no tocante aos seus interesses políticos e sociais, históricos e imediatos a serem travados na perspectiva de uma sociedade efetivamente socialista, em que de posse do poder se construa um Estado operário mínimo, que destrua o aparato burocrático e militar, que seja dirigido e construído pelas massas de trabalhadores, que socialize todos os meios de produção e que se estabeleça na forma de conselhos, comissões e comunas operárias. Mas o PT e os seus dirigentes não se coadunavam com ideias deste tipo. O que eles queriam era a redemocratização do país, para, assim, poderem participar do jogo político burguês e enfrentar, desta forma, os desafios propostos pelo capital, de uma convivência pacífica e duradoura com as forças do trabalho.

Não basta, portanto, dizer que defende o socialismo. É necessário caracterizar e dar fisionomia a este projeto social da classe operária, dos trabalhadores, das massas empobrecidas e exploradas do povo. O que, de fato, o PT não fez. Preferiu se constituir em mais uma legenda eleitoral a legitimar o status quo vigente, oferecendo, assim, seus candidatos aos postos de comando do Estado capitalista. Desta forma, os petistas passaram a compor a burocracia do Estado e das empresas capitalistas (estatais e privadas) da maneira mais colaboracionista possível, ajudando a burguesia a domesticar a luta de classes, a cooptar as massas para o projeto de perpetuação da exploração da força de trabalho, através da apropriação da mais-valia, fonte geradora do lucro e do capital e de sua correlata relação de produção baseada no assalariamento da população. Foi assim, que o PT acabou conquistando espaço político em todas as esferas da organização social, principalmente no campo da mídia, da cultura, da educação e de todos os mecanismos de formação ideológica estabelecidos na sociedade. Criou-se, assim, um petismo aloprado, que não obstante os erros, traições e barganhas, estenderá a estrela petista por toda a sociedade brasileira, rebaixando sempre o discurso e o programa, na verdade adaptando-o sempre ao novo momento de ação especializada, à frente do Estado, com métodos cooptativos, corporativos de culto à personalidade e de unidade discursiva nos moldes do fascismo.

Entretanto, para se chegar até aqui muita água passou por debaixo da ponte. Não podemos cair no simplismo e na ingenuidade de historiadores, sociólogos, filósofos, teólogos, cientistas políticos e intelectuais de esquerda, filiados ao marxismo ou não, que teimam em estabelecer análises deste período mais recente da história, da crise da ditadura militar à “Nova República” e, a partir daí, dos governos Collor e FHC, até se chegar à era Lula, sem observar mais de perto o movimento das ideias que fizeram a cabeça daqueles protagonistas e agentes sociais. Na verdade, foram envolvidos naqueles processos históricos conjunturais, experiências que, na maioria das vezes, não obstante as lutas e enfrentamentos diversos reproduziram o senso comum burguês. Com maior dosagem ainda de misticismo, fetiche, charlatanismo e corrupção política encontrado em toda a história do país, desde basicamente a colônia até os nossos dias.

Com o fechamento dos direitos políticos no período pós-64, a repressão e o destroçamento do movimento operário e popular, que aspirava às reformas de base, todo ele enquadrado na perspectiva populista/reformista do brizolismo do PTB e do PCB, levou a esquerda a se pulverizar em uma infinidade de siglas e agrupamentos, que tentavam, de inúmeros métodos e modos de arregimentação, derrotar as forças da ditadura. Mas, neste período, irá surgir ainda, de dentro do movimento operário e popular, num primeiro momento, tímida e receosa em se confrontar com o regime, muito porque não se tratava de um partido político de esquerda e nem possuía uma unidade programática em toda sua estrutura e corpo doutrinário, no que se referia ao combate político a ordem estabelecida. É assim, que a “Santa Madre”, Igreja Católica Apostólica Romana, pelo menos parte dela, irá tentar se redimir dos pecados cometidos tipo manifestações e passeatas “Por Deus e Pela Liberdade”, de forte apelo nacionalista e anticomunista

A Igreja Católica já vinha ensaiando, em nível internacional e posteriormente aqui no Brasil, a elaboração de encíclicas, diretrizes e documentos de articulação para a ação da Igreja no mundo, em especial para a América Latina. Isso, num primeiro momento, irá despertar a cabeça de alguns bispos e padres para uma opção preferencial pelos pobres, como orientação geral a ser empregada no seu papel missionário de evangelização e serviço pastoral. Mas, aqui no Brasil, a despeito de outras partes do mundo, figuras como D. Paulo Evaristo Arns, D. Helder Câmara, D. Tomás Balduíno, Pedro Casadáliga, Leonardo Boff, Frei Beto etc., levarão de maneira mais contundente, a luta por uma Igreja voltada para a organização e os anseios do “povo pobre”, bem como uma resistência maior à repressão e à ação violenta da classe dominante pelo país afora.

A Igreja Católica passou, assim, a ter, a partir dos anos 60, uma forte influência e inserção nos movimentos sociais. Inicialmente foi o Movimento de Educação de Base (MEB), os movimentos da Juventude Católica (JAC, JEC, JOC, JUC), a Ação Popular (AP), a Pastoral Operária (PO), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Comissão Justiça e Paz etc. Em alguns destes movimentos pós-64, estava em evidência a metodologia educacional formadora de lideranças baseada no ver, julgar e agir e no método criado e desenvolvido pelo educador Paulo Freire como um todo. A Igreja apossou também, de análises desenvolvidas por estudiosos da formação social brasileira, nos campos da economia, da política, da antropologia, da sociologia, da filosofia e do direito, vindo aí a estabelecer um diálogo com a ciência, na perspectiva de apresentar a religião com um tom mais humano e objetivo de materialização da prática política das massas. Voltadas não só para o conhecimento evangelístico, mas, também, para os problemas voltados ao cotidiano e às necessidades básicas elementares da população. Foi assim que, nos anos 70, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) chegam a 80.000, levando às camadas exploradas dos trabalhadores e do povo pobre da cidade e do campo a influência e o selo batismal daquilo que ficou conhecido pelos propulsores da “libertação popular” de: Teologia da Libertação. Uma tentativa de dar às sagradas escrituras bíblicas, em especial, aos livros evangélicos, uma conotação mais terrena e uma simbolização mística que elevassem o estado espiritual das massas a um patamar de assimilação de sua consciência crítica embrutecida. Mas, do ponto de vista da própria lógica e desenvolvimento do pensamento do ser, esta ideologia não passava de um recurso meramente formal e pragmático, que questionava o materialismo histórico e dialético em nome de mais um idealismo filosófico. Mesmo assim, esta tentativa de enraizamento da Igreja nos espaços sociais do tecido urbano e rural pelo país afora encontrou fortes resistências da classe dominante que pressionava e da própria hierarquia central do Vaticano. Esta, por sua vez, impulsionava, de fora e internamente através da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), toda uma concepção que pregava, antes e acima de tudo, reformas no que se refere ao processo de aproximação religiosa do povo com as “sagradas escrituras”, como também, uma democratização e uma nova leitura do papel da Igreja.

O PT aproveitou e assimilou, profundamente, este conjunto de ideias e doutrinas ideológicas, como parte importante de todo o seu desenvolvimento político-social, como também, para a criação e formação de toda uma camada de militantes dirigentes do partido, vindo dos mais diversos cantos e segmentos sociais. Na cidade e no campo, foi criada uma rede de núcleos e agrupamentos políticos pró-PT, que não deixava de desprezar toda a estrutura da Igreja, suas pastorais e principalmente as CEBs. Estas, por sua vez, foram um ponto de apoio dos trabalhadores. Num primeiro momento, o despertar das consciências embrutecidas de agentes históricos novos vai,  a partir dos seus enfrentamentos, com lutas sindicais, populares e campesinas diversas, passaram a ser significativas bases para uma greve de cunho econômico, ou mesmo, para a conquista de reivindicações como: luz, água, esgotamento sanitário, escolas de alfabetização de adultos, ocupação e posse da terra e de solo urbano, como também as de caráter político específicas: as oposições sindicais, as Associações de Moradores e os posteriores Movimentos de Sem Teto, de Moradia e Sem Terra.

As lutas do dia a dia, como costumavam dizer os militantes do PT, acabaram sendo enquadradas na dinâmica organizacional partidária e foram devidamente aproveitadas para futuros saldos políticos eleitorais pelo partido, que mesmo não dispondo de infraestrutura própria até o momento, acabará por usar todos os aparelhos disponíveis para a consolidação de um partido político de massa e legal, a disputar cadeiras no parlamento e nos cargos executivos do Estado burguês.

Outra vertente que encampou o PT, desde o início, foi a que se formou com a participação de ex-militantes de organizações de esquerda, como também, de algumas organizações e/ou partidos de esquerda, que tentavam se estruturar desde os anos 60, bem como outras que se constituíram de rachas com partidos reformistas stalinistas (PCB, PCdoB) e organizações trotskistas. Estas vertentes, que eram ainda formadas por significativas partes do que se convencionou chamar de movimento comunista, de orientação geral “marxista”, e do que se estabeleceu enquanto corrente de pensamento oriunda da crise que se adentrava nos anos 20 do século XX, no processo que vai se estender até os dias de hoje, vão ter uma participação no processo de construção do PT, que, como uma bomba de sucção, irá engolindo, dissolvendo e cooptando parte considerável de ex-comunistas, para o projeto de fisionomia social-democrata, encampado por intelectuais filiados ao partido, pela Igreja Católica e um crescente número de ativistas do movimento sindical e popular, que, na ausência de um processo de formação política de cunho revolucionário, acabaram aderindo a esta concepção conciliadora da contradição do capital e do trabalho. Entretanto, muitos dos militantes que vieram a aderir ao projeto da social democracia brasileira, inúmeras vezes, não o fizeram por conta de um compromisso programático ideológico previamente estabelecido. Mas, o que a prática demonstrou é que muitos se transformaram em verdadeiros arrivistas, sem nenhum apego à concepção moral e ética dos que ainda combatem o capital. Passaram, assim, a ter mais amor ao dinheiro e às benesses pessoais da máquina partidária e do Estado capitalista, do que qualquer raposa famélica à procura de galinhas  desavisadas.

