A Escala e o Desdobramento da Atual Crise no Mundo e no Brasil

Germinal vem afirmando, com insistência, que esta crise desembarcaria no Brasil trazendo na sua bagagem todo o arsenal constituído de efeitos, causas, determinações e aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais, ideológicos e ecológicos deletérios que uma crise crônica, sistêmica e universal como esta é capaz de portar. Isso quer dizer que no plano mundial a crise do capital atual será, no Brasil, com absoluta certeza, senão a mais, uma das mais graves de todas as que venham a abarcar as mais diversas nações do Globo. As razões são simples e conhecidas de todos: o Brasil detém alguns certificados nada invejáveis que o identificam e o capacitam como o país que possui uma estrutura econômica oligopolista responsável pela mais regressiva distribuição estrutural da renda no Planeta, distribuição estrutural esta, bem entendido, que nenhum esquema governamental de distribuição de quinquilharias assistencialistas — e populistas —, feitas apenas para tapear as camadas dos sans-culottes brasileiros, é capaz de anular, quanto mais alterar sólidas posições de classes numa estrutura rigidamente inviolável.

Somadas a esse aspecto da distribuição da renda no país, que responde por uma das maiores taxas de lucro e, consequentemente, por um dos mais elevados graus de exploração da mais-valia ao trabalhador brasileiro, há também outros fatores responsáveis pelo grau de exposição da economia e do povo brasileiro à sanha da “crise Tsunami”, tal o caso de outro item, que talvez tenha mais sucesso do que o futebol no cenário internacional, que é, reconhecidamente, uma das campeãs, uma das mais escorchantes políticas tributárias e de arrecadação fiscal do cenário mundial — bem entendido, quando apontadas para os salários e as pequenas rendas, porque, no caso do capital propriamente dito, o dos grupos mono e oligopolistas do agronegócio, do comércio, da indústria, nomeadamente a automobilística e, sobretudo, o das finanças, a conversa é muito outra: tratamento vip aos gajos, que ninguém é de ferro. Por isso, levam na bandeja outros ingredientes tais como gordas isenções fiscais e financeiras, transferências de recursos financeiros sem nenhuma contrapartida de qualquer natureza, além da cessão, a título de “estímulo”, de barracões, água, energia, portos, terrenos e outras regalias, como se a toda poderosa FORD (aqui citada apenas como uma ilustração emblemática) necessitasse de tantos brindes como os que lhe foram gentilmente ofertados.

O terceiro motivo que, no entender de Germinal, deverá fazer com que a crise mundial, na sua versão social, nasça ou renasça no Brasil com desmedida força pertence à ordem das superestruturas, pois diz respeito à cultura política com a qual as chamadas “elites” brasileiras acharam-se no direito sagrado e, por assim dizer, perpétuo, de tratar o gentio pátrio com a maior falta de respeito, com o mais absoluto desdém, com a maior torpeza e falta de sensibilidade no trato dos graves problemas e vexames impostos às massas populares deste país, certamente por se sentirem seguras de que a impunidade que elas mesmas erigiram como auto dádiva eterna de fato o fosse, ou seja, na certeza de que jamais seriam cobradas por isso como estão começando a ver a partir desse excepcional mês de junho do ano da graça de 2013! Aliás, um arremate proporcionado pela História deste país, que, para os que sabem ler as conjunturas em ebulição, estava estampado na fisionomia feita de ódio e de justo rancor de classe na cara de qualquer mulher ou homem do povo quando eram obrigados a se referir a algum digníssimo membro representante da veneranda “elite brasileira”, aí sim, através de um desdém justificável e justificado porque emanado do sofrimento dos explorados, oprimidos e sempre reprimidos, direta ou indiretamente, pelo capital.

