A Luta dos Bancários no Brasil

A greve nacional dos bancários encaminha-se para o seu vigésimo oitavo dia na próxima segunda-feira, dia 03/10/2016, sem que os banqueiros se disponham a negociar em torno da pauta apresentada; pauta esta, diga-se de passagem, rebaixada, já que o percentual de ganho real reivindicado não repõe minimamente as perdas históricas acumuladas da categoria.

No site da CONTRAF-CUT existe uma matéria, intitulada “Nota de repúdio: OAB ataca o direito de greve dos bancários”, que esclarece:

[…] nossa greve é tão legítima quanto legal, uma vez que os Sindicatos cumpriram rigorosamente todas as determinações estabelecidas na Lei de Greve, priorizando os direitos dos aposentados e pensionistas, prova de vida, troca de senhas e recebimentos de novos cartões, garantia de 100% das salas de autoatendimento, através das quais os clientes podem realizar todos os serviços bancários, bem como assegurar o abastecimento dos caixas eletrônicos diuturnamente (Disponível em: <http://www.contrafcut.org.br/noticias/nota-de-repudio-oab-ataca-o-direito-de-greve-dos-bancarios-1feb>, acesso em 02-10-2016, grifo nosso).

Eis aí um dos calcanhares de Aquiles da greve: o prejuízo financeiro que ela causa ao banqueiro é pequeno ou inexistente. Pode existir algum prejuízo institucional à imagem dos bancos? Pode. Decerto pequeno. As grandes transações/operações nunca deixaram de existir por conta da greve e, atualmente, operações de todo e qualquer tipo e tamanho são efetuadas nos terminais eletrônicos ou na internet quando não nos agentes lotéricos e nos correspondentes bancários. Isto justifica também a postura intransigente dos banqueiros. É possível que o lucro de alguns bancos até cresça durante a greve porque diminuem os custos operacionais com as agências fechadas.

Nos últimos 12 anos, acostumamo-nos com um tipo de greve que mais parece com férias coletivas. As assembleias são escassas e nenhum bancário vai para os piquetes, que agora são completamente terceirizados. É a greve sanduíche: uma assembleia de deflagração, férias no recheio e uma assembleia para decretar o final da greve; em seguida, um acordo coletivo pelo qual os dias parados são “anistiados” no todo ou em parte em troca de um reajuste rebaixado ou simplesmente da reposição da inflação do período. Não que os bancários não mereçam férias; o problema é que isso acontece em detrimento do controle da base sobre o movimento.

Nesse tipo de greve, os sindicatos (o comando de greve) e as centrais sindicais têm completo controle sobre os rumos do movimento, porque este é despolitizado, sem a participação da base na sua construção e na sua manutenção. O sindicato aperta um botão e a greve começa; para acabar a greve, basta apertar outro botão. Pronto. Simples assim. Isso dava certo quando o jogo “era combinado com os alemães”, quando existia uma conjuntura na qual banqueiros/governo e sindicatos combinavam o jogo como forma de manter a situação sob controle, gerando o mínimo de insatisfação social, ajudando, desta forma, com os índices de popularidade do governo que naquele momento interessava mantê-los

Hoje a situação é outra. Os banqueiros estão apoiando, para variar, o atual governo, parido de “manobras escusas”, para dizer o mínimo, e que por conta da crise mundial está patrocinando uma série de reformas que irão precarizar ainda mais as relações de trabalho e emprego, como a reforma da Previdência, lei para aumentar o processo de terceirização, ataque generalizado à CLT, com a prevalência do acordado sobre o julgado, diminuição do percentual do orçamento da união a ser aplicado na saúde e educação, dentre outras medidas. A categoria dos bancários é a primeira a deflagrar, até onde sabemos, uma greve de abrangência nacional neste novo contexto. Os banqueiros e o seu mais novo governo estão querendo nos dar um tratamento exemplar para mostrar ao conjunto dos trabalhadores qual será a tom da conversa doravante, preferencialmente nos impondo um reajuste abaixo da inflação para servir como parâmetro para as demais categorias.

Portanto, para seguir a velha máxima, se queres resultado diferente, não podes continuar fazendo as coisas do mesmo jeito. Então, continuamos fazendo a mesma greve de sempre só que em uma conjuntura completamente diferente. Resultado: dificilmente teremos resultados iguais ou melhores do que tivemos em outros momentos.

Caso saiamos desta greve aceitando, inclusive, o acordo com validade para dois anos, significará que outra greve dos bancários só poderá ocorrer em 2018 já que para 2017 fica combinado reposição da inflação e 0,5% de “ganho real”.

A partir da próxima semana precisamos ficar alertas, pois a greve entrará em um período crítico no qual as direções sindicais poderão ficar tentadas a acatar a primeira proposta que o banqueiro venha a colocar à mesa, que poderá incluir, dentre outras coisas, a compensação integral dos dias parados. Precisamos comparecer às assembleias, disputar as propostas, ir para os piquetes, conversar com os companheiros e esclarecer acerca da necessidade da base se apropriar do movimento para dirigir os rumos da greve.

Diante dessa situação qual é a saída para o impasse? Não há fórmula mágica. Nenhuma categoria isoladamente será capaz de vencer os ataques. Os trabalhadores terão que superar o seu atual estágio de organização e de luta. Os ataques estão apenas no começo. A forma sindicato, com suas greves corporativas, é incapaz de instrumentalizar os trabalhadores para as lutas que virão. Vamos bater cabeça, errar muito, apanhar um bocado, mas teremos que aprender a atuar como uma classe e não apenas como uma categoria, porque é assim que o nosso inimigo age e luta contra nós e os nossos interesses.

GERMINAL

Brasil, outubro/2016.

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