Isso vem demonstrar, ainda, que as pessoas, os indivíduos, não se aproximam de uma proposta, seja ela qual for, em especial uma proposta revolucionária, de maneira imediata e direta, como se fosse uma via de mão única, uma linha reta infinita, um desenvolvimento por assim dizer linear, ideal e por que não dizer bastante metafísico. Mas, o conhecimento de uma proposta revolucionária, chega, muitas vezes, na cabeça das pessoas, de forma contraditória e mediada através de inúmeros movimentos de elaboração teórica e também, pela prática política social. Os caminhos pelos quais trilharam militantes comunistas, ativistas e intelectuais que se diziam também filiados ao marxismo dentro do PT, foram, acima de tudo, pautados pela concepção que acabou por se dissolver no partido, passando, assim, a se constituir uma tendência interna. Antes de o PT aprovar a resolução que proibia a existência de organizações e/ou partidos com estrutura política própria, como por exemplo, a Dissidência do PCdoB, posteriormente Partido Revolucionário Comunista (PRC), que veio a aceitar a resolução acerca das tendências, adotando aí, inicialmente, o nome de Nova Esquerda, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a Organização Socialista Internacionalista (OSI), que publicava e distribuía o jornal “O Trabalho”, a Organização Comunista Democracia Proletária (OCDP), ex-Ação Popular Marxista-Leninista (APML), que vai se fundir com duas outras organizações que também atuavam dentro do PT, o Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP) e a Ala Vermelha do PCdoB (AV), criando aí o Movimento Comunista Revolucionário (MCR), que posteriormente ao se dissolver no PT, adotará o nome de Força Socialista. Outra organização política que também teve expressão dentro do PT foi a Convergência Socialista (CS), nome do jornal que era publicado, esta organização acaba por sair do PT e vir, mais tarde, a criar o Partido Socialista Unificado dos Trabalhadores (PSTU). Existia ainda, de forma bastante expressiva, a Organização Revolucionária Marxista Democracia Socialista (ORMDS), que editava o jornal “Em Tempo” e que veio a se constituir em mais uma tendência do PT, adotando aí o nome de Democracia Socialista (DS).

Todas estas organizações e outras mais atuavam no PT, na perspectiva de hegemonizar suas propostas e sua influência, faziam assim, todas elas, entrismo dentro do dele. Embora algumas destas organizações chegassem a acreditar na possibilidade de o PT vir a ser um partido revolucionário de massas, não era, entretanto, consenso entre elas. Era, pois, com este entendimento que militantes da esquerda organizada mantinham a sua atuação no partido. Há quem admita hoje em dia, que, apesar de as antigas organizações do PT defenderem e trabalharem a perspectiva deste vir a ser um partido revolucionário de massas, tinha reservas quanto a isso, apesar de que acabavam por defender a posição das organizações, pois, estavam a elas submetidos e devidamente centralizados. Mas, as contradições foram crescendo pari passu ao desenvolvimento da conjuntura e do calendário eleitoral da burguesia. O partido foi assumindo postos e mais postos na máquina do Estado e os pseudos revolucionários que atuavam dentro dele foram chamados a ocupar postos- chaves, juntamente com os setores social-democratas, liberais e reformistas de toda espécie. Esta realidade irá trazer novas fissuras, que acabará por impulsionar a criação de um novo partido: o Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL)

O PT na sua essência não tinha nada de diferente dos partidos stalinistas. Durante muito tempo, defendia-se um governo de frente popular (quem não se lembra da Frente Brasil Popular), com a ressalva de que este tinha e considerava o conceito de revolução de forma distorcida, pacífica e domesticada. Quando o PT falava em socialismo, por exemplo, lia-se social-democracia. Não se tratava de construção de uma sociedade que tinha como princípio o fim da propriedade privada dos meios de produção, mas, sim, do velho e gasto capitalismo. A social-democracia, ao contrário do que muita gente pensava, não era e não é uma posição política de esquerda, mas, sim, de direita, pois vive a serviço do capital e não das forças do trabalho, vive a defender a conciliação de classes historicamente antagônicas, e não a derrubada revolucionária da burguesia exploradora do proletariado, dos trabalhadores sem terra, da população pobre e da juventude.

Os espaços de atuação política dos trabalhadores, intelectuais revolucionários, artistas e da juventude devem passar por fora da tradição reformista e social-democrata, tanto no que diz respeito a sua participação política militante na sociedade, quanto as suas formas de lutas e organização. Já amadureceram as condições para a criação de espaços alternativos aos limitados sindicatos, organizações corporativas e filantrópicas. Espaços estes, onde se possam desenvolver as discussões em torno de lutas concretas, bem como a elaboração do projeto político e cultural de uma sociedade nova e que sirva ainda de formador teórico e prático de uma militância verdadeiramente revolucionária.

O PT, depois de várias tentativas, consegue tomar acento na cadeira da presidência da república e montar um governo. Mas, logo irá se desmascarar enquanto perspectiva de alternativa. Mais uma vez escândalos de corrupção voltam a infestar o Estado burguês, agora sobre a direção do PT, com um adendo de que nunca foram tão divulgados em um único governo. São esquemas montados na Empresa dos Correios, no IBAMA, etc., também, na Câmara de Deputados, onde passou a comprar parlamentares por 30.000 reais por mês, em troca de apoio nas votações de interesse do governo, o chamado mensalão e, agora, injustificadamente o petrolão.

A corrupção é própria e inerente ao funcionamento do Estado burguês. Nele, ela se estabelece enquanto instrumento próprio do seu mecanismo intrínseco. Nele, ela ocorre em todas as esferas internas e externas do tecido social capitalista. Nele, torna-se possível o estabelecimento formal da corrupção, que é latente no capitalismo, em menor e maior grau de diferença de país para país, mas, sempre presente e marcante. O capitalismo não pode funcionar sem o recurso da corrupção, e os discursos contrários a esta não passam de hipocrisia.

A avalanche que o lamaçal da corrupção produz, de tempos em tempos, nas diversas esferas da máquina do Estado, acaba por levar a desestabilização de governos que pretendem gerir a crise na mais plena calmaria. Não obstante, o governo do PT se mostrou bastante preparado para enfrentar a realidade do jogo de interesses inescrupulosos que o mundo do capital produziu até aqui.  Isso não fez do governo Lula um ausente. Neste sentido, podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que ninguém que esteja à frente da condução do Estado, encontra-se isento de culpas e de responsabilidades. Assim é o governo participante de todos os desmandos do Estado capitalista brasileiro, na atual fase do seu desenvolvimento, e, como tal, está, direta e indiretamente, envolvido com toda espécie de corrupção na esfera da administração pública.

Portanto, o governo do PT não se coloca de maneira independente e por fora das crises, como tentam passar a imagem setores que o apoiam de forma mais direta. Na verdade, há ainda o medo de ser rifado por setores da burguesia num processo de impeachment, por exemplo. Isso acabaria em pôr fim a toda e qualquer perspectiva de reeleição, por conseguinte, um menor reinado para a dinastia dos setores que compõem o grosso da aristocracia operária. O aval da burguesia a este processo estaria, neste caso, sendo rompido em prol de outro projeto político e ideológico, mais confiável que o do PT, que decerto teria outras implicações, mas que contaria com o apoio da classe dominante, de amplos setores da chamada classe média e de parcela dos trabalhadores. Estes, por sua vez, buscam, neste processo, a lisura e a moralidade do sistema, mesmo que para isso tenham que ser forjadas em jogadas midiáticas e pelos apelos da imprensa burguesa, as premissas confiáveis de uma alternativa de governo. O “anti-Lula” nasceria, assim, como uma necessidade para a burguesia continuar o seu domínio de classe, com fortes chamados ao apoio dos trabalhadores. Mas, o fato concreto que vai fazer com que a burguesia mantenha o seu apoio ao PT, é que este partido ainda possui uma influência de massa e se constituiu, ao longo de sua existência, como o parceiro preferencial para se estabelecer pactos, acordos e cooptação de toda ordem, muito embora o que se verifica é um profundo desgaste de seus quadros e da própria sigla.

Em agosto de 1991 a direção nacional do PT realizou debate com o tema “O PT e o Marxismo”, como parte da preparação ao Congresso do partido. Estes debates foram publicados em “CADERNOS DE TEORIA E DEBATE”. Nele, registram-se algumas posições de eminentes intelectuais do partido e/ou defensores do marxismo. Vejamos o que diz o mais significativo deles.

O PT deve ser um partido laico, aberto a todas as visões de mundo, que se verifiquem entre si produzam reciprocamente, num processo amplo de reconstrução da utopia socialista. Eu sou marxista e quero ter não marxista ao meu lado. Talvez porque, como dizia Norberto Bobbio, para ser um bom marxista é preciso não ser somente marxista. (Tarso Genro – ex-prefeito de Porto Alegre – ex-ministro da justiça – ex-governador do Rio Grande do Sul).

