COMEMORAÇÃO DA REVOLUÇÃO RUSSA

Em 25 de Outubro deste ano comemoram-se os cem anos da vitória das massas insurretas formadas por operários, camponeses e soldados, sob a direção de comunistas organizados no Partido Bolchevique. Essa revolução não foi a primeira tentativa de se estabelecer um poder político socialista, mas ela foi sem sombra de dúvida, pela sua extensão, profundidade e densidade política e social, o mais importante evento já registrado no mundo, em se tratando de uma experiência histórica que propunha o estabelecimento de um novo modo de produção e, concomitantemente, novas relações sociais de produção baseadas nos princípios da socialização dos meios de produção e distribuição do produto social do trabalho.

Nunca é demais salientar, e lembrar, a importância que tiveram homens e mulheres geniais produzidos no processo de desenvolvimento da luta de classes na Rússia, o desfecho que eles deram para a tomada do poder e os primeiros anos da revolução. Isso tudo seria impossível se as melhores cabeças pensantes da Rússia não estivessem agrupadas no mais importante instrumento de combate proletário revolucionário já criado: o partido bolchevique. Também, diga-se de passagem, a Revolução Russa contou com a participação toda especial de Lênin, o maior e mais completo de todos os revolucionários do século XX até os dias de hoje. Seu trabalho à frente do partido bolchevique e do Estado soviético deixou ensinamentos fundamentais para as futuras gerações de marxistas revolucionários, registrados em mais de cinquenta tomos de suas obras completas. Lênin é considerado o homem que mais escreveu no mundo, o que por si só já denota curiosidade intelectual em conhecê-lo.

A Revolução Russa, a despeito de todos os defeitos, deformações e ambiguidades vistas em processo e prolongamento progressivo, contribuiu de forma efetiva para a divulgação e extensão de ideias marxistas por todos os continentes, vindo assim a influenciar de forma marcante várias gerações e servindo de inspiração aos militantes de vários processos revolucionários e do conjunto do movimento comunista. Criou ainda, tanto internamente como por extensão externa, formas de organização baseadas em instrumentos genuinamente proletários, enquanto organismos de poder: os sovietes ou conselhos − a forma autêntica de incorporação do Estado ao socialismo. Os sovietes, até quando puderam existir sem a deformidade burocrática do stalinismo, foram também a forma russa da ditadura revolucionária do proletariado, garantindo assim um forte e implacável combate às forças da contrarrevolução, ao mesmo tempo em que exercitavam nas massas os mais altos índices de democracia.

O partido formado por quadros intelectuais e operários comunistas, juntamente com os sovietes, se constituíram em instrumentos revolucionários de combate ao Estado e às forças da contrarrevolução. Esses dois organismos passaram assim a ser imprescindíveis para todos os processos de desenvolvimento da luta de classes na direção do socialismo e do comunismo; ou seja, de uma particularidade da Revolução Russa passou a se constituir numa lei geral da revolução socialista. Sem sua observância e constituição o passo em direção à tomada revolucionária do poder pelas massas e implantação da ditadura do proletariado seria uma coisa inócua, irrealizável historicamente, um sonho abstrato, idealista e platônico. Na Revolução Russa os dois instrumentos de luta de que se serviu o proletariado (partido e sovietes) são peças tático-estratégicas fundamentais da revolução mundial, e ela não existirá sem eles.

Esse é o legado histórico mais importante da Revolução Russa, e ele não pode ser visto como um fio tênue pelos diversos analistas que neste momento se fazem passar por historiadores especializados. A não observância desses fatores leva a uma análise incompleta e distorcida de todo um processo complexo do que foi a mais importante experiência proletária do século XX. Por outro lado, desconhecer também o papel fundamental da agitação e propaganda política do partido entre as massas, bem como do papel dele na organização dos sovietes, é não querer enxergar ou no mínimo tapar o sol com a peneira.

