DIRETAS, JÁ E DIRETAS, JÁ, JÁ. A QUEM INTERESSA?

Pequenos desacordos “operacionais” no seio da burguesia

A Folha de São Paulo, em seu editorial de domingo, 04/06/2017, considera “recomendável a cassação no Tribunal Superior Eleitoral da chapa que uniu Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB) e o posterior afastamento do presidente”. O jornal afirma que, neste momento, “o substituto de Temer deveria ser eleito por voto direto e que o mais importante é que o país aprove a reforma Trabalhista e a da Previdência para a retomada da economia”.

A revista Época, da editora Globo, em sua última edição do dia 06/06/2017, traz matéria assinada pelo jornalista Eugenio Bucci, que também é professor da ECA-USP, onde ele encontra um eufemismo para defender as eleições indiretas (proposta defendida pela rede Globo):

 Agora a ironia das ironias: se tudo der completamente errado com as “Diretas, já”, também teremos diretas, já, já, talvez só uns seis ou oito meses mais tarde. E assim vamos nós, entre as “Diretas, já”, que são para daqui a pouco, e as diretas, já, já do calendário oficial, já agendadas para o ano que vem (caso o Brasil não acabe antes).

No mais, essa propaganda toda em torno das “Diretas já”, ajuda a lavar a alma de demagogos e cidadão bem-intencionados. A antiga campanha das “Diretas, já”, a original de 1984, veio num tempo em que os brasileiros não votavam para presidente fazia mais de duas décadas. Estávamos sob uma ditadura. Agora o quadro é outro. Temer não é um ditador, mas, Deus do céu, como ficou desagradável. Ainda bem que teremos diretas, já, já .

 Portanto, a burguesia concorda em um ponto: Temer dançou. Falta alinhar como será substituído, através de eleição direta ou indireta. E porque Temer dançou? Porque não está conseguindo fazer as reformas na velocidade exigida pelo grande capital, que o colocou lá apenas para cumprir esta tarefa, já que a sua antecessora também não conseguiria fazê-las com a celeridade exigida. E o sucessor de Temer (eleito de forma direta ou indireta), terá que passar sebo de carneiro nas canelas, aprovar as reformas, para não cair também.

A agenda dos trabalhadores é a mesma da burguesia? 

Como podemos notar, para os trabalhadores pouco importa a forma como o sucessor de Temer será eleito. Essa agenda e esse calendário interessa, sobretudo, à burguesia e aos seus lacaios. Com “Diretas, já” ou “diretas, já, já”, o “eleito” terá que fazer as reformas Trabalhista e a da Previdência. O processo de lava aqui lava acolá tem por objetivo, dentre outros, rifar parte da oligarquia política, extremamente corrupta, cara e ineficiente, para levar a cabo os interesses do grande capital (o nacional associado e subordinado, inclusive), que, em meio à crise internacional, tenta se manter acima do nível para ele suportável. O objetivo da burguesia, com as reformas da Previdência e da Trabalhista é diminuir os custos de funcionamento do Estado hipertrofiado (a Previdência consome 16% do orçamento de 2017) e de “quebra” fomentar a Previdência privada que é um grande filão de negócios para os bancos.  Ainda com relação ao orçamento do governo federal para 2017, 37% do orçamento (R$ 1,331 trilhão) está comprometido com a rubrica juros e serviços da dívida, ou seja, não sobra muita coisa para investimento, principalmente em infraestrutura, para azeitar a economia e os negócios, sobretudo o agronegócio, carente de rodovias, ferrovias e portos que possam tornar as suas mercadorias mais competitivas no mercado internacional. Daí a exigência de baixar os juros (hoje a taxa de juros no Brasil é a segunda mais alta do mundo). Durante o ano passado o governo brasileiro pagou R$ 1,338 trilhão de juros e serviço da dívida. Com a crise, taxa de lucro das empresas em queda, não existe nenhum negócio que remunere o capital tanto quanto deixar o dinheiro rendendo no banco. É uma situação insustentável, e os bancos já perceberam. Para baixar os juros exigem, com a urgência que o caso requer, as reformas (sendo que nesse sentido outra lei já foi aprovada, a chamada lei da terceirização), que em seu conjunto atendem às demandas dos empresários, sobretudo dos bancos, os quais, para aceitar a baixa dos juros, colocam como condição diminuir os seus custos com mão de obra para tentar manter a sua rentabilidade. Os bancos brasileiros são os mais rentáveis das Américas.