Ou seja, o que se verifica aqui é uma amplitude política e filosófica que cai na mais desavergonhada concepção eclética de mundo. Um desenvolvimento teórico de perspectivas históricas contraditórias e que acaba por ceder espaço, em se tratando de um partido, um instrumento de luta para se alcançar o “socialismo”, muito próxima à concepção de duas linhas estabelecidas pelo dirigente da Revolução Chinesa, Mao Tsé-Tung. Cai, assim, para o espaço idealista da metafísica, por mais que se afirme que é um materialista defensor da dialética. Dizer, por exemplo, que em um processo de transformação social se contará necessariamente com a participação de trabalhadores com formações culturais as mais diversas possíveis é uma coisa. Mas, estender isso para o domínio de uma concepção de mundo que se quer efetivamente afirmar e construir é coisa diferente e só causa mais confusão na cabeça dos trabalhadores. É cair no oportunismo político em se tratando do marxismo. Eis aí por onde vai caminhar o PT.

Quando o PT Pretendeu Ser “Revolucionário”

Desde que foi realizado o II Congresso do Partido dos Trabalhadores (PT), as suas resoluções foram tidas como “radicais” por uns e aplaudidas pelos setores de “esquerda”, menos avisados por outros. Contudo, tudo ocorreu sem que quase nenhum comentário sério fosse feito às referidas resoluções por parte da imprensa e pelos setores ditos socialistas.

Muita coisa mudou no PT desde aquele Congresso. As suas resoluções foram na maioria das vezes sendo completadas pelos movimentos da conjuntura, mas sempre no sentido de um giro a mais em direção à direita e da acomodação confortável nas poltronas macias dos palácios e do poder de Estado. No entanto, ainda hoje, faz-se necessário o combate às suas resoluções devido à forte influência e ilusão que elas causaram e vem causando a vários segmentos de trabalhadores, pois foram e são tidas como verdades imutáveis e eternas. Estas resoluções prepararam ainda o PT para a passagem de um período onde se discutia, mesmo que de uma maneira deformada, ideias e propostas acerca do partido, da “revolução” e do “socialismo”, para a vida nos corredores e salas do aparelho do Estado burguês, desde a esfera de uma vereança até ao posto máximo do planalto central.

Falar do PT para nós é sempre um incômodo a mais no processo de luta política, pois se trata de realizar uma crítica a toda uma concepção social-democrata e reformista, por nós já realizada ao longo da vida do próprio PT, em especial, no que diz respeito ao projeto socialista para o Brasil. Mas este fardo tem que ser ainda carregado por algum tempo, haja vista a influência que este partido possui junto aos trabalhadores e a parcelas significativas de lideranças, que estão, por isso mesmo cada vez mais corrompidas e cooptadas para o seu projeto e sua prática política desfigurada. Por isso é que vamos nos propor a realizar um breve balanço das referidas resoluções, basicamente algumas colocações da sua parte introdutória.

As resoluções iniciam com um pomposo e por demais atrasado, reformista e burguês chamamento, descaracterizando aí uma palavra forte, virtuosa e que encerra em si toda uma concepção de transformação social, que diante mão afirmamos, o PT não possui. A saber, o título de abertura do texto resolutivo: “O Programa da Revolução Democrática” – para a construção de um Brasil livre, justo e solidário –afirma- que como tentaremos demonstrar não passa de um desenvolvimento de propostas batidas e rebatidas pelos setores realmente dignos e honrados da verdadeira tradição socialista revolucionária (aqui, sim, cabe o termo).

Passemos, pois ao texto pegando algumas colocações de ordem geral, mas que são bastante reveladoras do pensamento político do PT. Uma delas é a seguinte:

O PT se afirma como um partido pós-comunista e pós-social-democrata. Não busca “o assalto ao poder” por meio de uma revolução violenta, nem conquistar o governo e o aparelho de Estado para amenizar o capitalismo.

Em primeiro lugar, as resoluções caem no erro habitual de parcelas significativas da esquerda, que teimam em afirmar, de forma equivocada, o que se realmente entende por Partido Comunista. É um risco teórico muito grande afirmar que os partidos autodenominados de comunistas, depois basicamente da derrota dos bolcheviques para o stalinismo, sejam de fato comunistas pelo simples fato de usarem de forma desgastante, um nome que expressa toda uma concepção de mundo e realizações humanas. Ser comunista não é, por exemplo, ser stalinista, maoista, castrista. O que tem que se questionar não é simplesmente o nome numa determinada sigla partidária, mas, sim, resoluções táticas, estratégicas e concepção partidária e de uma revolução como um todo. Portanto, podemos afirmar, sem nenhum receio em estar cometendo injustiça com nenhum setor da classe operária do mundo, onde se realizaram revoluções pós-1917, que, de fato, elas não foram sequer socialistas, muito menos comunistas, pois teoricamente, segundo Marx, uma sociedade só poderá ser chamada de comunista a partir do momento em que ela se guie pelo princípio de cada qual segundo a sua capacidade, mas também, cada qual segundo a sua necessidade, como coloca muito bem na Crítica ao Programa de Gotha,  diferenciando-se também do princípio que rege uma sociedade socialista, que seria um tanto diferente.

O que o PT não diz e deveria dizer para não ficar no terreno das ambiguidades, é que é contra princípios como estes acima colocados, em detrimento de uma proposta mais restrita que predomine mesmo a exploração de classe do conjunto do proletariado. Mas coloca também que ele, o PT, é um partido “pós-social-democrata”, que, como veremos, não é verdade. Isso não passa, pois, de um recurso puramente ideológico. O PT é ainda contra uma revolução violenta, propõe a fazer mudanças sociais por meio pacíficos, o que é, antes de tudo, uma proposta social-democrata, que existe no mundo pelo menos desde 1890, nada novo, portanto. Como observamos, a afirmação de que é um partido pós social-democrata, não passa de uma figura de retórica, pois, no mesmo parágrafo, ele se contradiz. Diz ainda que não pretende conquistar o governo e o aparelho de Estado para amenizar o capitalismo, mas também não diz que é para destruí-lo. É um termo que em matéria de princípios do verdadeiro socialismo, aquele que, afirma claramente a destruição da máquina do Estado burguês, expropriação da burguesia, socialização dos meios de produção e constituição da classe operária em classe dominante, através de organismos de poder próprios dela, criados no processo de organização dos trabalhadores, no processo de revolução, que, como vemos, com essas tarefas a que nos propomos, necessariamente tem que ser violenta, a contragosto do PT.

O PT não defende a luta pela destruição da burguesia, do ponto de vista político. Defende algo assim:

O PT defende, desde 1994, a necessidade de uma revolução democrática, capaz de construir um Brasil livre, igual e solidário, socializando riquezas, poder e conhecimento.

Revolução não é mesmo o que o PT propõe, pois, na história da humanidade, nenhuma revolução se deu sem violência, aqui entendido como violência revolucionária com caráter de classe social. Nem mesmo as chamadas revoluções burguesas democráticas contra a aristocracia feudal na Europa nos séculos XVIII e XIX foram sem violência. Muito pelo contrário, a burguesia, para fazer valer a sua vez e a sua voz, teve que desfechar um banho de sangue na aristocracia absolutista, e só quem não conhece nada de luta de classes, ou que tenha escrúpulos hipócritas, ou que queira esconder a verdadeira face de todo e qualquer processo revolucionário de tomada de poder político por uma classe social, é que formula coisas como estas.

Seguem as resoluções colocando o seguinte:

A Revolução Democrática é um longo processo. Ela, não será resultado de teorias pré-elaboradas, nem de vanguardas autoproclamadas, mas da ação de amplas maiorias conscientes de seus objetivos.

Como se trata de uma proposta anti-revolucionária é dado o direito de se realizarem, aberrações, falcatruas, falsificações e traições como estas. O que está colocado aqui é, nada mais nada menos, que o velho ranço contra a teoria, a ciência política, ao marxismo revolucionário de Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo etc. O que se quer não é acabar com a teoria em geral, pois o PT pretende elaborar teoria. Mas uma teoria que se propõe como novidade, e que, no entanto, esbarra-se em velhas e gastas formulações, enfim com teorias pré-elaboradas, portanto, por um núcleo de intelectuais, padres e dirigentes, que são também, embora não admitem “vanguardas autoproclamadas”, não se diferenciando em nada dos stalinistas e dirigentes da social-democracia europeia.