Essa revolução, entretanto, sofreu profundas limitações de caráter, antes e acima de tudo decorrente da própria estrutura política e social da Rússia, um país que tinha fortes traços de relações de produção feudais, relações de produção campesinas, preponderantes em larga escala no campo, um capitalismo incipiente e contando com uma classe operária bastante diminuta. Isso por si só influenciaria diretamente na estratégia e na tática do partido bolchevique, fazendo com que se propugnasse durante muito tempo por uma política de aliança entre operários e camponeses. Muito embora se admitisse, do ponto de vista teórico, que na ditadura do proletariado a classe operária não divide politicamente o poder com nenhuma outra classe e/ou segmento de classe, acabou-se por realizar concessões perigosas, do ponto de vista do socialismo, para um campesinato que estava mais afim de garantir os seus interesses próprios do que em se solidarizar com a classe operária em particular e o conjunto do proletariado em geral. Por esse prisma, podemos afirmar que esse condicionante interno da Rússia foi suficiente para estancar o fogo daquela tentativa de experiência histórica proletária.

Outro ponto do estrangulamento da revolução bolchevique foi, sem sombra de dúvida, o proveniente da situação internacional. Além do bloqueio internacional feito pelos outros países capitalistas, o isolamento da revolução também se deu pela derrota dos movimentos socialistas nos principais países da Europa e do mundo. Esses movimentos, desde finais do século XIX, já vinham dando uma guinada de 180 graus à direita no sentido de se estabelecer uma revisão profunda nos pilares básicos em que se sustentava o marxismo, sobretudo no maior e mais importante partido operário até então − o Partido Social-Democrata Alemão. Eduard Bernstein foi um dos primeiros a tomar essa iniciativa, propondo uma reforma gradual e sem rupturas do capitalismo, com uma ação exclusiva na institucionalidade do parlamento burguês; para isso, teve que deixar de lado as bases filosóficas da dialética materialista, método fundamental desenvolvido por Marx e Engels, em favor do subjetivismo idealista de Kant e seus seguidores. Daí em diante ele vai tentar desmontar princípios táticos e estratégicos pelos quais se empurrava o proletariado para uma revolução, substituindo-os por uma visão pacifista de colaboração de classes, que nega fundamentalmente a importância da classe operária na tomada do poder e na implantação da ditadura do proletariado, expressão, aliás, que passou a abominar em nome da “democracia” em geral. O fato é que essa concepção acabou por se tornar quase que hegemônica nas principais bases da II Internacional Socialista, proliferando ali o mais profundo revisionismo reformista; e esse foi, sem dúvida, um dos principais motivos do desarme político ideológico da classe operária, no que se refere aos seus movimentos táticos, estratégicos e também organizacionais. Foi assim que se estabeleceu uma corrente política forte, que foi capaz de sair vitoriosa frente aos revolucionários e num enlace matrimonial com a burguesia.

Por outro lado, dentro da Rússia soviética, isolada e com problemas estruturais impossíveis de serem superados dentro de um único país, desenvolveu-se uma casta burocrática no partido e no Estado dos sovietes, que, em nome da revolução e do “socialismo”, mais tarde também do “comunismo”, acabou por jogar pesado no campo da contrarrevolução, constituindo-se numa nova classe social dominante, que, a despeito de haver expropriado a velha classe do período czarista, mantinha em relação ao proletariado um regime de privilégios e exploração da força de trabalho, cujo excedente econômico produzido, em especial a mais-valia, era dessa forma surrupiado pelo conjunto de uma verdadeira burguesia de Estado, à frente de um capitalismo de Estado, inaugurando assim um novo modo de produção, predominante na formação social russa. E foi isso que levou ao bloqueio da revolução socialista e preparou o banho de sangue do stalinismo.

A contrarrevolução foi vitoriosa na Rússia, mas nem por isso ela foi capaz de ofuscar os ensinamentos que forneceu ao proletariado internacional e ao conjunto do movimento comunista, em especial às novas gerações de marxistas e leninistas que ainda hoje combatem pela construção de partidos e pelo estabelecimento do poder proletário na forma dos conselhos operários e de trabalhadores. Portanto, as comemorações que se fazem do centenário da Revolução Russa não podem deixar de tocar nestes pontos aqui explicitados de forma bastante resumida, mas imprescindíveis para uma análise que possa repor na ordem do dia as novas tarefas da revolução socialista internacional. Para isso, o domínio do método marxista, o materialismo histórico e dialético, é imprescindível enquanto instrumental fundado em aspectos ontológicos e gnosiológicos, como fizeram Lênin, Trotsky, Bukarin e outros.

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