A crise e a alienação do trabalhador brasileiro, vítima de um brutal esquema de ideologia pós-moderna como meio de amortecimento de sua consciência de classe

A clareza da chegança da crise-vendaval em terras brasiliensis só não estava clara para quem, contra a vontade que fosse, de alguma maneira e em alguma medida estava, e segue estando, impregnada pela entorpecente, fetichizada e alienante visão torpemente ideológica com que a mídia tenta e consegue plasmar uma conveniente visão de mundo a toda a população de um país, uma bitolada pauta para que a população sinta, perceba, pense e aja de acordo com os interesses do capital. A essas pessoas, que infelizmente constituem ainda a maior parcela da população de um país qualquer, incluindo a maioria dos seus intelectuais, torna-se difícil perceber e compreender a dimensão da crise que se avizinha de seu país, no caso em tela o Brasil, até porque lhe é sistematicamente negado, por meio de toda uma casamata de bloqueios ideológicos, o intelectivo acesso ao núcleo de causas que operam na essência, determinando-lhe o caráter e, por extensão, a dimensão e os demais aspectos, da crise. Não obstante essas dificuldades, que dão forma ao problema político central a ser tenazmente enfrentado e encaminhado por todos os homens e mulheres, organizados ou não, que se mantenham firmes na suprema e generosa tarefa histórica de resgatar a humanidade da clausura de barbárie que lhe impôs o capital, é perfeitamente possível um cidadão comum, desde que apetrechado de curiosa sensibilidade e acuidade mental, perceber e compreender, por exemplo, o problema da dimensão da crise no Brasil, como, aliás, faltou compreensão à maioria da “elite” deste país, nela incluindo a Senhora Dilma Rousseff, M. D. Presidenta da Republica, ao se declarar surpresa e, evidentemente surpreendida, em junho de 2013, com a dimensão e a rapidez com que se propagou socialmente, com a descida às ruas e praças das maiores cidades brasileiras, tanto as capitais como do interior, de milhões (sem nenhum respeito às “pesquisas” da Globo e consortes) de homens e mulheres.

Há outro aspecto da crise, o que diz respeito ao seu desdobramento. Pelo caráter, extensão, duração, por ser crônica e irreversível e, mais ainda, pelo atraso das massas populares, sobretudo o da classe que, entre as que compõem o todo diferenciado da massa do povo, pelo caráter de classe que lhe é imanente, é a única que detém a faculdade potencial de assumir a direção de um projeto revolucionário de emancipação social de si e de toda a humanidade, a classe operária, situação de atraso que requer todo um processo de aprendizado, sem que essa classe tivesse contado com o benefício de uma direção sua, por todas essas razões e motivos esta crise não poderá seguir um curso linear na sua dimensão sócio temporal, mas, antes, um curso aproximadamente senoidal — não numa forma matemática, evidentemente, mas através de ciclos sem uma ondulação rigorosamente regular, ciclos como tendência, porém com durações, espaçamentos, características derivadas de fatores sociais de ordem vária, cujos contornos precisos não podem ser fixados de antemão, na medida em que não existem condições nem objetivas e nem subjetivas de uma sustentação linear de referido processo.

O proletariado brasileiro não pôde, a rigor, dispor, durante toda a sua existência, de uma direção revolucionária total e exclusivamente sua, fato que deve ter contribuído sobremodo para o atraso da sua consciência de classe. As mais diversas aparições nesse sentido só têm contribuído para a obliteração da emergência de uma consciência de classe para si, deseducação essa que, tendo início em 1922 com a inauguração de um projeto reformista nacional-burguês, seguiu curso por variadas formulações igualmente problemáticas, que incluiu desde o foquismo de inspiração guevarista, passando pela forma da guerra popular com o cerco da cidade pelo campo, maoista, até, recentemente, concepções que falam abstratamente do proletariado, mas que na prática estão de olho mesmo é na disputa eleitoral e na ocupação de cargos no Estado, com uma convivência e um comprometimento tão íntimos com os agentes, os símbolos e os valores burgueses que não é tarefa fácil distingui-los uns dos outros. Desde, portanto, a inauguração, em 1922, do Partido Comunista do Brasil — ou Brasileiro, não faz diferença no essencial — até a emergência das mais diversas combinações de reformismo putchista, surge, afinal, algo novo, como um partido finalmente de trabalhadores e dirigido por trabalhadores e intelectuais comprometidos com os trabalhadores. Ledo engano, deu no que deu. Quem não estava ali para se divertir, tratou logo de sair, com denúncia e marcando posição; quem, no oposto, estava ali à “procura de encosto” por lá permaneceu, de alguma forma conciliando com a construção do maior engodo da história dos trabalhadores no Brasil. Há também os que optaram por seguir os caminhos da dependência às instituições oficiais, por fora do PT.

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