Mas coloca as resoluções que: “A acumulação de forças é um complexo movimento que articula lutas sociais com transformações institucionais”. Quem pode dar a certeza de que isso é uma verdade inquestionável? Quem pode dizer que a verdade é que as “lutas sociais” têm que ser amarradas ao rabo das ditas “transformações institucionais”. As “lutas sociais” aqui colocadas não são explicitadas nem definidas de propósito, como veremos mais adiante. Neste chavão, cabe desde uma “luta” por lâmpada no poste da rua, ou mesmo uma “luta” eleitoral qualquer, mas nunca uma ocupação de uma montadora de automóvel ou uma siderúrgica por operários em greve. O que está por detrás disso é uma proposta de alianças amplas e grandes frentes espúrias, tão ao gosto da cambada de reformistas pertencentes à árvore genealógica das famílias da III Internacional Comunista da época do stalinismo e suas derivações. Bem como da social-democracia que é agradecida ao reformismo, que, de uma maneira geral, contribui para se fincarem os marcos de suas bandeiras neste solo latino-americano. As semelhanças de projetos ideológicos entre estas duas “pérolas” do pensamento que se dizem socialista e/ou comunista são inéditas, e por que não dizer genética, no que diz respeito aos pontos e filamentos de ligação entre uns e outros, no transcorrer de suas afirmações no seio do movimento operário e revolucionário comunista como um todo. Quanto à questão das chamadas “transformações institucionais”, gostaríamos de perguntar: quando foi que aconteceu transformação, do ponto de vista dialético, isto é, da passagem de estágio qualitativo inferior, ao superior no que se refere à institucionalidade? Na verdade, nunca. Uma mudança na forma nem sempre vem acompanhada de uma mudança de conteúdo, muito embora, uma mudança de conteúdo sempre vem acompanhada de uma mudança na forma e no seu desempenho como um todo. As “transformações institucionais”, portanto, são mais um engodo. O que na verdade deveria se dizer a este respeito – é o que se trata aqui – é de uma reformação institucional. Ou seja, não é possível, pois, haver transformação na esfera da institucionalidade sem que ocorra uma paralela e profunda transformação na esfera do Estado como um todo, que modifique também a correlação (aqui sim) de forças em detrimento da ascensão de uma nova classe ao poder.

Coloca ainda no mesmo parágrafo que: “Temos responsabilidade com o país”. Ou seja, a responsabilidade que se tem é com o ‘”país” e não com o conjunto dos trabalhadores brasileiros do campo e da cidade, como se dizia lá pelo início dos anos 80, que muito embora do ponto de vista programático o PT fosse bastante confuso e com formulações imprecisas em suas resoluções, podia se dizer que havia alguns lampejos de autonomia e independência de classe, pelo menos na prática de alguns militantes isolados e em algumas poucas correntes que habitavam o referido espaço político. Quando colocamos que a responsabilidade é com o conjunto dos trabalhadores, demarcamos claramente as fronteiras de classe, dizemos que existem dentro do país classes diferentes e, por conseguinte interesses de classes contraditórios. No “país” que as resoluções do II Congresso do PT tratam, é amplo e maior até que o seu tamanho original, no que se refere aos interesses de classe, o que tentaremos abordar mais adiante.

Ainda, no mesmo parágrafo que estamos analisando, há  seguinte afirmação:

Não queremos ser eterno partido de oposição, uma seita de donos da verdade. Sabemos que é importante combinar as ocupações de terra, as lutas no chão de fábrica, as greves e as mobilizações da sociedade em busca de novos direitos sociais e políticos com a ação no parlamento e nos governos municipais e estaduais.

É um direito até louvável o fato de que o partido queira ser governo, porém isso seria muito legítimo tratando-se de uma sociedade e de um Estado de novo tipo, onde a classe que estivesse com o poder nas mãos fosse o proletariado e não a burguesia. Querer governar por dentro do Estado burguês é de fato querer governar toda a estrutura da máquina capitalista, feita para aniquilar toda e qualquer espécie de levante operário, toda e qualquer ocupação de terra pelos trabalhadores rurais sem terra, enfim, toda e qualquer manifestação de trabalhadores e demais movimentos de mulheres, negros, homossexuais e da juventude como um todo. O PT quer ser governo dentro do capitalismo, pois não quer ser “uma seita de donos da verdade”.O PT estaria tratando aqui dos grupos stalinistas ou  dos pequenos agrupamentos de revolucionários marxistas espalhados pelo mundo? Ora, ora, como é presunçoso e desrespeitoso o tratamento que se dá àqueles que, de uma maneira ou de outra, têm uma atuação reduzida, muito por conta até de suas propostas não estarem tendo um respaldo do conjunto do movimento de massa, ou até mesmo por conta do movimento estar sofrendo uma forte influência das ideias reformistas, social-democratas e burguesas. Neste sentido, esses grupos não são, em nenhuma medida, “seitas” como querem as resoluções do PT, mas, sim, estão num processo de balanço critico dos caminhos por onde entrou o movimento revolucionário no mundo, e, ao mesmo tempo, busca-se resgatar aquelas propostas que levem a uma prática política independente e autônoma dos trabalhadores, frente à burguesia e aos seus Estados. Além do mais, sempre é bom lembrar que foi da criação e formação de pequenos grupos de revolucionários que se propagaram e se constituíram as grandes experiências da classe operária, que levaram a revoluções (Comuna de Paris, Revolução Russa etc.).

Quanto aos “donos da verdade” como querem o PT, não deixa de ser uma afirmativa bem curiosa e por que não dizer um mecanismo malandro de queimar todos aqueles que porventura apresentem uma proposta – não de dono – mas que se aproximem ao máximo da realidade e das possibilidades necessárias, do conjunto dos trabalhadores para intervirem nos diversos momentos da conjuntura, não para fortalecer os projetos burgueses, mas, sim, para colocar sempre uma cunha nos caminhos dos capitalistas, nos diversos momentos conjunturais, fazendo sempre com que a estrutura emperre, os trabalhadores aprendam e a luta passe para outro patamar. Quanto, a saber, combinar a luta dos trabalhadores com a ação parlamentar e por dentro dos executivos burgueses, podemos, afirmar de antemão, que isso não passa de um pretexto para aqueles que defendem esta proposta – os arrivistas e oportunistas de toda espécie. Pessoas que, às vezes, já foram combativas militantes sindicais, combativas lideranças operárias, combativos intelectuais de formação marxista, mas, que do ponto de vista da ideologia – e também de seus posicionamentos táticos e estratégicos -, se perderam na emaranhada teia de que a burguesia brasileira, através de seus ideólogos, seus estrategistas, seus artistas e sua cultura alienante, teceu desde os anos de crise da ditadura militar até os dias de hoje.

O fato é que muita gente, mas muita gente mesmo, antes de deixar de acreditar na revolução, capitulou diante do inimigo, deixou-se levar pelas promessas mentirosas da burguesia, baixou a guarda para garantir um emprego, quando se tem relatos de operários que há mais de cinco anos não consegue um emprego na sua profissão e sobrevive de biscates, vivendo com dificuldades, sem, contudo, ter tido a oportunidade de assimilar o socialismo. O exemplo que um operário comum, alienado do ponto de vista do seu trabalho, da a estes pseudos revolucionários que estão alojados por aí, nas assessorias sindicais, parlamentares (municipais, estaduais e federais), ou mesmo nos cargos representativos, do ponto de vista ético, da moral revolucionária, portanto, é muito mais significativo que um bando de discursos sem brilho, como as delongas dos parlamentares e dos acadêmicos em geral.

O ponto seis das resoluções do II Congresso do PT coloca o seguinte: “Mas o socialismo não é uma inevitabilidade, mas uma construção histórica”.
Vejamos melhor o que significa isso. Do ponto de vista da burguesia o socialismo pode ser perfeitamente uma coisa evitável, pois é para isso que ela utiliza todos os meios de que dispõe, para ir dissipando todo e qualquer vestígio de contestação e ação revolucionária, mesmo que este tipo de coisa ocorra de maneira empírica, espontânea e não planejada, mas com fortes possibilidades de radicalização. Já para o proletariado e demais forças da revolução, o socialismo é coisa inevitável mesmo. Ele ocorrerá mais adiante no processo histórico da humanidade, não de maneira determinista, mas sim de uma forma em que se desenvolverá, cada vez mais, a articulação entre um projeto cientificamente elaborado do ponto de vista da teoria e a prática do movimento social proletário. E nesse sentido, não há contradição com o construir historicamente. Muito pelo contrário, a construção histórica do socialismo só fortalecerá cada vez mais a maneira não evitável de se conceber o socialismo. Ainda neste ponto, as resoluções colocam o seguinte: “Para se construir o socialismo, no entanto, um  projeto de reorganização da sociedade, da economia e da política,  que responda outra hierarquia de valores, baseada na igualdade e solidariedade”.

O correto seria dizer organização da sociedade de uma maneira inovadora, porque, do ponto de vista histórico que se pretende construir, as sociedades divididas em classes radicalmente antagônicas, não foram e não são organizadas, pois, se assim fossem, não estariam, neste exato momento, milhares de pessoas passando fome, ou vítimas de doenças diversas, causadas, na maioria das vezes, por uma desordenada ação do homem para com a natureza, que além de interferir de forma desastrosa nesta, acaba por vitimá-lo mortalmente. E, além disso, dizer que, se quer reorganizar a sociedade, parte-se do princípio de que o capitalismo é do ponto de vista do proletariado e da revolução socialista, um sistema político organizado, quando na verdade ele não é. Ao contrário, ele é desorganizado, onde se predomina a anarquia da produção, da distribuição e circulação da mercadoria e dos serviços. Ele não se desenvolve em cima de um planejamento previamente estabelecido, que se leve em consideração não o capital e o lucro, mas, sim, os verdadeiros produtores de riqueza e do trabalho. Portanto, se formos usar de maneira aleatória a palavra “organizada”, chegaremos facilmente à conclusão de que toda a história de homem foi organizada, até mesmo na idade da pedra, o que não deixa de ser um absurdo. Convenhamos: quando passamos a analisar as sociedades sob a ótica dos trabalhadores e de sua subsequente exploração de classe, chegamos à conclusão de que por mínima que seja esta “organização” ela não reflete os anseios mais elementares da população, no que se refere ao trabalho e à divisão da riqueza. Só podemos falar em organização social no e a partir do momento em que o comunismo passa a ser o pressuposto básico da história de todos os homens que habitam o planeta Terra. Só aí, é que poderá existir uma sociedade auto-organizada, no seu sentido mais amplo, e literário possível. Isso tudo, mais além. A frente do socialismo também, num momento em que toda esta geração de revolucionários não mais estará presente. Só mesmo através de sua contribuição e suas lembranças, que ficarão na memória de todos.