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taxa de lucro mundial

 

 

 

 

 

 

 

 

FONTE: Uma taxa de lucro mundial
A globalização e a economia mundial
Publicado por Eleutério Prado

A “esquerda” e a defesa do projeto “nacional desenvolvimentista”

 Partidos de esquerda, que estão puxando uma “aliança ampla” para viabilizar as “diretas já”, na verdade, não têm nenhum interesse que isso venha a acontecer de fato, pois, supondo que as diretas ocorram agora com Lula sendo eleito, este terá que fazer as reformas. Daí que a notícia acerca dos conchavos de Lula/PT com Maia (afirmado pela mídia e negado por Lula) não seja algo inverossímil, antes, pelo contrário, é muito provável que tenha acontecido e que estejam acontecendo articulações nesse sentido, ou seja, jogar as fichas na eleição indireta. Caso Temer recupere o fôlego (o que é pouco provável, mas, não impossível), para esses partidos de “esquerda” seria a saída ideal: Temer, que não tem mais nada a perder, faz as reformas e deixa o terreno livre para o sucessor completar o serviço. Sim, completar, pois o que virá depois, provavelmente, será a privatização das três grandes empresas estatais remanescentes: Petrobras, BB e Caixa.

Temos lido e escutado discursos de gente como José Dirceu, do PT, e Adilson, Presidente da CTB e membro do PC do B, dentre outros, que pregam a necessidade de uma frente ampla, para viabilizar as “Diretas, já” e a defesa de um “projeto nacional de desenvolvimento”.  Resta a essa gente nos esclarecer se existe aqui, face ao desenvolvimento histórico do capitalismo no Brasil, uma burguesia não associada e não subordinada ao grande capital internacional a ponto de pretender ter, ou de efetivamente possuir, um projeto de “desenvolvimento nacional autônomo”. Se essa burguesia inexiste, em nome de quem esses partidos reivindicam esse “projeto de desenvolvimento nacional”? Na verdade, trata-se de um blefe. Defendem, isto sim, o projeto do capital nacional associado e subordinado ao grande capital internacional. Resumindo, defendem o grande capital internacional. Portanto, quer seja por conta da defesa dos interesses da “burguesia nacional”, ou do grande capital internacional, estão no polo oposto aos interesses dos trabalhadores.

Em uma conjuntura de crise como a que estamos vivendo, onde as centrais sindicais tentam assumir o protagonismo da luta (pós-junho de 2013) a serviço dos interesses eleitoreiros dos ditos partidos de esquerda (dos interesses da burguesia, portanto), precisamos conclamar aos trabalhadores para que construam a greve geral, alicerçada em organizações de base, livres e autônomas (livres e autônomas em relação à burguesia e aos seus representantes: partidos institucionais, sindicatos e centrais sindicais) como a única forma de não ser derrotados.

Precisamos reconhecer que no atual estágio de organização dos trabalhadores, onde, ao que tudo indica, a sua fatia que, do ponto de vista objetivo, seria a mais resoluta e obstinada, o operariado, ainda se mantém sob os auspícios da estrutura sindical e dos partidos institucionais. Os trabalhadores devem-se organizar para manter e assegurar os seus direitos; isto não significa dizer que devemos nos contentar “apenas” com isso. Significa dizer que se essas reformas forem barradas, vai dificultar as manobras da burguesia, que tenta imputar aos trabalhadores o ônus da sua crise.

                                                   Germinal, Brasil, junho/2017

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