Portanto, podemos afirmar que o PT é, nada mais nada menos, que um partido social-democrata e que almeja alternar-se no poder burguês, prestando assim um valioso favor aos capitalistas e a seu Estado. Os mais são favas mal contadas.

Lula: O Ex-operário

Para se iniciar falando de Luiz Inácio Lula da Silva, temos que recorrer um pouco à história factual deste indivíduo, que sonhou um dia em representar os interesses da classe operária, mas que acabou por pretender ser a representação de parcelas da burguesia no posto mais alto do Estado capitalista brasileiro: a presidência da república.

Lula possui uma trajetória de vida, que tinha toda uma qualidade peculiar e excepcional para o desenvolvimento no seu ser social de fundamentos verdadeiramente revolucionários e socialistas se existisse, no Brasil em que ele criou e se fez homem político, um partido revolucionário plantado na classe operária, em seus setores mais dinâmicos, que possibilitasse uma convivência e uma educação realmente socialista, a toda uma geração de jovens operários que viviam sufocados pelo tacão da Ditadura Militar, na mais completa ignorância e alienação, com ressalva para uns poucos momentos isolados de acirramento, até se chegar ao final dos anos 70 e início dos anos 80 do século XX.

Lula é de origem camponesa, seu pai um lavrador em Garanhuns no Pernambuco, migrou do nordeste para o sudeste do país à procura de trabalho devido à seca. Fez, desta forma, a trajetória de milhares de nordestinos quando da formação e ampliação do exército de mão-de-obra para o parque industrial brasileiro, ou seja, para a consolidação da nova classe operária.

Após a vinda do pai para o estado de São Paulo, Lula juntamente com sua mãe e irmãos foram a sua procura, chegando, em 1952, à cidade de Santos, onde permaneceu até 1956, um ano após a separação matrimonial de seus pais, indo morar na capital. Ali chegando, Lula conseguiu concluir o curso primário, já trabalhando como ajudante de tintureiro. Logo após, em 1958, trabalhou como auxiliar de escritório em uma fábrica. É dessa época um dos momentos mais difíceis da vida de Lula e sua família:

A gente morava num quarto e cozinha com banheiro público no fundo de um bar, que era para uso também dos frequentadores do bar. Morávamos 15 pessoas num quarto e cozinha; parecia um engradado de galinha que esses caminhões carregam por aí. Nós éramos oito irmãos, com minha mãe nove, mais seis ou sete primos que moravam com a gente e pagavam pensão. (LULA SEM CENSURA – Editora Vozes)

Trabalhou, ainda por essa época, de engraxate nos sábados e domingos. Por volta de 1960, entra para o SENAI, onde vai aprender a profissão de torneiro mecânico. Nessa época, seu irmão mais velho também já possuía uma profissão no meio metalúrgico. Em 1963, Lula recebeu o seu diploma do SENAI, com a classificação de meio-oficial de torneiro mecânico. Dois anos após a sua formatura no SENAI, ficou desempregado. Depois disso é que irá arrumar emprego na Metalúrgica Vilares. Foi aí que Lula teve seu primeiro contato com o movimento sindical. Lula foi levado para dentro do sindicato através das mãos do seu irmão, Frei Chico, ativista ligado ao PCB, em 1968. Sobre este episódio, Lula nos fala:

Em agosto de 1968, estava em formação a chapa para concorrer às eleições de fevereiro de 1969. Meu irmão foi convidado para ser diretor, mas não aceitou. Já existia um diretor da fábrica dele, que era muito pequena e não comportava dois diretores, e o outro era muito amigo, ele não aceitou. Na Vilares, nunca tinha havido um diretor de sindicato. Meu irmão achava que era importante pôr uns caras na diretoria e me convidou. Eu não queria aceitar, eu não estava preparado, eu não conhecia a coisa. Então me convidaram para uma reunião com alguns diretores do sindicato e eles me convenceram. Não entrei por consciência, entrei por convencimento. Entrei porque não tive argumentos para dizer não. (op.cit)

Portanto, em 1969, Lula toma posse na nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, sem ter tido nenhum aprendizado político, nem tampouco ter travado nenhuma luta contra a diretoria do sindicato. Ao contrário Lula irá ter assento na direção sem grandes traumas, ocupando o cargo de suplente.

A consciência de Lula nessa época era a de que sindicato poderia mudar alguma coisa no que se refere ao conflito dentro da fábrica. No entanto, ele não tinha nenhum conhecimento da legislação sindical do Brasil e que, só de posse desta consciência, é que ele vai se defrontar com os patrões e, mais tarde, com a estrutura sindical brasileira, muito embora isso nunca tenha se dado de uma maneira total, haja vista a preservação ainda nos dias de hoje, de toda a parafernália que é o aparelho sindical em muitos aspectos e que ainda se mantém da velha, gasta e fascista Carta del Lavoro, a despeito da propalada luta pela ratificação da Convenção 87 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que irá ser discutida mais adiante.

Segundo Lula, é em 1972 que ele vai travar a sua primeira luta com a maneira tradicional de se dirigir um sindicato, de fazer sindicalismo. É nesta época que ele vai se aproximar de um setor da diretoria que se dizia oposição, mas que, segundo ele próprio, acaba por sair deste grupo, vindo a incorporar e aceitar um cargo de 1º secretário na executiva do sindicato na chamada direção tradicional. Assumiu, ainda neste período, a função de responsável pelo Departamento da Previdência Social e FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), como ele mesmo disse for cuidar dos aposentados.

Em 1975 Lula, passa a discutir uma necessidade de mudança da previdência do sindicato de Paulo Vidal, que já bastante desgastado. Mostrou-se interessado em sair do cargo de presidente, assumindo, a partir daí, o cargo de secretário-geral, passando Lula a encabeçar a chapa da nova diretoria. Ainda segundo Lula, até esta época ele não havia falado ao microfone, o que o levou, na posse da diretoria, a ler um documento de forma bastante trêmula. Lula passa esta época por um desafio e um processo de aprendizado que o leva a defender posições políticas confusas e por demais preconceituosas para com o método científico de análise. É assim que ele nos fala uma de suas máximas por muito tempo: “Por isso eu falo que a prática é muito mais importante que a teoria” (op.cit)

De fato a prática política é importante, mas ela sem a teoria é cega, ou ainda, sem teoria revolucionária não existe prática revolucionária, podemos dizer deste feito parafraseando o principal revolucionário socialista do século XX: o Lênin. Mas o que Lula iniciava desta época em diante era um processo de formação política e sindical que iria passar longe de um processo realmente sério de mudança social. É desta feita, portanto, que Lula irá para o Japão a convite dos sindicatos daquele país, que coincidiu com a prisão do seu irmão Frei Chico, então militante do PCB. Lula, como ele mesmo se classifica, era um militante sindical comum tinha medo de ser preso, pensava na família e ponderava por um sindicalismo comedido. Segundo ele, a partir da prisão do seu irmão é que vai perder o medo e adquirir uma “consciência de classe”. É desta forma que Lula vai ter o seu primeiro contato com um órgão de repressão política do Estado, o DEOPS de São Paulo e pode observar o quanto era indigna e desrespeitosa a atitude das autoridades políticas na época da Ditadura Militar. Porém Lula nos diz o seguinte: “Quando fui preso o tratamento que esse Campanella me deu foi assim de pai para filho” (op.cit)

Por que será que houve esse tratamento diferenciado para com Lula? O fato é que, na verdade, Lula não era uma ameaça de fato ao sistema político capitalista brasileiro, pois, se assim o fosse, não poupariam esforços para o prolongamento da sua estada na prisão, a tortura, ou até mesmo a sua eliminação física. E isso não foi porque ele tinha por atrás de si uma massa significativa de trabalhadores, mas, sim, pelo fato de ser ele um interlocutor por demais destituído de qualquer projeto ou vínculo com os setores que até então propunha a revolução como meio preferencial para se transformar a sociedade. Alguns setores da esquerda de fato vão ter uma aproximação com Lula: remanescentes da ALN (Aliança de Libertação Nacional), de setores da Igreja Católica e intelectuais de formação social democrata.

Em primeiro lugar gostaríamos de salientar que aquela conjuntura era marcada pela total ausência de um partido revolucionário, com influência predominantemente nas principais lideranças operárias. Em segundo lugar, não havia, por conta da inexistência do partido político, um projeto disseminado e que estas lideranças incorporassem como seu. Em terceiro lugar, os trabalhadores não avançaram no sentido de consolidação de novas formas embrionárias de poder em contraposição aos instrumentos arcaicos e inadequados à luta socialista, como eram os sindicatos e a estrutura sindical herdada do Estado Novo, que, neste momento, ao contrário, era devidamente fortalecida por Lula & Cia.

Lula o “sindicalista combativo” no meio sindical e da esquerda, com exclusão apenas do chamado campo pelego/reformista, que irá trabalhar já no I CONCLAT (Conferência Nacional da Classe Trabalhadora), na perspectiva de não aceitação da influência do “sindicalismo de São Bernardo”, não era nenhum militante socialista e/ou comunista como chegou a se pensar na época os menos informados. Contudo, Lula acaba por superar muitas de suas posições, vindo a se propor, em 1978, no congresso dos trabalhadores petroleiros em Salvador, a criação de um partido de trabalhadores. Este momento coincide com o processo de abertura lenta, gradual e segura, que vai marcar a fim da Ditadura Militar. Sobre isso escreve Frei Beto:

A luta dos movimentos sociais, a campanha por anistia aos atingidos pela Lei de Segurança Nacional, o fracasso da política econômica do governo, exigiam um novo ordenamento político compatível com os princípios elementares da democracia. O retomo aos exilados políticos abria o debate em tomo da reformulação do quadro partidário, desde 1964 reduzindo a bipolaridade entre o partido da ditadura e oposição consentida limitada pelo casuísmo eleitoral, (op. cit.)

Esta análise acima colocada a título de ilustração era compartilhada por boa parte da esquerda, dos movimentos sociais e de setores da dita igreja progressista que opinaram pelo fim da ditadura na perspectiva de se ampliarem os espaços de organização e luta da sociedade através de uma democracia, que só poderia ser nos melhores moldes da social democracia. Já experimentada na Europa de maneira bastante farta. Este modelo de organização política não  propõe a pôr um fim no capitalismo e na sua correlata exploração da força de trabalho. Ao contrário, ele deseja, na verdade, a ser um espaço de convivência pacifica entre as forças do capital e as do trabalho, ou melhor, pretende dirigir um estado político em que convivam de maneira pacífica capital e trabalho, com momentos de alternância de governo, desde que persista o compromisso em não se realizarem rupturas com a ordem política e social estabelecida, o capitalismo.

Na verdade, cria-se, a partir daí, um amplo movimento pela construção, no país, do Partido dos Trabalhadores, colocando para a sociedade uma alternativa de governo à Ditadura Militar e aos partidos democráticos e liberais burgueses. Este partido, vai de fato, se consolidar e em 1982, nas primeiras eleições após a Ditadura Militar, irá concorrer com os demais partidos surgidos com a reforma partidária. Lula, nessa época, já aceita a luta política, muito embora esta para ele não passa de uma ação institucional legal por dentro dos tentáculos do Estado burguês. Para se ter uma ideia do que pensava Lula acerca do SOCIALISMO transcreveremos uma passagem a que ele se refere a esta concepção:

Fazer política não é só militar no Partido ou nos Partidos. É também participar da luta pelo esgoto do bairro e pelo melhor preço da safra no campo. É modificando em cada lugar deste país as relações sociais e as relações de produção, que o nosso povo chegará um dia a modificar em todo país as relações de propriedade suprimindo a contraposição entre o capital e o trabalho. (Discurso proferido por Lula na Primeira Convenção Nacional do PT – Citado no Texto LULA, O PRESIDENCIÁVEL – SÉRIE SOCIALISTA, N° 1 em fevereiro de 1989).

Como vemos aqui, o pensamento de Lula era confuso e cheio de erros quanto ao socialismo. Estas concepções, ao invés de ajudar a esclarecer aos trabalhadores, só engrossavam o caldo cada ver mais do reformismo e da social-democracia, que disputavam palmo a palmo a influência de suas ideias na cabeça da então principal liderança do Partido dos Trabalhadores. Dizer que relações de produção é a mesma coisa que relações de propriedade – o fato econômico estrutural e social com a sua expressão jurídica – passa a ideia para os trabalhadores de que com uma mera modificação das relações de propriedade se suprime definitivamente as contradições entre o capital e o trabalho, como também, as relações de produção. Esta questão está muito bem assinalada no texto de 1989 – LULA O PRESIDENCIÁVEL a que acabamos de nos referi. Mas, não é só aí que se encontra o erro de Lula. Aquela análise de 89 critica a concepção do socialismo de conta-gotas, ou seja, combate a afirmação de que o socialismo se construirá hoje aqui, amanhã acolá, hoje nesta luta no bairro, amanhã no campo e assim por diante. O socialismo era, portanto, visto como um processo fragmentário das lutas políticas e sociais, não acenando, por conseguinte, com a possibilidade de se estabelecer, em um projeto estratégico, a tomada ou a conquista do poder político, incorporado, desta vez, num Estado de novo tipo, basicamente em uma república de Conselhos Operários e demais trabalhadores, que, desde já, afirmamos deverá existir embrionariamente em seus aspectos mais determinantes desde muito tempo, antes da instalação de uma situação e crise revolucionária, ou melhor, de uma revolução socialista pela constituição da classe operária em classe dominante e a conquista do poder político. Na verdade, o que tratava Lula já nesta época era da colocação em discussão do projeto político social-democrata.

Mas ainda encontramos passagens no discurso de Lula, já em 1982, que elucidam ainda mais a sua concepção, em que, malgrado a ingenuidade de alguns naquele momento, já estava estabelecido, em linhas gerais, o seu reformismo e seu desejo por uma social-democracia no Brasil. Vamos ao discurso:

Nós do PT, sabemos que o mundo caminha para o socialismo. Os trabalhadores que tomaram a iniciativa histórica de propor a criação do PT já sabiam disso muito antes de terem sequer a ideia do Partido. E por isso sabemos também que é falso dizer que os trabalhadores, em sua espontaneidade não são capazes de passar ao plano de luta dos partidos, devendo limitar-se às simples reivindicações econômicas. Do mesmo modo é falso dizer que os trabalhadores brasileiros, deixados a sua sorte, se desviarão do rumo de uma sociedade justa, livre e igualitária. Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por isso sentíamos na própria carne, e queremos, com todas as forças, uma sociedade, que, como diz o nosso programa, terá que ser uma sociedade sem explorados nem exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista? (op.cit).

Como vemos, Lula usa fartamente do recurso demagógico e de frases prontas, estereótipos, portanto, para explicar o que de fato não tinha e não tem conhecimento. A maneira “inexorável” de se conceber o socialismo é um verdadeiro desastre, pois se aproxima muito do discurso positivista, determinista e dogmático dos partidos de orientação stalinista. Dizer que os trabalhadores já nasceram sabendo da existência do projeto socialista, muito antes até da existência do partido, não é nem mais uma forçada de barra, é um verdadeiro disparate e uma tentativa cínica de levantar o ego dos trabalhadores, assim como, da sua consciência embrutecida, a um patamar de compreensão de mundo que não se limita ao recurso da luta política, mas também, ao campo do desenvolvimento da teoria, da práxis, e da ideologia, coisas, aliás, de difícil assimilação por parte do companheiro que fica horas e horas ao pé da máquina se derretendo todo para se produzir mais-valia para o burguês capitalista. Portanto, para que os trabalhadores possam vir a adquirir consciência de classe socialista, ele tem que, necessariamente, se desprender da sua condição de explorado, destacando-se na verdade do conjunto de sua classe para um momento, bastante especial, podemos afirmar, de estudo, discussão e formação do que vem a ser o socialismo.

No artigo Lula o Presidenciável, é possível se lerem as seguintes palavras:

LULA, não sem uma acentuada arrogância de “teórico” acerca do que nada sabe, subestima os meios e recursos de persuasão da burguesia sobre os trabalhadores. Ele esquece – ou desconhece – de que os trabalhadores e os povos de muitos países como a Itália, a Espanha, etc., e, mais recentemente a França (1968) recuaram em processos muitos mais avançados do que o dos brasileiros exatamente porque, não contando com um projeto e só contanto com a “sabedoria espontânea” foram enredados por uma burguesia mais organizada e apetrechada de meios que promoveram o abortamento de processos revolucionários, (op.cit)

Estas palavras proféticas já antecipavam a repetição histórica por outros meios, das experiências dos trabalhadores brasileiros no tange à cooptação e acomodação por parte das principais lideranças políticas e sindicais encasteladas nos Partidos dos Trabalhadores, na verdade, uma farsa histórica, bem aos moldes do projeto social-democrata que, nem de longe, pode ser confundido com o socialismo. A burguesia utilizou ao contrário do que profecia Lula, de maneira bastante farta este discurso, através de vários porta-vozes do PT e do movimento sindical, no sentido de desarmar os trabalhadores ainda mais, quanto ao combate contra o capital e na defesa de seus interesses.

As lutas de caráter econômico poderiam ser perfeitamente ultrapassadas, desde que se apontasse para os trabalhadores e demais segmentos explorados do povo uma perspectiva organizacional e “estatal” de um novo tipo, em contraposição ao poder de Estado da burguesia. Só com a existência de formas de organizações superiores às então observadas no país, é que os trabalhadores poderiam pensar em uma nova alavancagem para a luta de classe no Brasil no sentido do socialismo, ao invés de se encaminhar para um grande pacto entre classes sociais antagônicas, no que se refere às suas aspirações de ordem política.

Mas, este discurso por demais reacionário de Lula já existia por algum tempo também na cabeça de vários intelectuais de formação social-democrata. Pois, é a partir daí que ele nasce e desenvolve metamorfoseando-se no discurso das principais lideranças dos trabalhadores e do clero dito “progressista” da Teologia da Libertação, que também vai exercer influência na formação desta nova leva de lideranças operárias e sindicais, bem como nos diversos movimentos outros surgidos desde basicamente de 1978 em diante. Convém ressaltar, ainda, o basismo, ou melhor, o apelo às bases e à prática, em detrimento da questão teórica, passando assim a imagem em ser perfeitamente possível se chegar a uma sociedade sem exploradores e sem explorados, o que se entendia por socialismo. Portanto, nada mais era do que o recurso meramente escamoteado da realidade, no sentido de se criar uma couraça em volta dos trabalhadores mais esclarecidos, no que se refere a qualquer aproximação com a esquerda revolucionária, os defensores do marxismo revolucionário, de influência positiva nestes setores, que, na verdade, também vinham buscando novos referenciais programáticos, basicamente na aplicação da tática e estratégia, como também, da concepção de partido, que realmente seria necessário às tarefas da revolução no Brasil.

Porta-vozes social-democratas como Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio, Eduardo Suplicy, Paul Singer, os mais em evidência nos anos de construção e consolidação do PT na década de 80, como também Frei Beto e demais da Teologia de Libertação vão exercer uma profunda influência no pensamento de Lula e, por conseguinte em toda uma geração de jovens militantes operários. Levaram ainda estes referidos senhores a que Lula acabasse por reproduzir concepções e ideias realmente preconceituosas e desonestas no que se refere à estratégia e a tática concebida para a luta. A este respeito o LULA O PRESIDENCIÁVEL coloca:

O nosso ponto de vista não quer dizer que o SOCIALISMO deve ser implantado pelo planejamento, mas sim que as lutas sociais, de classe, isto é, as lutas políticas, não podem prescindir de projetos estratégicos e táticos se desejavam ser vitoriosos e evitar se tomarem fracassos históricos. A questão central não consiste em eliminar o projeto, a estratégia e a tática, e sim saber duas coisas relacionadas entre si: uma delas é formular projetos, estratégicas e táticas justas capazes de levar os interessados à vitória sobre o inimigo; e a outra é garantir a plena e mais democrática participação dos interessados na formação, na direção política e, evidentemente, na excursão dos referidos projetos, estratégicas e táticas. Eis do que se trata.

Mas, os anos se passaram desde o discurso proferido no PT em 1982, e eis que em 1986, em entrevista ao repórter Alexandre Polesi da Folha de São Paulo um Lula já metamorfoseado, devido a sua já significativa experiência em matéria política, pois o mesmo além de ter conversado e discutido com muita gente, não só no Brasil, mas, em Cuba e na Europa, tenta se apresentar com um discurso distanciado da social-democracia e com uma nítida preferência pelo discurso político de Fidel Castro e devido ao deslumbramento das idas a Cuba. Lula chega a afirmar na entrevista mais um disparate, ou seja, coloca que o PT, na prática, é um “partido marxista”, sem saber ele na verdade, pela sua postura, pela sua fisionomia e pelo seu caráter, este partido estava mais para a social-democracia do que para o marxismo revolucionário. Na verdade, os estudos de Lula a respeito do marxismo, ao que tudo indicava, eram incipientes e não pautados pela leitura dos clássicos (Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, etc.), ao contrário, o “marxismo” era passado a Lula pelas mãos de terceiros, pelas mãos de reformistas indesejáveis ao movimento dos trabalhadores, mas que, independente da vontade dos revolucionários que habitavam nestes movimentos, detinham a influência em cabeças como as de Lula, por exemplo.

Para se ter um exemplo claro do que isso significava, tomemos a título de ilustração, “uma bandeira de luta daquele período.” O não pagamento da dívida externa. Esta bandeira, na verdade, na forma defendida por Lula e demais asseclas possuíam, e ainda possui, uma forte tendência para o nacionalismo terceiro-mundista cepalino. A questão das dívidas externas dos países capitalistas menos desenvolvidos, ou de desenvolvimento tardio, basicamente da América Latina, África e boa parte da Ásia, foram objeto de discussão no PT, no movimento sindical e demais partidos ditos de esquerda. Em agosto de 1985, realiza-se a Conferência sobre a Dívida Externa em Havana. Esta conferência aprovou a Carta de Compromisso de Havana onde dentre outras coisas afirmava o seguinte:

As condições impostas pelo FMI aos países devedores são inaceitáveis porque sobre eles descarregam todo o peso da crise internacional determinando a desestruturação de suas economias, obrigando a pagar juros escorchantes. Fomos transformados em exportadores de capital e já pagamos muito além do que foi emprestado. Este mecanismo perverso financia a recuperação das grandes potências capitalistas e armamentismo dos EUA, que assim exortam sua crise para a periferia.

Em primeiro lugar, é bem verdade que os países imperialistas, na sua maioria quase absoluta, jogam o peso da crise nos elos mais fracos da cadeia capitalista. Mas, nunca é demais afirmar, as economias dos países devedores são hoje na sua totalidade formações econômicas capitalistas, baseadas na exploração do trabalho dos assalariados, camponeses e indígenas empobrecidos. Portanto, países que convivem internamente com contradições de classes antagônicas: os trabalhadores versus burguesia. Não se trata de salvar a burguesia destes países, como ficavam explicitados nos discursos de Lula, intelectuais do PT e demais partidos que se diziam compor o campo da esquerda no Brasil. Por outro lado, escondia-se o verdadeiro motivo em não se pagar a dívida externa, isso naquela época em que se chegou a uma proposta aparentemente radical, com um corpo de argumentação praticamente nacionalista e reformista, que não levou a nenhum aumento no grau de consciência, ao contrário, possibilitou aos setores reacionários mais a direita da sociedade a construção do discurso “anti-calote”, como ficou conhecida a proposta de não pagamento da dívida externa.

Por outro lado, o fato de os países devedores terem sido exportadores de capital e já terem pagado muito além do que foi emprestado, não é por assim dizer, o motivo para não se pagar a dívida externa. Este se mostrou como um argumento meramente formal e de cunho moralista. O fato de os trabalhadores defenderem o não pagamento da dívida deve-se a maneira de eles não terem realizado nenhum empréstimo e tampouco passaram alguma procuração à burguesia para que fossem tomados empréstimos. Mas, o argumento mais importante é o de que, não se pagando a dívida externa, poderia desencadear um movimento em cadeia de acirramento da luta de classes em escala internacional, o que só poderia ocorrer em um processo nitidamente revolucionário socialista, que não cabia e não cabe no projeto de Lula, visto que, ele, particularmente, foi-se distanciando desta bandeira. A proposta de luta contra a dívida externa estava ligada a outra, a saber, a luta por uma “Nova Ordem Econômica Internacional”. Esta proposta, na verdade, é um programa aprovado em maio de 1974 por iniciativa de países não alinhados, em cuja presidência estava Cuba, mais tarde aceita pelos países desenvolvidos e posteriormente jogada às traças depois de desgastá-la ao máximo.

Não era do interesse de Lula, dos seus correligionários e seguidores que os trabalhadores não pagassem a dívida externa quando tomassem o poder político da burguesia e iniciassem o processo de implantação do socialismo, sendo aí solidários internacionalmente com o conjunto da classe operária e dos demais setores proletários do mundo que são explorados pelo capital imperialista em especial e demais segmentos do capital como um todo. Nada de salvar setores da burguesia que, presumivelmente, estariam em contradição com o grande capital em países ditos de Terceiro Mundo, e que, por isso, deveriam ser apoiadas pelo conjunto dos trabalhadores num programa “soberano” e de “salvação nacional”.

A “Nova Ordem Econômica Mundial” defendida por Lula, PT, demais partidos e pelo movimento sindical, aspirava na verdade a um desenvolvimento dos países capitalistas atrasados e possuidores de uma dívida externa astronômica dentro dos marcos da economia capitalista internacional. É por conta disso que se exigia reformar o sistema monetário internacional para que, desta forma, pudesse colocar o conjunto destes países numa posição melhor e até mesmo de destaque, frente aos demais países do sistema capitalista. Não se tratava, portanto, de destruir todas as bases da acumulação de capital-produtivo, comercial e financeiro, mas, sim, de coparticipação no domínio da exploração de classe.

Quanto à questão de que os países imperialistas exportam sua crise para a periferia, é o maior de todos os absurdos em matéria de argumentação política e econômica, ou melhor, tenta se construir uma concepção de que a crise nos países capitalistas atrasados só existe por conta do imperialismo e da sangria externa, não existe toda uma dinâmica de acumulação de capitais internamente, que, associado à acumulação imperialista, acaba por determinar toda a construção da estrutura instalada, que se rege antes e acima de tudo pela lógica e leis do capitalismo, sujeito, portanto a crises de superprodução de tempos em tempos ou mesmo de longa duração como agora ocorre de maneira sincronizada, entre países imperialistas e países de desenvolvimento tardio ou mesmo atrasados.

Foi com esta cabeça que Lula concorreu a eleição de presidente da República e atingiu 18% das intenções de voto, segundo o Datafolha. Fernando Collor tem apenas 9% e a vitória petista era tida como liquida e certa, porém, deu Collor na urna. Em 1994, em uma nova disputa, Lula chega a obter 39% das intenções  segundo pesquisa do Ibope, Fernando Henrique Cardoso situava-se na casa dos 17%, muitos analistas já afirmavam que Lula venceria. Venceu Fernando Henrique. Mas persistente na sua via de acesso à “chefia” do Estado brasileiro, Lula parte para mais um embate eleitoral com Fernando Henrique, desta vez tecnicamente empatada e com esperança para o segundo turno, mais uma vez Fernando Henrique é eleito no primeiro turno. Por este percurso todo, Lula certamente adquiriu experiência em matéria de eleição e jogadas midiáticas. Lula ficou mais “habilidoso” no trato de questões políticas centrais. A revista Veja de quatro de junho de 2001, traz uma coletânea de frases de Lula através dos tempos, que, muito embora não seja de serventia para se conhecer em profundidade o pensamento dele, pode nos dar perfeitamente um quadro de sua evolução cada vez mais em direção aos interesses do capital monopolista e imperialista e dos seus sócios menores da chamada burguesia nacional. Senão vejamos:

Junho de 1981 – “Além de o PT ser um partido de esquerda, é um partido que tem um objetivo socialista”.
Julho de 1985 – “Não podemos, não queremos e não devemos pagar a dívida externa”.
Janeiro de 1986 – “Quando chegarmos ao socialismo, vamos dizer como será”
Novembro de 1988 – “O PT passaria a ter problemas se abrigasse tendências de direita”.
Janeiro de 1989 – “Nossa posição é clara: nós teremos de suspender o pagamento da dívida externa”.
Maio de 1989 – “Onde tiver terreno vazio, o trabalhador sem moradia deve invadir”
Fevereiro de 1994 – “Sou contra a maneira como os empresários querem a privatização. O que eles querem é pegar empresas que já existem e que são rentáveis”. Maio de 1998 – “Podemos fazer alianças sem nos prostituir”.
Fevereiro de 2000 – “Quando questionamos a privatização, não é por princípio e sem questão de necessidade ou não. Temos várias empresas que deveriam ter sido privatizadas e outras que não deveriam”.
Junho de 2001 – “Eu acho que essa discussão numa campanha eleitoral, capitalismo e socialismo, está defasada e fora de época”.
Junho de 2001 – “Existem contratos que não podem deixar de ser cumpridos, mas isso não significa que sejamos obrigados a concordar com eles”.

Apesar de a revista ser um potente instrumento e porta-voz da burguesia, o fato é que Luis Inácio Lula da Silva falou perfeitamente o que está ali escrito e publicado. Na verdade, uma tremenda de involução de Lula e seu pensamento que, em se tratando de um militante político de “esquerda”, deve ser caracterizado claramente um traidor e renegado, conjuntamente com a cambada de seus seguidores, que teimam em trilhar e percorrer, pelos caminhos da contrarrevolução burguesa.

Por fim, Lula parte mais uma vez para a campanha eleitoral já em estado bastante avançado de putrefação política, pois este já misturou com as fezes de galinha, o senador do Partido Liberal, o empresário “bem sucedido”, José Alencar. Mas que, no entanto, não deixa de ser uma saída para a burguesia, que apesar do aprofundamento da crise do capital, ela não perde a esperança em  estabelecer acordos com a classe trabalhadora, mais desfavorável ainda do que os até então firmados. Não deixa de ser Lula uma alternativa ao engodo eleitoral burguês, pois, apesar dos pesares, está hoje perfeitamente enquadrado na essência, e também na aparência, do que se convencionou chamar quadro orgânico da classe dominante ou ainda um “chefe de Estado”. Podem-se ter ressalvas por parte de setores da classe dominante, mas ele se esforçou por fazer a lição de casa, ah! Isso ele fez de forma exemplar e o conjunto da burguesia deve muito a ele. Mesmo com acirradas disputas de preferência eleitoral, pois o barbudo das greves dos anos 70 e 80 do século XX, já está no momento devidamente comportado e por que não dizer acomodado ao mundo burguês, domesticado e com disposição em servir ao capital e coparticipar com ele da comilança do bolo.

Uma alternativa a Lula, não pode ser encontrada também nos setores que se apresentam para os trabalhadores e o povo oprimido, ou mesmo que defendem um projeto próprio como é o caso do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), do Partido da Causa Operária (PCO), e do Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL) que, por sinal, não realizaram de forma contundente uma crítica às concepções existentes no PT, como também não realizaram um balanço das suas próprias concepções no curso das existências. Ao contrário, o que se verifica, nestes partidos, é a cristalização dogmática da concepção marxista, basicamente do pensamento de Trotsky e do seu Programa de Transição, que, mesmo tendo sido superado em vários de seus pontos, ainda persiste como referencial analítico-programático nas concepções destes partidos. Estes setores teimam ainda em participar do processo eleitoral burguês com candidaturas próprias, que, ao invés de angariar simpatias por parte dos trabalhadores, acabam, muitas vezes, sendo objeto de gozação e ridicularização, até mesmo das propostas mais consequentes que, por ventura, eles tenham a apresentar. Estão ainda estes partidos, legitimando o processo eleitoral com a sua participação, o que, convenhamos, não dá para aceitar, nem obedecer à tática para a luta institucional mais adesista ao estado burguês.

Para ser realmente consequente no enfrentamento da luta política com a burguesia, deve-se negar todo o processo eleitoral, e as candidaturas, não legitimando o processo como um todo. O sufrágio universal burguês não serve como instrumento de escolha de governantes nem tampouco garantirá a governabilidade como se tentará impor o discurso do eleito. A luta de classe vai continuar dentro do capitalismo independentemente de quem vença as eleições. Mas o fato é que há muita gente querendo governar o Estado burguês ah! Isso sim. Portanto, é muito melhor cerrar fileira com os que vão se abster de votar, com os que vão votar em branco e, mais ainda, os que vão protestar votando nulo. Estes realmente serão votos muito mais expressivos dentro dos reais limites da democracia burguesa. Só o SOCIALISMO será capaz de modificar esta relação e só o SOCIALISMO poderá inaugurar uma nova fase de democracia operária pautada na couraça dos conselhos e formas outras igualmente revolucionárias, de estrutura organizacional de novo tipo, democrático e socialista, de participação ampla e que acumulará, dentro de si, tarefas executivas, como legislativas. Combatendo assim, desta forma, todo e qualquer resquício burocrático do velho Estado.

A Verdadeira Natureza do PT

Um dos pontos mais polêmicos e por demais confusos da história política brasileira mais recente é o que se refere à caracterização do PT. Alguns ainda insistem em tratá-lo como partido de esquerda, numa nítida conceituação burguesa oriunda da Revolução Francesa de 1789, que não difere em nada sua composição de classe, o seu correlato programa político e a sua prática social.

O PT, desde o seu nascedouro, se deparou com o estabelecimento de um movimento operário buliçoso, que, apesar de se situar nas hastes do sindicalismo e da influência de intelectuais reformistas, social-democratas e lideranças religiosas afins, abriu espaço para o surgimento de uma nova vanguarda sem tradição e compromisso nenhum com o reformismo. Apesar disso, não foi possível se fincarem pés nos princípios do socialismo e/ou comunismo marxista, na profundidade que se faz necessária à formação e capacitação da nova geração de trabalhadores e trabalhadoras, em seus enfrentamentos de classe contra as forças do capital.

O PT, de muito tempo, afastou-se das lutas dos trabalhadores e acabou por adentrar nas esferas mais profundas da máquina do Estado, em todas as instâncias em que se faz presente o novo agente social: o militante petista. Dar emprego a toda esta camarilha que parasita o Estado, desfruta do erário, corrompendo-se e reproduzindo-se continuadamente, acabou por tornar-se a tarefa principal dos dirigentes petistas à frente dos governos.

Esta camada social não é, por assim dizer, uma classe social em toda sua plenitude, quanto à definição marxista do conceito de classe, haja vista que o entendimento principal é o de classe detentora dos meios de produção, dentro de relações de produções específicas, de uma determinada formação social capitalista, que acaba detendo, também, o poder político na esfera do Estado.

O poder político pertence a uma classe social. No modo de produção capitalista, é a burguesia que se faz presente na dominação de classe, em todos os segmentos econômicos da sociedade: industrial, comercial, financeiro e no agronegócio. A burguesia precisa ainda de um vasto leque de colaboradores para a manutenção da ordem estatal, quer seja nas forças militares e de repressão como um todo, quer nos diversos setores em que está plantada a máquina pública do Estado: saúde, educação, transportes, habitação, previdência social e serviço do judiciário como um todo, bem como, nas empresas estatais do governo.

Por todos estes campos proliferam a mais sórdida corrupção e tráfico de influência, à custa de polpudos vencimentos pagos pelo tesouro e capitalistas em troca de favores e mordomias várias. Mas, nem por isso, podemos chamar esta camada social toda que parasita o Estado de burguesia. Muitos deles – e não foram poucos – acabaram acumulando riquezas e capital pelos meios mais inescrupulosos possíveis, e se transformaram, de fato, em grandes capitalistas vivendo hoje da exploração dos trabalhadores.

Contudo, o grosso, a ampla maioria mesmo, do quantitativo que compõe hoje o conjunto dos que parasitam a máquina do Estado é, na verdade, uma casta de milhares de serviçais burocratas, que se reproduzem com o aval de importantes segmentos do capital. Estão eles bastante acomodados, além do mais, saíram todos eles dos espaços mais próximos da classe operária, em particular, e do conjunto do proletariado no geral, espaços estes que também se corromperam ao longo de um vasto processo, igualmente viciado, de cooptação política, programática e ideológica.
Assim, o PT, pelo seu desenho tático-estratégico, como também pela sua prática política militante, tem tudo de um partido eminentemente burguês, muito embora, organicamente, no tocante a sua caracterização de classe, ele é uma estrutura do Estado, que o incorpora enquanto uma casta de burocratas, compartilhando o poder com a classe dominante. Esta casta que o PT representa, juntamente com os seus aliados próximos, oriundos do reformismo tradicional, está sujeita a toda espécie de ação da burguesia, que ora apoia e alimenta, ora combate as práticas menos aceitáveis segundo o padrão moral burguês e seus interesses de classe.

Aos movimentos dos trabalhadores e da juventude, que estão numa postura de independência frente à burguesia e o seu Estado, no combate aos efeitos da crise do capital, deve-se, também, realizar um enfrentamento ferrenho das práticas contrarrevolucionárias deste partido caudatário da burguesia e de sua correlata representação de casta como um todo.

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